OPINIÃO
06/05/2014 16:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02

Todo mundo quer um jipinho

Se antes ter um jipinho era quase uma excentricidade, nos próximos meses eles deverão ser, depois dos compactos, os veículos mais comuns do mercado.

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Quando as importações de automóveis foram liberadas na década de 90, o consumidor brasileiro não apenas se deparou com modelos muito melhores do que os fabricados por aqui, como também com novas configurações de carrocerias que não eram oferecidas pelas quatro grandes fabricantes instaladas no Brasil até então (Volkswagen, Fiat, General Motors e Ford).

O russo Lada Niva foi um dos primeiros automóveis importados a chegar ao Brasil e, durante anos, foi o mais barato 'jipinho' (sport utility compacto) no nosso mercado, o que explica seu relativo sucesso de vendas mesmo com tantos problemas de fabricação.

Outras marcas exploraram esse filão com modelos melhores, como a Suzuki por exemplo, que também vendeu bem seus Vitara e Samurai, a Daihatsu (lembra dela?) com o Terios e o Feroza, o que motivou até o Eike Batista - em uma leitura muito particular desse mercado - acreditar que havia espaço no Brasil para modelos rústicos que enfrentassem qualquer tipo de terreno. Eike apostou em fabricar um jipinho 'Frankenstein' (eixo de um fabricante, câmbio de outro, motor de um terceiro) chamado JPX Montez.. O modelo era feio, de acabamento pobre e fervia quando trafegava na estrada em velocidade constante. Foi seu primeiro grande fracasso empresarial.

Não era isso que o consumidor queria. Os modelos que atiçavam o desejo dos brasileiros eram os que pareciam aptos a enfrentar qualquer terreno, não necessariamente que os fizesse. O que agradava mesmo era a posição mais alta de dirigir que conferia uma visão privilegiada do trânsito. A tração nas quatro rodas estava em segundo plano.

Os anos 90 se foram, a Suzuki saiu do Brasil (voltou depois, sem a mesma força), a Daihatsu foi embora de vez e a GM tentou preencher essa lacuna importando da Argentina o mesmo Vitara da Suzuki com o logotipo Chevrolet (a GM era acionista da Suzuki), rebatizado de Tracker. O alto preço para um modelo agora envelhecido e a opção duvidosa de trazê-lo somente com motor a diesel, fez dele um produto de pouca expressão em vendas.

Foi somente quando uma das quatro grandes fabricantes instaladas aqui resolveu criar um modelo exclusivo para o Brasil nesse segmento é que ficou claro o interesse do consumidor por esse tipo de veículo.

A Ford, que não andava bem das pernas por aqui, apostou alto e lançou no mercado em 2003 o EcoSport, um SUV compacto baseado na plataforma do seu modelo Fiesta.

Apesar de seu acabamento simplório, foi um sucesso de vendas - para alívio dos dirigentes da Ford. Em conjunto com a linha Fiesta, foi o modelo que levantou a Ford do Brasil.

Reinou sozinho no mercado até 2011, quando a Renault começou a fabricar no Paraná o Duster, um SUV compacto de visual mais parrudo, feito em cima da plataforma do Logan/Sandero.

A Ford reagiu com a nova geração do EcoSport, mais moderna e criada para ser um carro mundial.

Parece que esse tipo de veículo não faz sucesso só por aqui, porque além do Brasil o EcoSport é produzido atualmente na China e na Índia e há previsão que ele também seja produzido na Rússia. A intenção da Ford é que ele seja comercializado em mais de 100 países.

O sucesso de vendas do EcoSport fez com que outros fabricantes instalados em nosso país também quisessem entrar nesse segmento: a GM trouxe o ano passado o (novo) Tracker do México, a Peugeot irá fabricar no Rio de Janeiro o 2008 (um SUV feito sobre a plataforma do 208), a Volkswagen fará por aqui o pequeno Taigun (sobre a plataforma do Up!), a Honda produzirá no interior de São Paulo o HR-V/Vezel (não se sabe se ele adotará aqui o nome japonês ou americano), a Hyundai fabricará em Piracicaba/SP um SUV sobre a plataforma do HB20, o grupo FCA (Fiat e Chrysler) produzirá em sua nova fábrica em Pernambuco o Jeep Renegade, a Renault trará o Captur de fora e a Toyota planeja um SUV sobre a plataforma do Etios.

Para os mais abonados, a Mercedes fabricará em São Paulo o GLA e a BMW, o X1 em Santa Catarina.

Se antes ter um jipinho era quase uma excentricidade, nos próximos meses eles deverão ser, depois dos compactos, os veículos mais comuns do mercado.

O que não deixa de ser irônico, já que a maior vantagem desse tipo de veículo a tal 'visão privilegiada do trânsito' deixa de existir, já que todos esses modelos serão 'altinhos'.