OPINIÃO
11/09/2014 18:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

O colecionador de imagens

Existe um mistério por detrás do verdadeiro motivo que alguém tem para colecionar objetos, ou melhor, sentir-se preso a um objeto, ou no nosso caso uma fotografia.

German Lorca

Existe um mistério por detrás do verdadeiro motivo que alguém tem para colecionar objetos, ou melhor, sentir-se preso a um objeto, ou no nosso caso uma fotografia.

A coleção deste leilão é magnífica, as armadilhas visuais espalhadas e de onde um sensível incauto jamais conseguirá escapar; são inúmeras. Resolvido, portanto, o lado investimento o acervo a ser leiloado traz nomes brasileiros e estrangeiros de inegável vulto, vejamos o outro lado - o mais interessante, o que mais me fascina. Por que nos apaixonamos por uma imagem? Ninguém se entrega para um bloco de metal ou pedra, mas as esculturas de Henry Moore ou Felicia Leirner falam, emitem som, vibram, tocam música. Num filme chamado "O Objeto do Desejo", uma camareira surda, de um luxuoso hotel londrino furta uma estatueta de Henry Moore do quarto de um milionário, sem que tivesse a mínima noção do seu valor monetário. Depois de presa e interrogada pela polícia sobre os motivos que a levaram ao crime, ela, prisioneira do silêncio, apenas diz: "Porque ela (a escultura) falou, e eu ouvi." Em outro filme chamado: "Os amantes de Pont Neuf", Juliet Binoche no papel de uma moradora de rua quase cega, invade o Louvre na madrugada acompanhada por um velho pintor que conhece os labirintos do velho museu e, munida da luz de uma vela, ilumina o quadro da parede com o rosto de um dos autorretratos de Rembrandt por longos segundos, esperando na penumbra que ele finalmente falasse.

As fotografias são também objetos de amor e apego, ou como explicaríamos o colecionismo do print exclusivo. Afinal, as imagens estão por toda parte, qualquer uma delas, a um click ou dois de distancia na internet que mata a sede visual mas não o desejo secreto de se possuir e beleza. De nos aproximarmos das lascas genéticas do autor espalhadas por um papel antigo ou sublimadas no grafite que assina o nome do criador. A inigualável experiência em primeira mão, a possibilidade de sermos, por um espaço de tempo, também únicos.

Meu coração balança em direção aos velhos mestres, meus "piratas".

Peter Beard, que conheço e de quem fiz um retrato no seu esconderijo no sul da França, um dos maiores fotógrafos vivos, diarista compulsivo, colecionador de referências para suas colagens fotográficas. Viajante e herdeiro visual do Kenia de Karen Blixen. Certa vez, quando uma de suas fotografias foi para na capa da "Life", comentou segurando a revista: "A foto não é boa, mas o elefante é magnífico."

Otto Stupakoff, uma referência para a minha geração. O fotógrafo inquieto com um universo de imagens só dele, em constante conflito com o mundo comercial. O bom gosto, o registro e retrato de uma época. O sentimento de entrega que sentimos diante de suas fotografias é inesquecível e insondável.

Marcel Giró, de quem fui assistente aos 16 anos de idade, genial Catalão cujo estúdio fez história em São Paulo e sombra longa perdura até hoje na fotografia brasileira. Nele entendo a convivência do comercial e o autoral, duas linhas não paralelas, mas convergentes.

German Lorca, meu querido amigo, modernista sem saber, como meu pai, simplesmente fotografando como se daquilo dependesse a própria vida, os verdadeiros amadores. Olhando a obra de German Lorca, o silêncio de suas imagens de rua, o toque quase Atgetiano nos seus cavalos de parque de diversão e janelas exibindo torsos de manequins femininos sob uma luz emprestada de um Alvarez Bravo, lembrei-me de uma frase de meu pai, Rubens Teixeira Scavone à respeito da busca estética de sua geração em um texto de 1957: "É visão particular através da sensibilidade escoimada quase e, principalmente, é criação em sentido amplo onde a realidade não raro se torna mero pretexto, veículo comunicativo, passaporte de tudo onde exista parcela enclausurada de beleza."

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