OPINIÃO
13/03/2014 11:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Trotes: integração ou desumanização?

Jovens simulando sexo oral em bananas, amarrados em postes, obrigados a pedir esmolas e encharcados com misturas de lama, urina, ovo e restos de peixe. Estas são apenas algumas maneiras de estudantes darem as boas-vindas aos colegas que ingressam o ambiente universitário de aprendizado, reflexão e crescimento intelectual.

Os trotes são considerados por muitos como uma forma de integrar e aproximar veteranos e calouros, mas com frequência são marcados pela violência, humilhação, discriminação de gênero, racial ou social. De acordo com o livro Universidades, Preconceitos e Trotes, dos professores Antônio Almeida Jr. e Oriowaldo Queda, pelo menos cinco jovens morreram no Brasil desde 1831 em decorrência de trotes universitários.

Muitos outros foram espancados, queimados com ácidos ou levados para o hospital em coma alcoólico. Há ainda o caso de um jovem que ficou cego, outro que teve um peso de sete quilos amarrados nos órgãos genitais e um outro que teve um ovo introduzido no ânus. Isso tudo por brincadeira e para acolher os novatos!

A situação dos trotes no Brasil é grave, mas ainda assim parece não ter as mesmas dimensões do que em Portugal. Em 15 de dezembro de 2013, seis jovens universitários morreram afogados na praia do Meco - a 40km da capital Lisboa - ao participarem de um fim de semana de praxes - como os trotes são chamados no país.

A tragédia suscitou o debate acerca dos limites e da necessidade de mais controle por parte das instituições, mas muitos consideram a prática uma tradição que não pode ser interrompida. Muitas faculdades possuem comissões oficiais de trotes que assemelham-se a cultos secretos em que os membros obedecem a uma hierarquia, adotam codinomes, fazem juramentos, pactos de silêncio, preenchem relatórios detalhados periodicamente e assinam termos de responsabilidade por qualquer consequência, inclusive a morte.

Ao contrário do Brasil em que os trotes são aplicados nos novatos e duram um dia, semanas ou meses, em Portugal eles podem prevalecer durante todo o percurso acadêmico, inclusive para os estudantes que participam da comissão de trotes e almejam subir na escala hierárquica até os postos mais altos.

A tragédia do Meco ainda não foi esclarecida e é rodeada de mistérios. As seis vítimas - quatro mulheres e dois homens - pertenciam à Comissão Oficial de Praxe (Copa) da Universidade Lusófona de Lisboa e estavam no último ano do curso.

Ao que tudo indica, o fim de semana tinha o objetivo de definir os trotes que seriam aplicados neste ano letivo. O único sobrevivente, o Dux - segundo cargo mais importante na hierarquia da Lusófona e que portanto não poderia sofrer trotes de ninguém ali presente - manteve o silêncio por dois meses e somente agora afirmou que na madrugada da tragédia não houve trotes na praia. Segundo ele, as mortes foram um acidente. Vizinhos da casa alugada pelos estudantes - localizada a 7 km da praia - afirmam que viram os jovens rastejando com pedras presas ao pé e consumindo bebidas alcoólicas.

Além da necessidade de resposta acerca do que de fato aconteceu com as seis vítimas da praia do Meco, o episódio é importante para universitários portugueses e brasileiros, contrários ou a favor dos trotes, responderem à uma questão: afinal, de que forma os trotes contribuem para a integração e o acolhimento - e não a desumanização - dos estudantes novatos?