OPINIÃO
17/10/2014 15:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Minha relação com Marina Silva

Tudo começou em 2010. Em uma manhã ensolarada de um sábado de abril ou maio, participei de um encontro de umas 20 pessoas no bairro da Vila Mariana em São Paulo.

MIGUEL SCHINCARIOL via Getty Images
Brazilian Socialist Party's (PSB) former presidential candidate, Marina Silva announces in Sao Paulo on October 12, 2014 her support to Social Democracy Party's candidate Aecio Neves for the second round on October 26 of the Brazilian presidential election. AFP PHOTO/Miguel SCHINCARIOL (Photo credit should read Miguel Schincariol/AFP/Getty Images)

Em período eleitoral, pré segundo turno, vale a pena ouvir essa singela história de amor, de idas e vindas, abandonos e recomeços. Tudo começou em 2010. Em uma manhã ensolarada de um sábado de abril ou maio, participei de um encontro de umas 20 pessoas no bairro da Vila Mariana em São Paulo. Cheguei com um amigo, que me havia convidado a participar dessa reunião. Marina já era candidata à eleição presidencial. Na sala havia um conjunto de pessoas que fui depois conviver fortemente no decorrer daquele ano. Alguns do PV, outros da equipe de comunicação recém contratada, algumas pessoas próximas a ela.

Entrei na sala e ela já estava sentada, com uma manta daquelas que as mulheres usam pra proteger-se do frio do ar condicionado. Ela era frágil, muito frágil. Até hoje comento com amigos que minha sensação era que ela poderia morrer ali mesmo, naquela reunião. Eu daria umas duas hora no máximo a ela. Muito frágil mesmo.

Em duas horas de conversa, onde muitos falaram, chegou a vez dela falar. E ela começou baixinho, quase inaudível. Acho até que alguem comentou para que falasse mais alto, mas isso já pode ser uma armadilha da minha memória. Em 5 minutos de fala ela já parecia muito mais forte. Em 10, era uma leoa. Ela crescia a olhos vistos. Seguia com aquela manta, que agora parecia um manto real. E era encantador o que dizia, apaixonei-me.

Meu envolvimento naquilo aconteceu semanas antes, a convite de um amigo, como disse. Nós estávamos envolvidos no que denominamos Movimento Marina. Nossa presença naquela reunião era pra definir como participaríamos do processo, pois não queríamos fazer parte de algo oficial, não queríamos dinheiro, queriamos manter nossa autonomia, voluntarismo e garra. Mas também não queríamos atrapalhar a campanha, por isso tínhamos que entender com os advogados e comunicadores o que podia e o que não podia. Enfim, como me apaixonei por Marina naquela reunião, evidentemente que minha vida virou de cabeça pra baixo naquele ano, até a eleição.

Foram algns poucos e bons encontros com ela.

Já me habituara ao começo frágil e final leoa. O Movimento Marina criou o slogan "eu sou mais um", criamos também as casas de Marina, assim como dezenas de propostas autônomas de participação, como silkar camisetas, fazer o número 43 humano em praças... foi tudo fascinante, divertido, esperançoso.

Sabíamos que não ganharíamos, mas não nos atrevíamos a falar sobre isso. Queríamos participar e fazer história. E nossa surpresa com os 20 milhões de votos nos garantiram uma sensação de possibilidade real ao mesmo tempo que uma enorme ressaca de tudo aquilo. Eu já deixei de lado tudo no dia seguinte ao primeiro turno. Fiquei literalmente com náuseas de amigos próximos dizendo, nos dias seguintes, que iriam votar em Dilma. Aquilo não fazia o menor sentido pra mim. Assim como votar em Serra também me parecia um equívoco. Mas votar em Dilma? Uau.

Corte rápido pra 2014.

Faço esse corte porque nos 4 anos seguintes me distanciei de tudo que ocorreu na política e no entorno de Marina. Não a acompanhei na saída do PV, nem nas reuniões da nova política, nem na tentativa de criação da Rede (tive um pequeno envolvimento profissional na criação de metodologia para gestão de filiados e doações, mas só). Estive com ela em mais uns 3 encontros, mas todos de arrecadação e engajamento de doadores individuais, que é minha praia. Ela continuava a frágil que vira leoa. Seguia encantadora. Mas não acompanhei sua decisão de fazer dupla com Eduardo Campos quando a Rede não conseguiu aprovação para ser partido. Estava caminhando para um suave e singelo voto em branco nas eleições presidenciais.

Aí o avião cai.

E em poucos dias percebo novamente que há uma possibilidade real dela ser eleita presidente do Brasil. Desta vez me dediquei de corpo e alma, mas como um simples eleitor engajado. O movimento Marina chegou a se reunir em um domingo de sol, mas a minha conclusão é que nem havia tempo para mais nada a não ser trabalhar por mais votos, faltavam poucos. E adorei ser esse eleitor engajado. Pra mim a conta era clara, Marina e Dilma no segundo turno. E com os votos de Aécio todos para Marina, eleição ganha. Lindo.

Aí Marina foi caindo.

Eu até achava que essa linha de queda nas pesquisas fazia sentido. A morte de Eduardo Campos havia inflacionado sua participação em votos. Diminuir um pouco mostrava uma foto mais real. Mas quando no dia anterior ao primeiro turno as pesquisas davam Aécio, eu comentei com meus amigos: acabou. E quando na apuração o que vimos foi uma diferença enorme, com Marina quase que com seus mesmos 20 milhões, fiquei triste. Acabava aí, de novo, minha relação com Marina. Não podemos culpá-la de nada, o processo foi bonito, mas, como mostram os números, insuficiente.

Se eu pudesse, eu gostaria de dizer algo pra essa mulher que amo. Como não me atrevo de dizer ao vivo, faço aqui: Marina, você se afetou demais com as mentiras que o PT contou. E político tem que assimilar essas coisas, digerir e seguir em frente. Você estava fragilizada demais no fim da campanha. Nós entendemos, mas não pode. É óbvio que a má política está cheia desse tipo de canalhice. Faz parte do jogo. Ainda que saibamos que é errado, temos que seguir e sorrir. Sorrir como quando Gil cantou a música do Marinar.

Eu espero que nesses próximos 4 anos você se dedique, com as pessoas excelentes que tem à volta, a seguir visitando esse Brasilsão. Não some, não se esconda. É sua sina a de ser presidente deste país. Chegará sua hora.

E outra dica: tenha sempre em mente a utilização constante daqueles sorrisos que deste enquanto Gil cantava. Aquela é a Marina que todos queremos. Vamos deixar de lado a frágil que vira leoa, e vamos na Marininha paz e amor. É ela a que nos encanta e encantará cada brasileiro. Todos sabem a dica que Duda Mendonça deu ao Lula na campanha de 2002. Todos que conheciam Lula sabiam o brincalhão que ele era, mas na TV e para os jornalistas, sempre aparecia aquele barbudo reclamão. Foi só o Duda pedir ao Lula pra relaxar e sorrir que o resto foi história. Então reveja o vídeo com Gilberto Gil, Marina. Aquela Marina moleca, sorrindo e balançando o corpo. Essa é a presidente de Brasil de 2019.

Agora vamos ao voto em Aécio. Foque numa participação estratégica junto ao governo dele (porque é isso, precisamos ganhar de Dilma), e paz e amor, Marina morena. Paz, amor e sorriso bonito!

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