OPINIÃO
12/04/2014 07:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02

O dia em que fui atacado por piratas

Nos nossos planos estava a travessia para a ilha do Combú logo em frente, rumo a um povoado ribeirinho chamado Boa Vista. De repente, o ataque.

A partir de hoje, pretendo usar este espaço no Brasil Post para colocar uma ou duas fotografias e um pequeno texto. Retratos, paisagens, pessoas e bichos, família e estranhos, mas, principalmente, fotografias pessoais feitas durante os meus trabalhos encomendados ou não, que disparem em mim a vontade de escrever.

A primeira foto quase foi perdida para sempre.

O texto começa em Belém do Pará, para onde fui fotografar para uma revista. A ideia era acompanhar o dia de uma barqueira que ganha a vida fazendo a travessia do Guamá, rio que banha a cidade. Para nós do sul, parece que toda essa água é parte do grande estuário daquele rio maior que se abre em volta da ilha do Marajó. Entretanto, aquele é um rio particular, independente e altivo, alma daquela cidade.

Porto da Palha, PA

Nos nossos planos estava a travessia para a ilha do Combú logo em frente, rumo a um povoado ribeirinho chamado Boa Vista. Nosso barqueiro marcou às 4h30 na Porto da Palha. Um lugar com nome leve e um pequeno mercado maltrapilho onde, na madrugada, cestas de açaí esperam para serem negociadas e levadas para o mercado Ver-o-Peso e além.

O mercado é aquele dos postais de Belém, com quatro torres no formato de chapéu de bruxa e que dão à paisagem do cais uma estranha conotação vitoriana. Aparência totalmente deslocada no Equador, mas digna e altiva. Os casebres, a pobreza e o abandono também pareciam ter saído de favelas de um romance de Dickens onde jovens perigosos circulam desesperados.

De repente, o ataque.

A tocaia, o brilho do facão, a espingarda - mais tarde descrita pela imprensa local como "caseira" como se isso a tornasse menos letal - sem balas, mas com parafusos e porcas acomodado em cima da pólvora socada no fundo do cano enferrujado.

Na rápida emboscada meu equipamento foi levado, enquanto permaneci na mira de um encapuzado. Uma espécie de Mack the Knife* do bairro do Condor, nome daquelas vizinhanças, arrancou minha mochila com o meu equipamento e desapareceu nas sombras das palafitas. Cerca de 20 figurantes locais observavam tristes a cena enquanto eram também ameaçados.

Mais tarde a delegacia. Mais tarde os jornais locais tratavam do caso dos paulistas metidos na enrascada tão habitual nesse nosso Brasil. E bem mais tarde ainda, minha câmera voltou, resgatada em uma rápida ação da polícia.

No cartão de memória da câmera, antes vazio pois eu iria começar o dia, três fotos nervosas de um piso de calçada sujo e quebrado, desfocado e em movimento.

Foi esse o protesto silencioso da máquina, retratando da maneira que conseguiu, o seu sequestro-relâmpago. Deixando pistas, incrédula e estupefata.

A foto que a câmera tirou durante a fuga dos ladrões - e o jornal em que noticiaram o roubo

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*o personagem malandro e ladrão munido de faca, da opera dos três vinténs de Bertolt Brecht e Kurt Weill que se passa na esquálida Londres Vitoriana genialmente aclimatizada por Chico Buarque na opera do malandro.