OPINIÃO
27/03/2014 11:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Rússia e Obama

A Rússia mexe com o brio dos americanos. Certamente ainda um resquício da Guerra Fria. Mas como lembrou Mitt Romney, durante a campanha de 2012, Moscou ainda representa uma ameaça aos Estados Unidos no tabuleiro geopolítico. Ridicularizado por Obama, perdeu a eleição, mas provou-se certo, enquanto o Presidente reeleito mostrou-se equivocado. A questão da Ucrânia e Crimeia veio justamente provar este fato.

Diante disso, muitos americanos se perguntam qual o real interesse de seu país no Leste Europeu. Ron Paul, porta-voz do movimento libertário, é contrário a qualquer tipo de ajuda ou intervenção, afinal, em sua concepção, o Ocidente ajudou a derrubar um governo legítimo e constitucional em Kiev, além de legitimar com ajuda financeira o grupo que chegou ao poder. Na sua concepção, não importa que o governo constitucional fosse pró-Moscou, afinal havia sido escolhido em eleições limpas e tinha um mandato a cumprir. O mesmo raciocínio é aplicado na Crimeia. Afinal, se um povo decide em um plebiscito que deseja se desligar de um país e ligar-se a outro, devemos respeitar sua auto-determinação.

Do lado russo, os argumentos para esta expansão são históricos. Já escrevi que tentar entender Putin sob a ótica da Guerra Fria é um erro. Putin tem como referência a grande Rússia dos czares e a cultura formadora da sociedade, onde o território ucraniano oriental, até Kiev, teve um papel fundamental. Segundo sua visão, Crimeia e também a parte oriental da Ucrânia, fazem parte da identidade cultural de seu país e portanto devem ser reintegrados ao patrimônio russo.

Mas o jogo não é somente histórico e cultural. De ambos os lados paira o argumento econômico. A Ucrânia industrial, assentada ao leste, é valiosa e portanto interessante para a Rússia. O lado agrário do oeste, se incorporado aos europeus, pode prejudicar a França e seus subsídios. Isso tudo sem contar os dutos de gás que aquecem a Europa durante o inverno, com origem na terra de Putin via Ucrânia.

Um emaranhado de questões culturais, históricas e econômicas embaralham a geopolítica da região. Algo que chamou a atenção de Romney, mas passou despercebido por Obama, que agora enfrenta mais uma crise. Talvez o legado mais difícil que o Presidente deixará para seu sucessor em 2016 seja na política externa. Um nó amarrado durante oito anos que será muito difícil de desatar. Nesta frente, a Ucrânia é apenas a ponta do iceberg.