Opinião

Manifesto pela refundação da beleza das coisas

Poderíamos gritar palavras de ordem como "não quero saber de lirismo que não seja libertação", usar máscaras de Amélie e erguer cartazes com as nossas letras de músicas favoritas.
Esta postagem foi publicada na plataforma, agora fechada, do Colaborador do HuffPost. Os colaboradores controlam seu próprio trabalho, que são postados livremente em nosso site. Se você precisa denunciar este artigo como abusivo, envie-nos um e-mail.

Em dias cinza macilento e tempos estranhos, me sinto em dissonância poética com o mundo.

Nesses dias, penso que deveria ser lançado um grande manifesto em defesa do lírico, do lúdico e dos espantos. Poderíamos gritar palavras de ordem como "não quero saber de lirismo que não seja libertação", usar máscaras de Amélie e erguer cartazes com as nossas letras de músicas favoritas.

A radicalidade da nossa ação não estaria em pautar as grandes questões da conjuntura política do planeta, do país ou das nossas aldeias. Nossa radicalidade estaria em desafiar o óbvio.

A primeira reivindicação seria buscar a poesia e a brincadeira em cada momento cotidiano. Não é possível que um dia qualquer seja qualquer dia. Que não haja pequenas belezas escondidas nas esquinas em que pessoas se atropelam, cotidianamente, em um balé descoordenado de tédio.

Atravessar a rua deixaria de ser apenas uma ação rotineira para chegar ao trabalho. Seria um grande jogo de sorte em que, enfrentando homens verdes e vermelhos, desafiaríamos as combinações de sinais dos cruzamentos e, após driblar a sorte lida no biscoito chinês de cada semáforo, chegaríamos ao outro lado, ofegantes, e diríamos para as pessoas, que nos assistiriam embasbacadas: "Acabei de driblar o destino".

Nossos manifestantes estariam convocados a, na hipótese de não encontrar poesia alguma no cotidiano, criar pelo menos um versinho. Há uma enorme resistência de lidar com o inusitado, especialmente se ele vier do lúdico, e não do trágico. Uma dose homeopática de Datena é socialmente aceitável, até para lembrar que a vida ordinária é o melhor modus vivendi. Mas o inusitado que nos liberta, esse pertence apenas aos loucos, aos bêbados ou às crianças. Ou seja, só ao público alvo de nosso manifesto.

Lembro que um ex-namorado me acompanhava no supermercado e, ao me ver conversando com o atendente, me repreendeu. "Você acha que todo mundo acha normal a pergunta 'você viu um pé de alface por aí' ou 'onde você estaria se você fosse um tomate?'".

Não. Elas não acham normal. E é exatamente isso que queremos subverter. E nossas intervenções inusitadas funcionariam como um código secreto para identificar os membros de nossa revolução. Ruidosamente, estaríamos declarando o fim da paz nos dias comuns, nas conversas repetidas de elevador e no tédio do convívio social.

Um ponto que nos seria caro, contudo, é a expressa proibição de colocar rótulos em pessoas ou relações. Não é porque agimos com carinho e atenção que queremos algo em troca. Não é porque temos 30 anos e estamos solteiras que estamos buscando um marido. Não é porque as vezes somos ríspidos que somos sempre brutos.

Essa parte ritualística do processo seria nosso momento catártico de libertação, em que rasgaríamos o contrato social (nunca conseguimos ler aquelas letras miúdas) e construiríamos performances mais autênticas, declamando nossas próprias poesias. Bonita seria a espontaneidade de nossa essência, e não os versos dodecassílabos.

Nós conseguiríamos refundar o socialismo ou legalizar o aborto? Talvez não. Mas talvez lançássemos uma provocação direta às pessoas sobre o que elas entendem por ser humanas, demasiado humanas, e convidaríamos todas a ter uma vida menos ordinária.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:

VEJA MAIS SOBRE NO BRASIL POST:

Meditações Diárias