OPINIÃO
10/02/2015 17:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

O que eu tenho a ver com essa história de parto?

a4gpa/Flickr
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No dia 5 de outubro de 1991 minha mãe saiu de Padre Bernardo, Goiás, para dar à luz pela terceira vez. Foi naquela cidadezinha distante 80 km de Brasília que ela conheceu meu pai. Eles se casaram e nós vivíamos relativamente bem. Interior era assim, as coisas corriam bem até você precisar de um médico. E médico, o povo só precisava de verdade quando ia parir, sofria acidente grave de carro ou levava bala.

Padre Bernardo até tinha um médico, um único, o dr. Wilmar, clínico-geral que resolvia os casos que dava, com uma quantidade limitada de insumos e sem equipamentos. Na cidade havia também uma farmácia (pra onde todo mundo corria) e um dentista (de quem todo mundo corria).

Havia um pequeno hospital fantasma -ou que na minha cabeça era fantasma. Ninguém era atendido lá. Uma vez, não sei se pela escola, numa brincadeira de criança, ou com um parente, entrei lá. Entrei em uma sala e vi vários fetos em potinhos. Foi a primeira e única vez que vi um feto. Nunca vou esquecer.

Foi também nessa época que tive meu primeiro contato com a morte. Um amiguinho da minha rua (a gente brincava na rua) foi para a roça e pegou tétano. Demoraram para diagnosticar e tratar. Morreu. Um menininho de 7 anos que na minha cabeça tinha morrido "de machucado". Desde então passei a ter pavor de brincadeiras que envolviam madeira, prego, lata. Lixo. E como tinha lixo pra gente brincar.

Aí você me pergunta: e vacina? Bom, depois disso, vacinaram a gente com a antitetânica. Uns anos depois teve um surto de febre amarela. Foi todo mundo vacinar em Brasília. Meu pai encheu a caçamba de uma caminhonete de menino e lá foi todo mundo lotar o posto de saúde do Distrito Federal. Hoje me parece tão irracional. Veja só, um amontoado de menino se escondendo da fiscalização rodoviária, sem cinto de segurança, correndo sério risco de acidente, indo para Brasília vacinar e se salvar. Na nossa cabeça de criança, íamos para o abate. O algoz era o moço da injeção.

Aí você imagina. Se nem vacina contra febre amarela a gente tinha, como é que uma gestante podia fazer um pré-natal decente? Por segurança, eu e minha irmã do meio tínhamos nascido no hospital mais próximo, em Brazlândia, cidade do Distrito Federal.

Todo mundo nascia assim. Mentira. Alguns amigos tinham nascido "de parteira". O problema desse método, minha mãe dizia, é que se o menino ficasse entalado, seria bem complicado de tirar. E como já deu pra perceber, não tinha ambulância. Não tinha incubadora. Não tinha UTI. Não tinha nada.

Lá foi a minha mãe para Brasília dar à luz. No hospital, ela explicou que era sua terceira filha e que as duas anteriores tinham nascido de cesárea. O tempo foi passando e eles foram esperando o parto normal. Esse era o protocolo da rede pública, disseram.

Minha mãe alertou para os problemas que tivera comigo. Nasci muito depois da hora porque tentaram induzir o parto normal. Forçaram de novo até não ter mais jeito e fizeram a cesárea. Minha irmãzinha nasceu. Não colocaram em acompanhamento especial, não falaram nada.

A mãe chegou em casa com aquela menininha gordinha, toda cabeluda. Nunca me esqueço. A Bái foi crescendo e vieram as dificuldades, primeiro para andar e falar. Tropeçava em tudo, não enxergava bem. A gente foi percebendo que tudo na vida da Bái acontecia mais devagar do que para as outras crianças. Minha mãe começou a buscar respostas. E aí é mais Brasília, mais médico, ressonância, exame de tudo que é tipo.

Depois de muito procurar, um neurologista explicou que a Bái tinha Deficiência Mental Leve. Que naquele momento não dava pra precisar até que ponto de desenvolvimento ela iria, mas que era importante ter um acompanhamento pedagógico e motor desde cedo. Na verdade, desde bebê, o que não aconteceu. O motivo da deficiência: com 90% de certeza, havia faltado oxigênio no cérebro do bebê na hora do parto. Ela tinha demorado para nascer. Naquele momento, aprendemos uma lição que levamos para sempre: nenhum posicionamento, sonho ou expectativa supera a realidade. Ela é implacável.

É por isso que não consigo me posicionar contra ou a favor do parto humanizado, da cesárea, do parto normal ou qualquer procedimento do tipo. É por isso que o posicionamento neste caso, apenas por me posicionar, é irrelevante, precipitado e irresponsável. Não tenho o direito de dizer a uma mãe como ela deve dar à luz.

No entanto, tenho o direito de cobrar para que as mães dentro e fora dos planos de saúde tenham condições de tomar essa decisão. É por isso que conto essa história. O foco, minha gente, não é apenas a cesárea que a mãe de classe média faz com dia e hora marcadas. Olhem, por favor, para as crianças que ainda morrem logo após o nascimento (hoje muito menos que em 1991 e estamos caminhando). Olhem para as crianças que não são vacinadas. Para as mães que peregrinam de hospital em hospital no momento de dar à luz. Olhem pelas que percorrem mais de 80 km para dar à luz, como fez minha mãe no dia 5 de outubro de 1991.

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