OPINIÃO
19/03/2015 15:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02

Todo mundo usa alguma droga: álcool

No Brasil, 90% das internações em hospitais psiquiátricos por dependência de drogas acontecem devido ao álcool, sendo de longe a principal causa de internação psiquiátrica no Brasil. Isso acontece porque o álcool compromete funções cerebrais matando células que uma vez lesionadas, não se recuperam mais. Curioso que a fama de destruir células ("matar neurônios") no cérebro é geralmente creditada ao consumo de cannabis (maconha),

Shutterstock / Suslik1983

Alguns dias atrás o Brasil ficou chocado com a notícia de um jovem de 23 anos que morreu após ingerir uma enorme quantidade de vodka em uma festa universitária em Bauru, interior de São Paulo.

Choque maior é saber que a cada 36 horas um jovem brasileiro morre de intoxicação aguda por álcool ou de outra complicação decorrente do consumo exagerado de bebida alcoólica.

A verdade é que, como tudo em excesso, o álcool mata. E muita gente.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o alcoolismo é a terceira doença que mais mata no mundo ceifando a vida de cerca de 3,3 milhões de pessoas em 2012 (últimos dados disponíveis). Esse número correspondia a 5,9% do total, mais que às mortes ligadas ao HIV (2,8%), à violência (0,9%) ou à tuberculose (1,7%), somados.

Se os mais velhos morrem em decorrência dos malefícios causados pelo uso crônico da bebida (seu uso crônico pode ajudar a desenvolver mais de 200 doenças), os mais jovens morrem mais pela prática de "binge drinking", expressão estipulada internacionalmente para definir a grande ingestão de álcool (cinco doses para homens e quatro para mulheres) em curto espaço de tempo.

O álcool etílico ou etanol é obtido através de fermentação ou destilação da glicose presente em cereais, raízes e frutas e é consumido exclusivamente por via oral. Uma vez ingerido, ele é absorvido rapidamente no estômago e no intestino delgado seguindo para o fígado, onde é metabolizado. Uma vez no fígado, ele é transformado em ácido acético (o mesmo do vinagre), que é importante no metabolismo humano para a produção de energia.

O problema é que uma elevada concentração de ácido acético impede o fígado de liberar glicose no sangue causando hipoglicemia.

A graduação das bebidas alcoólicas é o volume, em percentual, da quantidade de álcool que essa bebida contém. Como exemplo, uma lata de cerveja de 350 ml, que apresenta 5,5 graus de álcool, possui 19,25 ml de álcool que equivale a 15,2 gramas de álcool puro.

Uma dose padrão contém aproximadamente 10 a 12 g de álcool puro.

Para quem tem problemas com a balança, é bom saber que álcool engorda e muito, já que cada grama de álcool equivale a sete calorias (contra quatro do açúcar, por exemplo).

Bebidas gasosas ou espumantes embriagam mais rápido porque abrem o esfíncter pilórico e atingem o intestino delgado mais rapidamente, resultando numa intoxicação mais acelerada. Pessoas mais magras se embriagam mais rapidamente que pessoas com maior taxa de gordura corpórea.

Apesar do álcool parecer uma substância estimulante em suas doses iniciais, com o aumento da ingestão ele passa rapidamente a ser um depressor do Sistema Nervoso Central (SNC). E é exatamente no SNC que os efeitos do álcool agem principalmente, onde suas ações depressoras são comparáveis aos anestésicos voláteis.

Os efeitos de uma intoxicação causada pelo álcool incluem descoordenação motora, andar instável, vasodilatação cutânea, euforia, aumento da autoconfiança, alteração de humor, retardo intelectual e dificuldade de se expressar oralmente. Em níveis elevados de consumo há aumento de instabilidade emocional, prejuízo intelectual e motor, tremores, náuseas, vômito, hipotermia, fraqueza muscular e coma.

O organismo humano metaboliza aproximadamente uma dose de álcool por hora, o que quer dizer que se alguém beber três doses, levará, em média, cerca de três horas para seu corpo metabolizar todo álcool ingerido. Portanto saiba que é possível sim, beber uma taça de vinho (ou outra dose de álcool) e dirigir depois, desde que se obedeça o tempo mínimo de metabolização do álcool de uma dose por hora e acrescente uma margem de segurança (outra hora) antes de assumir o volante.

Importante salientar que esse período deve ser calculado após o último gole da bebida, não do primeiro.

Grandes doses em pouco espaço de tempo podem levar a morte por insuficiência respiratória. Mas para quem não está com pressa de morrer, a lesão hepática é a consequência mais comum do consumo excessivo de álcool em longo prazo.

O uso excessivo ou crônico resulta em um excesso de gordura no fígado (esteatose hepática), causando hepatite alcoólica e cirrose hepática. A cirrose é o resultado de diversas doenças crônicas do fígado levando a destruição gradual de suas células. Em casos extremos, a cirrose pode causar insuficiência hepática fazendo com que o fígado deixe de funcionar.

Para esse paciente sobreviver, somente com transplante.

Já a incidência de câncer é a segunda causa de morte precoce entre sujeitos com transtornos relacionados ao uso excessivo de álcool.

Filhos de pais alcoolistas (que é o termo correto para viciados em álcool) têm um risco até quatro vezes maior de desenvolver dependência alcoólica. Filhos de mães alcoolistas podem ser vítimas de Síndrome Alcoólica Fetal (SAF): nascem com tamanho pequeno, face anormal, diversas anormalidades físicas e retardo mental. A incidência de SAF é de um a dois casos por cada mil nascidos vivos.

Sexualmente a situação se agrava para os homens, já que o álcool aumenta o desejo, mas em contrapartida, diminui a produção de testosterona, diminuindo assim sua performance nas relações sexuais, podendo até torná-los momentaneamente impotente.

No Brasil, 90% das internações em hospitais psiquiátricos por dependência de drogas acontecem devido ao álcool, sendo de longe a principal causa de internação psiquiátrica no Brasil. Isso acontece porque o álcool compromete funções cerebrais matando células que uma vez lesionadas, não se recuperam mais.

Curioso que a fama de destruir células ("matar neurônios") no cérebro é geralmente creditada ao consumo de cannabis (maconha), mas o álcool comprovadamente mata células do cérebro e ainda não há comprovação científica que a maconha faça o mesmo.

Na maioria das vezes, a ressaca do dia seguinte é o resultado da desidratação causado pelo álcool, já que ele provoca alterações no hormônio que controla a absorção e a eliminação de líquidos pela urina.

Como na cerveja tem bastante líquido, muitos acham que tomando cerveja estarão hidratados.

Tenho uma má notícia para você: a cerveja também desidrata o organismo.

Por isso saiba que ameniza-se consideravelmente os efeitos tóxicos da bebedeira se você ingerir água concomitantemente com sua bebida para evitar a desidratação além de ingerir alimentos doces para evitar a hipoglicemia.

Cientistas da Universidade de Radboud, Holanda, fizeram uma pesquisa onde descobriram que as pessoas tendem a consumir o dobro de bebidas alcoólicas quando assistem pessoas bebendo em filmes ou em comerciais do que pessoas assistindo programas em que não há pessoas bebendo.

Estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) mostrou que comerciais e anúncios publicitários associando bebidas alcoólicas a estilo de vida alegre, em praias e com gente bonita bebendo, tem grande efeito em adolescentes e estão diretamente associadas ao consumo de bebidas alcoólicas por jovens entre 11 e 16 anos.

A OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) afirmam que o Brasil é o quinto país com maior número de óbitos ligados ao consumo de bebidas alcoólicas.

Uma observação importante: o que torna uma pessoa alcoolista é a frequência e não a quantidade.

Para exemplificar isso, vale a pena conhecer um caso que uma psiquiatra plantonista de um grande hospital me contou. Um senhor de idade sofreu uma queda, quebrou uma perna e por isso foi internado nesse hospital. No segundo dia que estava internado começou a apresentar tremedeiras. Os médicos perguntaram se ele costumava beber e ele disse que não, já que dormia cedo e não frequentava bares. Um neurologista o examinou e não encontrou nada de anormal. Quando finalmente chamaram a psiquiatra para analisar o caso ela repetiu a pergunta:

_ O Sr. bebe alguma bebida alcoólica normalmente?

Ele respondeu que não. Ela insistiu:

_ O Sr. está me dizendo que nunca toma uma bebidinha...?

_Nunca não - disse ele - só tomo um aperitivinho na hora do almoço.

_Uma pinguinha para abrir o apetite, né...? Há quantos anos o senhor faz isso?

Ele pensou um pouco e mandou essa:

_ Ah, mais de trinta anos...

Estava explicado o motivo da tremedeira.