OPINIÃO
18/11/2015 16:51 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A luta dos não conformados

Divulgação/Vinicius Andrade

Noite de sábado, 14 de novembro de 2015. Os estudantes que ocupam a Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, em São Paulo, comemoram a 112ª hora de ocupação, que tem como principal objetivo protestar contra a execução da reorganização escolar, já que o programa do governo estadual promoveria o fechamento de escolas e uma eventual superlotação das salas de aula.

Com a reestruturação, a escola, que atualmente atende alunos do 6º ao 9º ano do ensino fundamental e do ensino médio, terá apenas classes do ensino médio. Os alunos do ensino fundamental serão transferidos para a Escola Estadual Godofredo Furtado, enquanto os estudantes do ensino médio da Godofredo serão transferidos para a Fernão Dias Paes.

A resistência não era a única vitória dos jovens. Na noite de sexta-feira (13), o juiz Luis Felipe Ferrari Bedendi, da 5ª Vara de Fazenda Pública, suspendeu a reintegração de posse na escola estadual.

O caso ganhou repercussão nacional, mas pouco se falou dos grandes protagonistas dessa luta: os estudantes.

Heudes, Luísa, Nei e Laura são alguns desses rostos que representam uma nova face da juventude brasileira, que luta pelos seus direitos de maneira organizada e respeitosa.

Muito se engana quem pensa que a ocupação foi planejada de um dia para o outro. Após uma série de tentativas de promover um diálogo com o governo do Estado e a secretaria de Educação - por meio de manifestações que começaram em 6 de outubro -, os jovens enxergaram na ocupação uma maneira de potencializar a voz dos estudantes.

Estudante de escola particular, Laura se solidarizou com os alunos e se juntou ao grupo.

"Se seremos nós os reorganizados, devemos fazer parte dessa construção. A reorganização só confirma que a educação pública forma mão-de-obra barata. Não se posicionar contra isso é se acomodar com a precarização do ensino", afirmaram os alunos em pronunciamento.

Em entrevista ao blog no HuffPost Brasil, Heudes foi contundente ao afirmar que os estudantes decidiram pela ocupação em função da dificuldade do governo em estabelecer um diálogo com a população e por considerarem autoritária a decisão de levar adiante a reorganização escolar.

"Queremos um diálogo, uma negociação com o secretário de educação. Ninguém quer negociar nossa demanda, só querem negociar nossa saída do prédio. Se tivessem nos escutado, não teríamos chegado nessa situação", afirmou Heudes.

Esclarecidos, os estudantes destacam a postura do juiz em afirmar que "essa não é uma questão judicial, mas sim uma questão de negociação".

Diante da ação mais ostensiva da Polícia Militar na Escola Estadual José Lins do Rego, os alunos se mostram indignados com a tentativa de intimidação que o movimento vem sofrendo desde o primeiro dia de ocupação.

Os jovens demonstram generosidade com os feirantes que foram impedidos de trabalhar nas imediações da escola na quinta-feira (12).

"Desde o primeiro dia sentimos a repressão dos policiais. Eles isolaram a área e impediram que os feirantes pudessem trabalhar. Perderam um dia de trabalho, perderam alimentos. A polícia não precisa agir para intimidar. Só a presença de pessoas armadas, com gás de pimenta, já é intimidadora", relataram Heudes e Luísa.

Eles confidenciam que até mesmo alguns policiais transmitiram palavras de apoio ao longo dos dias.

"Até eles entendem o que está nos motivando. Apenas o governo e a direção da escola estão resistindo a dialogar conosco", admitiu Heudes."Ocupar a escola foi a última opção, porque não tínhamos voz", reforçou.

Além de se preocuparem com as relações humanas construídas ao longo da vida escolar, Luísa e Laura explicam que a regra de transferir alunos para escolas que fiquem a no máximo 1,5 quilômetro do atual colégio não será respeitada, o que poderia afetar no orçamento das famílias.

"Vale lembrar que alguns alunos que estudam aqui são filhos de mães e pais que trabalham nessa região. Com a transferência, perderão a oportunidade de irem a escola acompanhado de um familiar", pontuou Laura, acrescentando que não houve um processo de consulta aos pais dos alunos sobre uma eventual transferência.

"Um dos membros da diretoria nos disse que se fosse fazer um processo de consulta, a reorganização levaria um ano. Como se um ano fosse muito. Eles estão tratando de educação. Não dá para estabelecer essas mudanças em um mês, ignorando as consequências pedagógicas que as pessoas vão sofrer", completou Luísa.

Indagados sobre a ligação com algum partido político, os estudantes se orgulham de ter organizado o movimento de forma autônoma.

"Recebemos apoio, mas a frente é nossa. Queremos barrar a reorganização escolar. Se depois quisermos montar um coletivo, isso é algo para discutirmos posteriormente", disse Heudes.

Para eles, a importância de participar da luta dos secundaristas é crescer enquanto sujeitos políticos e cidadãos.

Os estudantes atribuem a alguns professores o engajamento que vêm demonstrando nos últimos dias.

"Alguns professores estabeleciam discussões de como melhorar a comunidade escolar. Quem faz a cidade, também tem que participar dela. Eu entendo quando as pessoas se espantam com nosso engajamento. Todo mundo crê que os adolescentes não têm nada na cabeça, mas sempre tentamos ter voz", explicou Luísa, citando Monteiro Lobato, que foi um dos pioneiros a dar voz às crianças em suas publicações.

Diante do apoio popular, os estudantes estão otimistas sobre um desfecho vitorioso. "São cada vez mais escolas ocupadas. Duas escolas já não serão fechadas. Se em poucas horas, já conseguimos algumas vitórias, eles não devem prorrogar essa conversa. Com isso, eles sairão prejudicados, porque nós estamos crescendo a cada minuto", enumerou Luísa.

Quatro dias antes da manifestação, Heudes teria sido chamado pela direção da escola e foi advertido de que a postura de lutar por seus direitos poderia desencadear sua expulsão.

"Não me intimidei com a ameaça. Eu penso que se eu for penalizado por uma causa que eu acredito, eu estarei sendo honesto. Estou bem comigo, posso ser preso, mas sairei daqui bem, porque estou lutando por algo que acredito."

Eles comemoram o fato de estarem conseguindo realizar um protesto organizado sem nenhuma depredação. "A escola está mais limpa do que nunca. Não quebramos nada. Essa postura torna nossa manifestação ainda mais legítima", disse Heudes.

Eles alertam que a falta de diálogo que a direção impõe aos estudantes pode não ser bem recebida pelos alunos que passarão a estudar no Fernão Dias Paes em 2016. Além disso, eles não poupam críticas ao sistema de ensino públicos, o qual consideram retrógrado e atrasado. "A escola tem o poder de criar cidadãos mais conscientes e não o faz por comodismo", criticou Luísa.

Questionados sobre o que os levou a organizarem um movimento contrário à reorganização escolar, eles destacam o inconformismo. "Posso ser o mais errado, mas se eu não me conformo com algo, ninguém me cala", explicou Heudes. "O sentimento de querer algo coletivo, que beneficie várias pessoas nos traz força para queremos lutar juntos", completou Nei.

É consensual entre os estudantes que a experiência vem sendo importante para que eles amadureçam e vejam que interesse individual deve ter o mesmo peso que os objetivos coletivos.

"Estamos mostrando que a juventude não é desmobilizada, não é acomodada. A gente está aqui porque temos nossa voz, que está sendo abafada, mas estamos lutando para mostrá-la. E sairemos vitoriosos", garantiu Laura.

"A ausência do medo, que estamos transmitindo, vem do cansaço de ouvirmos que não temos voz, que temos que aceitar a repressão policial, os acordos políticos e as imposições. Estamos mexendo com os peixes grandes e estamos percebendo que somos grandes. É uma luta dos não conformados."

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Protesto dos estudantes na escola Fernão Dias
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