OPINIÃO
21/03/2014 11:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Sobre Rio, carnaval e Copa

O Rio é o Brasil, meu povo! A falação, a educação, a falta de educação, a paz, a violência a receptividade, o cheiro de esgoto, a confusão para se locomover, a felicidade. Tudo o que se fala do Brasil lá fora, bem ou mal, é o Rio.

Obrigada, Rosenwald. Obrigada, gringo.

Seu texto foi a última peça de um quebra-cabeça que levei 24 anos para montar. Um quebra-cabeça sobre o Brasil. Seu relato sobre a chegada ao Rio lembrou o dia que conheci a cidade. Eu, 6 anos de idade, com irmã, mãe e tia dentro de um ônibus por 16 horas, desde Brasília. A primeira impressão da cidade veio com o mau cheiro. "Mãaaaeeee, alguém soltou um peido muito fedido", eu gritava no meio de um engarrafamento na Avenida Brasil.

Desembarcamos na Rio Novo e qualquer coisa que eu escreva aqui sobre a primeira visão que tive do Cristo Redentor vai soar clichê. Não tem foto. Mas que eu lembro, eu lembro. De novo, mais uma viagem de não sei quantas horas para Búzios. Descemos em uma estrada de chão e fomos obrigadas a pegar carona em um fusquinha também sem o banco da frente e totalmente sem lataria. Era 1990 e olha o que a gente fazia para ver o mar. Lembro perfeitamente a gentileza do moço da carona e das famílias cariocas que começavam a povoar a Praia de Tucuns.

No único dia de passeio no Rio, me recordo do espanto da minha mãe com a gentileza dos motoristas de ônibus e cobradores. Eles informavam os trajetos mais fáceis, onde poderíamos comer mais em conta, o que fazer. Tudo. Não sei como os motoristas na nossa cidade nos tratavam, mas certamente, naquele momento, isso nos surpreendeu. No caminho de trem até o Corcovado, um casal de japoneses tentava, sem sucesso, convencer a minha mãe a entregar-lhes a minha irmã de 4 aninhos de idade. Tudo sem cerimônia.

E nós, crianças, deslumbradas com aquela floresta linda. Em Goiás só tem cerrado, que é lindo, mas é só cerrado, oras. O almoço - feijão preto, bife ou filé de peixe e arroz branco - é até hoje o meu preferido. Lembro também perfeitamente o meu maior encanto: o povo sorrindo, falante. Minha alma introspectiva se abria com as pessoas puxando assunto, perguntando, respondendo, elogiando. Não sei explicar, mas de onde eu vinha e onde estou, as pessoas não são assim. E eu, que não sou assim, preciso disso aqui comigo.

Agora, 24 anos depois, decidi passar o carnaval no Rio para finalmente perceber que o Rio, a gente queira ou não, é o Brasil. O RIO É O BRASIL, MEU POVO. A falação, a educação, a falta de educação, a paz, a violência a receptividade, o cheiro de esgoto (ou do lixo durante a greve no carnaval), a confusão para se locomover, a felicidade. O nosso comportamento lá. Tudo o que se fala do Brasil lá fora, bem ou mal, é o Rio. E é mais fácil cuidar do Rio como brasileiro do que mudar essa ideia.

Da minha parte, precisei viver um ano na Espanha, conhecer o sonho californiano, levar 10 anos para me sentir feliz em Brasília para entender que o que eu não sou e o que preciso ter aqui comigo é essa alma de Brasil. Essa alma que está no Rio. Coincidentemente ou não, já tinha sentido um pedacinho disso na Copa das Confederações, quando fui trabalhar e assistir à partida final entre Brasil x Espanha. Dentro do Maracanã, entendi o que é pertencer de fato. No carnaval, me senti pela primeira vez com identidade. Levei 30 anos para sentir o que é ser feliz no meu país, na alma. Não existe Teoria Crítica decorada também na minha alminha de comunicóloga que me convença de que isso é ilusão fruto da indústria cultural. A felicidade que eu sinto em ser brasileira e AMAR a cultura popular do meu país é minha e ninguém me tira.