OPINIÃO
25/02/2014 15:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

A chuva e a cidade

Quando há falta de água na cidade primeiro procuramos um culpado, seja ele o governo, o aquecimento global ou a Sabesp. Em seguida nós evitamos o desperdício, mudamos nossos hábitos. Mas por que só agora?

Paulo Whitaker/Reuters

Momentos de crise são sempre interessantes. Claro que eu me preocupo com a falta de água na cidade, não só pelo transtorno que isso causa momentaneamente, mas porque toda nossa vida e nossa sociedade estão estruturadas em função deste recurso subestimado. Imagine um hospital, uma escola ou uma empresa funcionar sem água? Impossível. Isso sem falar no impacto que o desequilíbrio no ciclo da água tem na natureza como um todo. Mas vamos por partes. Foquemos no desafio da cidade de São Paulo.

O curioso, a meu ver, é que o primeiro impulso de grande parte das pessoas é achar um culpado. Se está faltando água, a culpa é do governo, do aquecimento global, de São Pedro, da Sabesp... Antes fosse simples assim.

Outro impulso que tenho observado é a realização de campanhas de incentivo para mudar hábitos e práticas, a fim de evitar o desperdício de água e energia. Justo. Mas por que só agora? Sabemos economizar os recursos dos quais dependemos, já tivemos exemplos de esforços bem sucedidos em outras épocas de falta de chuvas e apagões. Por que não fazemos isso sempre, e só em momentos de crise?

Acho que gostamos de um pouco de drama nas nossas vidas. Ou estamos acomodados demais para rever nossos hábitos. Será que a água tratada aqui no Brasil é muito barata? Vira e mexe, apesar das campanhas e das notícias alarmantes sobre o tema (o baixo nível do Sistema Cantareira, por exemplo), vejo o pessoal lavando a calçada com a mangueira aberta, papeando com os vizinhos. Custa fechar a torneira enquanto o papo rola solto? Precisa mesmo regar o jardim com água potável? São tantas questões.

Sei que este é um assunto que está sendo tratado em vários canais, mas não resisti a falar sobre ele aqui, até porque a água é um tema que me intriga desde sempre e é imprescindível para todos os aspectos da nossa vida. Infelizmente, este não é um problema que pode ser resolvido de forma simplista, não existe um botão que podemos apertar para que a falta d'água seja resolvida até a semana que vem. Ou até a próxima eleição.

A solução requer uma análise muito mais ampla, que leva em consideração toda a complexidade da questão: capacidade instalada e eficiência do sistema, custo de tratamento de água, mudança no regime de chuvas, diferentes padrões de consumo, papéis e responsabilidades dos diferentes órgãos públicos, privados e da sociedade civil... A partir desta análise, é fundamental que um projeto para a cidade, com plano de ação concreto, integrado e de longo prazo seja desenhado e implementado, independentemente das mudanças da gestão. Ou seja, o equilíbrio desta equação é muito mais delicado do que imaginamos à primeira vista. A culpa não é toda da falta de chuva.

Utilizar este recurso de forma consciente, levando em consideração o contexto local, anular as perdas e reduzir o consumo de água em geral, inclusive de água tratada para fins não potáveis, buscar maior eficiência nos processos industriais, recuperar e preservar mananciais e matas ciliares são algumas das ações que podemos adotar já para contribuir com a solução do desafio. E, enquanto trabalhamos para construir um novo olhar integrado sobre a gestão da água, torço para que chova bastante.