OPINIÃO
20/02/2015 14:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Todo mundo usa alguma droga

A droga lícita mais utilizada em todo o mundo é a cafeína. Não a menospreze, caro leitor: é um estimulante tão forte como a cocaína. Ela é uma das drogas mais viciantes que existe e pode matar quando ingerida em excesso. Em média, a dose letal de cafeína é de um grama para cada sete quilos de peso corporal.

Lendo os comentários publicados na minha última coluna percebi que ainda há muita desinformação quando o assunto é droga. Muitos leitores se mostram contrários à legalização das drogas alegando 'basta não usar' para que o problema causado pelas drogas deixe de existir.

O problema é que, baseado (sem trocadilhos, por favor) em pesquisas que fiz para um novo livro, descobri que todo mundo usa algum tipo de droga mesmo que não se dê conta disso.

E não estou falando do mais óbvio, os medicamentos que utilizamos para nos tratar de alguma enfermidade. Estou me referindo a drogas psicoativas, substâncias que afetam o Sistema Nervoso Central (SNC), modificando as atividades psíquicas e comportamentais de um indivíduo. Essas são classificadas em três diferentes categorias: estimulantes, depressoras e perturbadoras.

Estimulantes são as drogas que aceleram o funcionamento do cérebro, depressoras fazem o contrário: diminuem a velocidade de funcionamento do cérebro e perturbadoras são a grosso modo, drogas que alteram o funcionamento do cérebro.

Quais drogas que você usa sem saber?

Sim, estou me referindo a drogas lícitas mas o que faz uma droga ser lícita ou não é a política de drogas de cada país em uma determinada época e não necessariamente o malefício que ela pode causar. Maconha, cocaína e heroína já foram legais no Brasil e vendidas como medicamentos em farmácias, o álcool já foi proibido nos Estados Unidos durante a Lei Seca e ainda o é em diversos países islâmicos.

A droga lícita mais utilizada em todo o mundo é a cafeína, cuja foto abre esse texto. Não a menospreze, caro leitor: é um estimulante tão forte como a cocaína. Ela é uma das drogas mais viciantes que existe e pode matar quando ingerida em excesso. Em média, a dose letal de cafeína é de um grama para cada sete quilos de peso corporal.

Exatamente por provocar dependência, a cafeína é utilizada industrialmente em diversos produtos como refrigerantes, bebidas energéticas, chocolates, remédios para dores de cabeça, alguns tipos de balas, chás, guaraná em pó, suplementos para atletas e, é claro, no café.

Dependendo de como for preparado, uma xícara de café tem entre 50mg a 150 mg de cafeína. Já como suplementos para atletas, a ANVISA permite que sejam comercializadas cápsulas com até 420 mg de cafeína no Brasil.

A cafeína é um dos três principais alcaloides do grupo das xantinas, substâncias capazes de estimular o sistema nervoso, produzindo um estado de alerta de curta duração. Além de atuar sobre o sistema nervoso central, a cafeína aumenta a produção de suco gástrico.

Sem nenhum valor nutricional ao organismo, sua principal função é bloquear a ação natural de um componente químico do cérebro (adenosina), associado ao sono. Bloqueando a adenosina, aumenta a excitação dos neurônios. A adenosina naturalmente dilata os vasos sanguíneos do cérebro, já a cafeína faz o contrário: os vasos sanguíneos se contraem.

Essa operação faz com que o organismo produza mais adrenalina, aumentando a frequência cardíaca, concentrando o fluxo sanguíneo nos órgãos internos, dilatando a pupila, exatamente como o organismo faz quando se prepara para enfrentar uma situação de perigo ou com quem faz uso de anfetaminas e cocaína.

E também como essas drogas, a cafeína aumenta os níveis de dopamina no cérebro, um neurotransmissor que ativa o centro de prazer em certas partes do cérebro. Sua meia-vida no organismo é de cerca de seis horas, o que significa que, se você tomar uma xícara de café as oito da manhã (que tem mais ou menos 100 mg de cafeína), as duas da tarde ainda restarão 50 mg de cafeína no seu organismo. Por isso o aconselhado é tomar café (ou qualquer substância que tenha cafeína) no máximo até 12 horas antes de seu horário de dormir.

Normalmente pessoas que ingerem doses excessivas de café apresentam sono pouco reparador, agitado ou até mesmo insônia. Baixa qualidade do sono faz com que a pessoa fique sonolenta o dia inteiro. Qual a maneira de afastar a sonolência? Ingerindo mais cafeína.

Está feito o círculo vicioso.

A ingestão de cafeína em grandes doses pode provocar efeitos negativos como irritabilidade, ansiedade, agitação, dores de cabeça, além de insônia crônica. Já a interrupção brusca no consumo, pode causar dores de cabeça, sonolência, irritabilidade, náuseas e vômitos. A cafeína não é aconselhada a quem apresente o menor sinal de arritmia cardíaca ou portadores de úlceras estomacais. Também é diurética, ou seja, aumenta a excreção urinária fazendo com que o organismo perca mais água.

Viciados em cafeína apresentam carência de ferro no organismo (uma das causas da anemia), já que uma xícara de café é capaz de reduzir a absorção ou aproveitamento de ferro pelo organismo, em cerca de 30%.

Uma recente pesquisa realizada por psicólogos da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha (http://bbc.in/1zSAYDS) concluiu que beber grandes quantidades de café (mais de sete xícaras de café instantâneo por dia), pode fazer com que uma pessoa tenha alucinações.

Os pesquisadores atribuem a isso o fato de que o café pode levar a um aumento da produção de um hormônio chamado cortisol, substância liberada no organismo em situações de tensão e estresse. Estudos mostraram que uma concentração mais alta de cortisol no organismo pode fazer com que uma pessoa escute vozes não existentes.

Quatro xícaras de café por dia aumentam em 80% a probabilidade de uma gestante ter um parto prematuro. Sete xícaras triplicam essa probabilidade.

Mas como tudo na vida, o que faz mal é o excesso. Se a cafeína em si pode fazer muito mal, o consumo de pequenas quantidades de café na idade adulta pode ser eficaz no combate à evolução da demência e do mal de Alzheimer na velhice. Além da cafeína, o café possui mais de mil compostos químicos como vitaminas do grupo B, lipídios, aminoácidos, potássio e cálcio e também é uma grande fonte de antioxidantes.

Mas o ideal é não tomar mais de quatro xícaras por dia.

No meu próximo texto falarei de uma substância que faz o contrário, um poderoso sedativo que ingerimos sem perceber todos os dias. Até lá.

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