OPINIÃO
24/03/2015 16:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

'Uma Linda Mulher' e a terrível verdade sobre a prostituição

Julia Roberts encantou as audiências como uma "prostituta feliz", e sua química com Richard Gere, um investidor agressivo fazendo negócios em Los Angeles, era inegável. Os dois incendiaram a tela. O único problema é que a prostituição retratada no filme não poderia estar mais distante da verdade.

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Há exatos 25 anos, uma das comédias românticas de maior sucesso da história do cinema, "Uma Linda Mulher", estreava nos Estados Unidos. O filme arrecadou quase meio bilhão de dólares até hoje.

Julia Roberts encantou as audiências como uma "prostituta feliz", e sua química com Richard Gere, um investidor agressivo fazendo negócios em Los Angeles, era inegável. Os dois incendiaram a tela.

O único problema é que a prostituição retratada no filme não poderia estar mais distante da verdade.

A prostituição é terrível. A maioria envolve tráfico de sexo. É intrigante saber que o roteiro do filme originalmente era uma história sombria, um alerta. Da minha perspectiva de sobrevivente, essa é a triste realidade.

Muito poucas entre nós escolhem "cair na vida". Não somos felizes e com certeza não curtimos o sexo com os clientes. De acompanhantes de alto nível a garotas compradas online, as mulheres prostituídas são atrizes.

O FBI define tráfico de sexo como o uso de "força, fraude e coerção" e afirma que cerca de 100 000 vítimas são atraídas para os Estados Unidos a cada ano. Sei da minha experiência pessoal e profissional que a grande maioria das garotas e mulheres prostituídas são exploradas - isso significa que são vítimas do tráfico. A maioria vem de comunidades que tem muito pouco a oferecer para elas em termos de futuro. A maioria é atraída por homens que começam como seus "namorados" e depois as viciam em drogas e passam a vender seus corpos para uma fila interminável de homens - que não têm nada a ver com o perfil do personagem interpretado por Richard Gere.

Vamos entender os fatos. Entre os homens americanos, 85% deles nunca compraram o corpo de alguém. Sim, alguns são muito ricos. Mas a maioria, não. Eles são o "cara comum" - sentado na sua classe, no almoço de Páscoa da sua família, na mesa vizinha à sua no escritório. E agora eles podem comprar sexo ilegal pela internet, mais anônimos do que nunca. Não é aquela estrela de cinema que vai arrebatar a mulher pela qual está pagando e levá-la para uma vida de romance, luxo e felicidade.

Polícia, promotores e juízes estão começando a reconhecer a verdade sobre o tráfico. Depois de anos - décadas, séculos --, eles começam a entender que as vítimas precisam de tratamento, não de punição, para que não voltem a "cair na vida". Alguns, como o xerife do condado Cook, Tom Dart, chegam a contratar sobreviventes como eu para falar com as meninas do ponto de vista de alguém que tem experiência. Com alguma esperança, elas podem ser convencidas a abandonar a prostituição.

Ainda assim, algumas mulheres voltam repetidas vezes à polícia, com novos ferimentos, dentes perdidos e assim por diante - vítimas de violência não só dos cafetões como também dos clientes. Como eu disse, a grande maioria dos homens não está envolvida nisso. Mas muitos dos caras que compram sexo não pagam só pelo ato físico, mas pelo poder sobre alguém como eu. Muitas vezes eles sabem, ou então não se importam, que as meninas são menores de idade. A linha entre prostituição e sexo com menores é realmente difícil de estabelecer.

Com tráfico, estupro e prostituição tão emaranhados e tão longe da fantasia de "Uma Linda Mulher", alguns líderes ousados nessa área estão adotando uma nova estratégia: prender não os vendedores ou os cafetões, mas os compradores. Em entrevistas, os homens dizem que parariam se soubessem que haveria consequências: se alguém da família ou o chefe ficassem sabendo, se houvesse multas pesadas ou se seus carros fossem apreendidos.

Há 40 anos, as pessoas achavam que nada pudesse ser feito para impedir estupros ou violência doméstica. Hoje ambos são considerados crimes terríveis. O mesmo pode ocorrer com o tráfico de sexo. Os homens começam a tomar atitudes, dizendo para os outros que não é OK comprar um corpo. Garotos com quem convivo crescem sabendo que respeitar uma menina significa saber que o corpo delas não é um produto. Elas não estão à venda.

Este ano, polícias e outros parceiros de 11 cidades americanas criaram uma rede chamada CEASE (sigla em inglês para cidades empoderadas contra a exploração sexual) para expandir as ideias minhas e de meus colegas do condado Cook. Existe um enorme grupo de vítimas como eu (nos intitulamos "sobreviventes") no centro dessa rede. Estamos cobrindo o país inteiro e vendo uma mudança dramática.

Não é para os fracos - esse setor costuma estar nas mãos do crime organizado. Mas operações têm sido realizadas para prender e processar os compradores, não as vítimas, e estamos pegando embalo. Não se trata só de punir. Estamos criando programas educacionais para que os clientes fiquem cara a cara com o trauma que causam nas garotas e mulheres.

Talvez um dia Hollywood produza um alerta sombrio com a história terrível da prostituição, mas com um final feliz diferente: uma redução dramática desse flagelo nacional. Sem compradores não há negócio. A prostituição não é a profissão mais antiga do mundo. É a opressão mais antiga do mundo.

Eu sei.

Marian Hatcher é sobrevivente do tráfico de sexo e gerente de projetos da polícia do condado Cook.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.