OPINIÃO
20/05/2014 15:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Os problemas de Laerte

Reprodução

Assistindo a uma das boas cenas de Manoel Carlos, na novela Em Família, a filha juvenil diz à mãe que o problema dela tem nome: La-er-te. Dito assim, silabado, pela garota, o erro na escolha do nome só ficou mais evidente. Assim como o hábito não faz o monge, também o nome não faz o personagem. Mas, na segunda década do século 21, chamar o principal personagem masculino da novela das oito de Laerte - ainda que esse cara tenha perto de 40 anos - definitivamente não ajuda. Há nomes mais atuais que seriam rapidamente eficazes na geração de empatia. Mas se fosse só esse o problema, até que estava bom.

Nada disso seria importante se o personagem fosse crível. Laerte - aff! - tem a espinha fraca. Voltou à trama acompanhado da mulher Verônica, a quem não assumia de fato. Assediou Luíza, filha do amigo de adolescência (a quem quase matou) e da prima por quem foi apaixonado. Deixa-se envolver feliz pelo enredo de Shirley, a fútil ficante do passado com quem teve um filho que desconhecia. Em seus verdes anos era um babaca completo: ciumento ao extremo, possessivo, mimado, desagradável. E o ator, Guilherme Leicam, bem que deu conta do recado.

Na fase adulta, o ator, Gabriel Braga Nunes, parece que nem se esforça. Representa como uma vela de chama fraca que se consumirá inalterada até o fim dos capítulos. Pergunto-me: por quê? Pergunta boba, claro, porque tenho mais o que fazer. Mas sou noveleira assumida e me comprazo com doses diárias de ficção. Amo absolutamente ser enganada pela emoção do ator; se a trama ainda me fisgar, ajuda. Mas, assistindo à novela, a gente fica pensando o que é que o Gabriel está pensando enquanto pensa que está enganando/seduzindo a plateia.

Como o talento do ator é inquestionável e já se provou, sobra para o personagem. Na fase adulta, Laerte é um galã insustentável. Como a gente pode gostar desse bundão famoso que não demonstra ter crescido uma gota em sua jornada de flautista bem sucedido no exterior? Ter sucesso e dinheiro tornaria, necessariamente, aquele idiota do início uma pessoa melhor? Talvez até poderia, mas não é o que se apresenta. O problema é o pódio, que ele não merece.

Arrisco-me a esta reflexão inútil: se fosse tratado como vilão, Laerte talvez ganhasse um pouco mais de credibilidade junto ao ator que o interpreta. Afinal, Gabriel Braga Nunes é seu ente mais próximo. Poderia, então, até ganhar o público. Cerebral, se jogando de uma mulher para outra sem ser de fato o cafajeste assumido, fica difícil até para a Helena, que parece estar sem função. Romper com a filha inocente, inexperiente e apaixonada é guerra perdida. A capa de vilã, pode, erroneamente, servir para ela.

Para mim, neste específico folhetim, o experiente Maneco mesmo quando não é bom no todo, é excelente nas partes. Ótimo exemplo é o recente diálogo de mãe rompida com filha no apartamento de Helena. Mas quando a cena pede a entrada o galã das oito, o macho sem convicção se apresenta de sorriso amarelo e cabelo pastinha. Eca! Zero tesão. Inverte a cena, muda o eixo, esquenta a chapa do Humberto Martins e a novela pode ainda bater um bolão!

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.


MAIS NOVELA NO BRASIL POST:

Personagens homossexuais que causaram nas novelas