OPINIÃO
14/03/2016 16:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Lute como uma menina: Mas lugar de menina é na política?

O menino é pai do homem, diria Machado de Assis. O menino tem, portanto, um lugar bastante específico (e, com alguma frequência, tem também um tutor). Seu lugar é o de aprendiz da arte da política. Uma vez iniciado, ninguém mais o chama de menino. Ele ganha um kit: direito a um nome e a opiniões. A menina, não. Gênero e idade combinam-se como queijo e goiabada na tapioca, de forma muito amarga.

CHRISTOPHE SIMON via Getty Images
Brazilian women demonstrate in favor of abort legalization and against the president of the Brazilian Chamber of Deputies, Eduardo Cunha, in Rio de Janeiro downtown on November 11, 2015.AFP PHOTO / CHRISTOPHE SIMON (Photo credit should read CHRISTOPHE SIMON/AFP/Getty Images)

A manifestação do 8 de março mal chegou à Praça da República e uma jovem começa a gritar "Secundaristas! Jogral!".

Rapidamente, dezenas de meninas reúnem-se num círculo e iniciam o jogral das secundaristas, repertório central das manifestações de estudantes das escolas públicas que ocuparam as escolas e as ruas em 2015.

Elas não precisam de microfone e nem de carro de som. Apenas da voz de todas as moças, reunidas. Em uma onda de repetições de frases que ecoa pelas vozes femininas e se dissipa pelo centro de São Paulo, elas anunciam a primavera secundarista, e denunciam o racismo, a homofobia, a lesbofobia e, como não poderia deixar de ser, o machismo, inclusive institucional. O machismo graduado. Do professor que questiona o "shortinho" curto e o decote.

Ao meu lado, uma jovem descolada entrevista uma moça de cabelo raspado. Por mais que meus ouvidos se esgueirem pela multidão, só alcanço alguns trechos. A jovem de cabelo raspado explica que as mulheres foram fundamentais na primavera secundarista e que, na escola dela, foram primeiro as meninas que ocuparam e que depois o pessoal veio junto.

Lembro de duas fotos que circularam muito pelas redes ao longo do ano passado. Uma, de uma menina negra, de punho cerrado e erguido, como uma integrante do "Pantera Negra", a frente de alguns jovens sentados em cadeiras escolares, parando o trânsito. A segunda, de uma jovem branca confrontando um policial raivoso. As fotos circulavam com a frase "lute como uma menina".

Isso me lembrou que, conversando uma vez com uma amiga do trabalho ela me contou uma história que me deixou estarrecida. Assim que ela começou a trabalhar no mesmo lugar que eu, estávamos em uma reunião. Era uma das primeiras reuniões importantes que ela acompanhava. Empolgada com o espaço que ela estava, pediu a palavra e posicionou-se sobre um tema que estava sendo debatido. Após a fala dela, quem falou fui eu. E eu iniciei minha fala dizendo que "concordava muito com a menina".

Sob um forte efeito de tontura, um filme com efeitos de "flash back" projetou-se de forma desordenada no mini cinema particular do meu cérebro. Lembrei que, quando comecei a trabalhar no governo, não importava o quanto eu me preparasse para uma reunião, ou o quanto era relevante o que eu tinha a dizer. O comentário (quando existia) sempre era de que "a menina" tinha dito isso ou aquilo. No começo isso me incomodava, mas eu não sabia muito bem o porquê.

Um pouco mais de vivência e teoria feminista após, consegui compreender o que me incomodava. A menina que aparecia nas reuniões não era a forma carinhosa que eu chamava minhas amigas ("menina, você não sabe quem eu vi nesse final de semana"). Nem era a menina da música dos Mutantes. Era uma "menina" com um lugar específico. Se o "lugar da mulher é na política" é muito mais uma palavra de ordem estampada nas camisetas do 8 de março do que um dado da realidade, o lugar da "menina" era ainda mais bem delimitado como um "não-lugar".

O menino é pai do homem, diria Machado de Assis. O menino tem, portanto, um lugar bastante específico (e, com alguma frequência, tem também um tutor). Seu lugar é o de aprendiz da arte da política. Uma vez iniciado, ninguém mais o chama de menino. Ele ganha um kit: direito a um nome e a opiniões.

A menina, não. Gênero e idade combinam-se como queijo e goiabada na tapioca, de forma muito amarga. A menina pode até conquistar o direito a um nome e a opiniões. Mas sua luta é algo meio "jogos vorazes". Com um agravante. A reiteração de seu "não-lugar" de menina pode mesmo levá-la a assumir, de cara, o que muitas mulheres acabam por admitirem: lugar da mulher não é na política. Como qualquer foto oficial de autoridades no Brasil e no mundo permite captar.

Depois de ganhar um pouco mais de malícia, eu comecei a subverter a menina. Em uma reunião, certa vez, a mulher que a coordenava referiu-se a mim e a uma colega como "as meninas". Eu, rapidamente, olhei para a mulher mais importante da reunião, peguei a sua mão, e, de forma bastante teatral, rebati "acho que ela está falando de nós". Ela, que era genial e generosa, respondeu: "que bom! Sempre me achei uma menina! ". A coordenadora, muito sem jeito, respondeu: "somos todas, né?".

Nesse dia, o lugar da menina foi na política.

E, assim, voltamos à República, no centro de São Paulo, em 8 de março de 2016. Dezenas de meninas reivindicam esse lugar. O de ser uma menina. O de lutar como uma menina. Vozes ordenadas em jogral estão, na verdade, dizendo que o lugar da menina é na política. Ou onde ela quiser.

E, dessa forma, essas meninas subvertem a linguagem com uma prática ousada e cheia de juventude. Ser menina é um distintivo de coragem e liderança.

Que o feminismo e o mundo sejam dessas meninas.

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