OPINIÃO
21/01/2015 16:23 -02 | Atualizado 01/03/2019 15:08 -03

Não tome esta bala!

Com a falta da principal matéria-prima no mercado e com uma demanda crescente de usuários, laboratórios clandestinos passaram a utilizar formas alternativas para tentar sintetizar o MDMA.

Suffolk police/reprodução
Cuidado com PMA.

A postura de endurecimento contra drogas sintéticas adotada pela ONU há alguns anos tem causado mais danos do que benefícios.

Vários ingredientes utilizados como matéria-prima para a fabricação de algumas dessas drogas também passaram a ser considerados ilegais em vários países.

É o caso do safrol, um líquido viscoso obtido de plantas como o sassafrás. Esse óleo, que é utilizado na perfumaria e na fabricação de inseticidas, também é a principal matéria-prima para se obter o metilenodioximetanfetamina (MDMA), cujo nome popular é ecstasy, ou mais especificamente no Brasil, bala.

Pouco tempo atrás, um carregamento de 50 toneladas de safrol foi confiscado e destruído na Tailândia. Com a falta da principal matéria-prima no mercado e com uma demanda crescente de usuários desejosos de vivenciar uma experiência enteógena (palavra essa que descreve a comunhão espiritual induzida pela ingestão de algumas substâncias alteradoras da consciência como o ecstasy), laboratórios clandestinos passaram a utilizar formas alternativas para tentar sintetizar o MDMA.

O problema é que o produto obtido não resultou em MDMA e sim em PMA, (para-metoxianfetamina), cujos efeitos podem ser compreendidos pelos seus simpáticos nomes populares: ‘Morte’ ou ‘Dr. Morte’.

Ao contrário do ecstasy, o PMA não produz efeitos estimulantes, euforizantes ou enteógenos. O PMA atua mais como um antidepressivo, embora mostre também algumas propriedades psicodélicas. Um problema maior ainda é que doses equivalentes de PMA causam mais hipertermia (aumento da temperatura corporal) do que o MDMA. Se a temperatura corporal elevar-se a patamares superiores a 40 °C, pode-se ter convulsões. Se exceder a 43 °C, o quadro geralmente leva o indivíduo ao hospital, podendo chegar ao óbito.

Os efeitos da ingestão de PMA incluem muitos efeitos das anfetaminas alucinógenas, como batimentos cardíacos rápidos ou irregulares, visão turva e um forte e desagradável senso de intoxicação. Seus efeitos desagradáveis como náuseas e vômitos, hipertermia e alucinações rapidamente superam qualquer efeito prazeroso que essa substância possa causar.

Em 2015, foram registrados dois casos de usuários de PMA no Reino Unido que vieram a falecer, segundo o jornal inglês The Guardian. A pílula encontrada pelas autoridades britânicas que mais apresentou quantidades significativas de PMA é a ‘Superman’, produzida em formato do símbolo do super-homem.

Não é difícil prever que essas pílulas já estão no Brasil, já que boa parte das drogas sintéticas consumidas por aqui vêm de fora.

Obviamente, não dá para ir no Procon reclamar que se comprou uma coisa e recebeu outra.

Se esse mercado fosse regulamentado pelas autoridades competentes (?), os usuários saberiam a composição e os efeitos de cada pílula podendo se precaver de seus danos, evitando por exemplo misturá-las com outras drogas supressoras do sistema nervoso central, como bebidas alcoólicas.

Mas deixando o lucrativo mercado de drogas nas mãos das pessoas mais perigosas da sociedade, mais pessoas morrerão comercializando, combatendo o seu comércio e consumindo substâncias das quais ninguém tem o menor controle sobre sua composição.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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