OPINIÃO
28/05/2014 08:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Terremoto político na Europa

A União Europeia foi criada exatamente para manter os nacionalismos sob controle e trazer estabilidade para o continente. Bruxelas está diante de um desafio. Esta eleição foi só primeiro recado. Conhecendo o continente, sabemos que a fase mais aguda ainda pode estar por vir.

PATRICIA DE MELO MOREIRA via Getty Images
Locals wait their turn to vote in the European Parliament elections on May 25, 2014 at a polling station in the Paula Vicente school in Restelo, Lisbon. Europeans vote for a new EU parliament, the final day of a massive four-day election expected to give eurosceptics a boost. AFP PHOTO / PATRICIA DE MELO MOREIRA (Photo credit should read PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

O recado dado pelos eleitores europeus foi claro. Existe uma desilusão crescente com a classe política que se espalha por todo o continente. O primeiro sintoma é o descaso com as urnas. Somente em Portugal, 66% dos eleitores simplesmente não apareceram para votar. Em segundo lugar, existe uma rejeição dos políticos e partidos tradicionais, como na Itália, que levou o MV5 a ter 20% dos votos. A terceira trincheira de resistência foi cravada com o crescimento dos partidos nacionalistas e isolacionalistas, como o Frente Nacional na França e o UKIP no Reino Unido, ambos vencedores em seus países.

Somados todos os fatores, a Europa sabe que está diante de um barril de pólvora. Os partidos anti-União Europeia cresceram, mas ainda não desafinam o concerto europeu, entretanto, mostraram seus músculos. Sua bancada chegará a 25% do parlamento, um crescimento de praticamente 100% desde o último pleito. Sua força, entretanto, ainda não pode influir nos destinos do continente. A maioria ainda é dos pró-europeus, somando-se centro-direita, centro-esquerda e liberais. Mas tudo indica que a turma opositora, que também guarda suas diferenças internas, chegou pra ficar.

O recado dado aos partidos tradicionais foi claro. A paciência do eleitor se esgotou juntamente com o fim da bonança oriunda de Bruxelas. Com a crise e os necessários ajustes, a vida fácil de grande parte da Europa também entrou em sinal de alerta. Com o fim da farra, ganham força os partidos nacionalistas, que culpam a União Européia pela situação de crise em que vivem, com o Syriza, uma esquerda radical anti-austeridade que venceu as eleições na Grécia. Os ingleses não querem os búlgaros usando seu sistema de saúde. Os franceses querem trabalhar somente 35 horas na semana e se aposentar mais cedo. Ninguém quer abrir mão de polpudos e longos benefícios de seguro-desemprego. Todos querem bolsa para estudar. Os alemães cansados de bancar a festa. As reclamações não tem fim. Percebe-se que os europeus estão realmente muito mal acostumados.

O sinal é de que o próximo passo seja a tomada dos governos nacionais por partidos isolacionistas. Vivenciei terremotos políticos parecidos quando morei em Viena e posso afirmar que em breve poderemos ver Marine Le Pen eleita Presidente da França e o Reino Unido fora da União Européia. A crise econômica forneceu uma sensação de desconexão do povo com seus representantes. Um povo mimado, certamente, mas que aprendeu a viver assim ao longo dos anos. A Europa precisa amadurecer. A União foi criada exatamente para manter os nacionalismos sob controle e trazer estabilidade para o continente. Bruxelas está diante de um desafio. Esta eleição foi só primeiro recado. Conhecendo o continente, sabemos que a fase mais aguda ainda pode estar por vir.

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