OPINIÃO
20/05/2015 10:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Solar Impulse: o futuro já não é mais como antigamente

divulgação

Um novo símbolo está nascendo. É o perfil do Solar Impulse, o frágil e majestoso avião que está completando a primeira volta ao mundo a energia solar.

Partiu de Abu Dhabi em 9 de março, vai decolar de Nanquim (China) para atravessar o Pacífico, fará escala nos EUA. Em seguida deixará Nova York para atravessar o Atlântico. Início e fim de aventura em Abu Dhabi, sede central de IRENA, a Agência internacional para as energias renováveis, e de Masdar City, a cidade solar idealizada por Sir Norman Foster. Em tempo real pode-se acessar o plano de voo, vídeo e dados do avião.

Alguns símbolos sobrevivem às suas origens. Pesquisem na rede "um dos símbolos mais duradouros do século XX" ou "o mais famoso e conhecido avião do mundo". Você não vai encontrar o Solar Impulse, mas a celebração do glorioso Concorde, o primeiro e último avião de linha supersônico, em serviço de 1976 a 2003. No entanto, na virada do século, foi pousada a última pedra sobre o túmulo do Concorde e colocada a pedra fundamental do projeto Solar Impulse. Os dois aviões revolucionários não têm nada em comum. A sua força está no seu caráter simbólico e de ícones da aviação, cada um em seu século, e que vale a pena comparar.

O Concorde, arauto de uma nova era

Do ponto de vista material e político, o Concorde foi um peso pesado. Joint-venture finanziada pelos governos francês e britânico, o avião foi a expressão da grandeur pan-europeia dos anos '60, ainda que os dois governos tenham brigado por muito tempo por causa do "e" final de Concorde. Pesava 184 toneladas, transportava 96 toneladas de querosene e, potencialmente, 100 passageiros - mas em média eram 65. Voava de Londres a Nova York em três horas e meia a 2200 km/h, com um custo de projeto de 20 bilhões de euros atuais. As hipérboles eram abundantes: "Chegue antes de partir! "A velocidade vende assentos!". Prometia-se o futuro da aviação: 400 jatos supersônicos deveriam navegar pelos céus até o ano 2000. No entanto, aquela pérola de tecnologia foi um fiasco econômico e ecológico.

Comparado aos aviões convencionais, a velocidade do Concorde era mais que o dobro, o consumo o triplo, o custo das passagens até dez vezes maior. Era essencialmente um gigantesco tanque de combustível, com um espaço relativamente reduzido para seus ricos passageiros. Foi o único avião de linha em que o combustível pesava mais do que todo o resto. Por causa do excesso de barulho na decolagem e do estrondo ensurdecedor ao superar a barreira do som, tornou-se logo indesejável e foi proibido em muitos lugares.

Para complicar, nos anos '70 os preços do petróleo aumentaram muito. Em pouco tempo, quase todas as companhias aéreas, exceto duas, anularam as dezenas encomendas. Por fim, as duas empresas públicas, British Airways e Air France, tiveram que arcar com os custos exorbitantes de uma dúzia de aviões novos, mas já obsoletos. Na teoria dos jogos, "Efeito Concorde" tornou-se a definição do momento em que uma empresa torna-se tão grande que os custos para abandoná-la seriam maiores do que o já gasto. Uma espécie de "too big to fail" ante litteram.

Mesmo sendo subvencionada uma parte do custo das passagens, as vendas não cobriam os custos operacionais, muito menos os de pesquisa, desenvolvimento e construção. A aparência do Concorde era esbelta, mas aquela aeronave era o triunfo da massa e do ego. O excesso de peso, potência e velocidade gerava desperdício energético, poluição sonora e atmosférica ainda maiores. Era um avião "futurista", que agradaria a Marinetti. Símbolo de um século de excessos insustentáveis.

Solar Impulse - Símbolo de um outro século?

Agora, olhem para o Solar Impulse, uma enorme libélula voando com um leve zumbido. Com seus 72 metros de envergadura, é do tamanho do maior avião de linha do mundo, o Airbus 380, mas pesa só 2,3 toneladas. A velocidade de cruzeiro é de menos de 100 km/h, o custo do projeto 100 milhões de euros. Tem dificuldades com o vento forte, uma potência média de apenas 8 cavalos, transporta um único passageiro em condições de conforto miseráveis e decola à velocidade de uma bicicleta. Estas palavras descrevem exatamente as peculiaridades de dois aviões: o Solar Impulse, de 2015, e o Wright Flyer de 1903. Ambos provaram ser possível algo considerado impossível: voar - com um motor a combustão o primeiro, com motores alimentados por painéis fotovoltaicos o segundo. O motor a combustão foi a invenção que transformou a face da Terra, inaugurando um século de devastação ambiental sem precedentes. Que papel terão neste século as tecnologias para as energias solar e renováveis?

Sob o estandarte solar

Há quem veja em Solar Impulse um brinquedo extravagante, construído como desafio. Ninguém se ilude que a energia fotovoltaica possa alimentar aviões de transporte. Mas as implicações tecnológicas positivas abrem novas possibilidades para inovações, por exemplo, no campo das telecomunicações. Não é por acaso que Google, Swisscom e outras grandes indústrias tecnológicas figuram entre seus patrocinadores. O objetivo do projeto, porém, não é consolidar um novo modelo comercial, mas comprovar um fato e promover uma ideia. O fato é que a moderna tecnologia solar está madura para enfrentar os desafios mais ambiciosos. A ideia é que este deve ser o século das energias renováveis.

Esta idéia é controversa. No entanto, talvez seja a ideia historicamente mais relevante em circulação. Num mundo de conflitos crescentes, é uma ideia pacífica e pacificadora. Dezenas de milhões de pessoas estão trabalhando para realizá-la. É uma ideia ambiciosa, porque preconiza uma mudança de envergadura milenar para milhões de pessoas. É também uma ideia pragmática, porque indica provavelmente a única saída para a crise climática e para os conflitos mundiais pela energia.

100 por cento da energia a partir de fontes renováveis

Solar Impulse é um protótipo experimental. Mas o que ele representa - a excelência tecnológica em energias renováveis - é já um fato consolidado, em rápido crescimento no mercado global. A longo prazo, o custo unitário das energias renováveis continua diminuindo, enquanto os custos das energias atômica e da maior parte das energias fósseis aumentam ou são voláteis. Mesmo sendo considerada por muitos como irrealista, a visão de uma Europa que poderá produzir com fontes renováveis primeiro a energia elétrica e depois quase todo o seu suprimento energético está engajando um número cada vez maior de cientistas, engenheiros, investidores e políticos.

Não é uma coincidência que os fundadores e pilotos de Solar Impulse, Bertrand Piccard e André Borschberg, sejam suíços, assim como a tecnologia do avião. O governo decidiu em 2002 levar a Suíça a ser uma 'Sociedade a 2000 Watt' na segunda metade deste século, reduzindo o uso per capita de energia primária de dois terços, usando predominantemente energias renováveis e praticamente abandonando os combustíveis fósseis. Se com a energia renovável pode-se voar ao redor do globo - dizem os pioneiros do projeto - por que com a mesma não se poderia alimentar um frigorífero ou um elevador, através da rede elétrica, ou mesmo diretamente? Schindler, outra empresa suíça patrocinadora de Solar Impulse, já está vendendo um elevador solar.

Se a imagem de Solar Impulse se tornar o símbolo popular de uma época de energias renováveis e acelerar seu advento, este terá sido o mais importante resultado atingido. Por fim, se comparamos os ícones do Concorde e de Solar Impulse, o futuro já não é mais como antigamente!