OPINIÃO
25/08/2014 21:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Chutando o balde

Reprodução

Seguindo a série de artigos sobre doações no Brasil, não daria pra deixar de falar sobre o fenômeno do balde de gelo. Eu não pretendo explicar a doença nem a origem da campanha. Para isso você tem um conjunto enorme de artigos, links, videos... Também não vou fazer aquela típica crítica de "está tudo errado", "o brasilerio isso", "a ONG aquilo", "os artistas tal", etc. Eu vou falar pelo foco do doador, gente como... Eu mesmo. E observando outras pessoas interessantíssimas: outros doadores.

Se você doou, imagino que vai se identificar com o que vou dizer. E se você não doou, espero convencê-lo, pelo exemplo, que o que deve ser feito, sempre, é a doação. O resto é firula, negativismo, crítica em cima do muro. Em geral (eu diria que sempre, mas serei ameno) quem faz as críticas é quem não doou. E posso afirmar que se você tem críticas em relação aos artistas, é que você não entendeu nada. O que nos interessa neste artigo é outra coisa.

Vamos lá. Acontece que além de eu ser um típico doador dessas coisas e campanhas, eu trabalho com isso faz vários anos. E meu interesse maior é pela antropologia da coisa. Pela sociologia do doador, pela psicologia do processo de decisão do ato de doar. Essas coisas.

Há no Brasil uma cultura muito recente do pedir. Ainda existe muito campo para as ONGs explorarem esse universo da solicitação de doações. Aqui, diferentemente dos EUA e Europa, ainda somos muito pouco solicitados a doar. Se pergunto sobre isso em minhas palestras, lembram de um "Criança Esperança", talvez um "Teleton", em alguns casos a telefonista chata que pede dinheiro para a creche e mais recentemente os rapazes de colete na Avenida Paulista.

Se você morasse em Paris, Atlanta, Barcelona ou Nova York, receberia pedidos por correio, por email, por outdoors, na rua, em anúncios, por SMS. E também seria chamado a contribuir em jantares, shows, picnics, leilões, etc. Um europeu deve ser assediado a doar umas 200 vezes em um ano. Nós aqui? Umas 4 ou 5. Então quando dizem que temos uma baixa cultura de doação eu retruco dizendo que sim, é verdade, mas falta, por parte das ONGs, uma cultura da solicitação. E é aí que entram as várias coisas que quero comentar, envolvendo a campanha do balde de gelo. Existem duas diferenças gritantes entre o americano médio e o brasileiro médio. E não, não vou falar sobre as diferenças entre celebridades, elas são bem parecidas em qualquer lugar do mundo.

Nem preciso dizer que a ideia do balde de gelo é algo que faz parte da cultura do americano que gosta de fubebol, aquele lá deles. Também a esta altura vocês devem estar sabendo que quem começou a campanha faz menos de 2 meses (guardem essa data) é um ex-jogador de futebol americano, que foi diagnosticado com a doença. Sabendo isso, precisamos agora falar de uma coisa que talvez faz muitos anos que você não escuta falar: progressão geométrica. Lembra? Aquilo do 2, 4, 8, 16, 32, 64 ... Pois é. Aquilo é de uma força infinita (literalmente). Então se temos um desafio que envolve outros 3 desafiados, temos uma progressão geométrica de base 3. 9. 27. 81. Isso em 2 meses dá um número que não cabe aqui. Vamos supor que vários dos desafiados desistam. Então, ao invés de 3 que sejam 2 (mas é bom pedir pra 3 pra termos uma margem). E vamos supor que as 24h não sejam exatamente assim. Tem a moça que quer filmar depois de comprar o maiô novo, tem o cara que está ocupadíssimo e só fará isso no fim de semana. Desta forma, temos, em 2 meses, o equivalente a... 35 milhões de dólares e crescendo. 637 mil pessoas e crescendo. Ticket médio de 54 dólares e... Baixando. E isso é bom! Porque a campanha está chegando a pessoas que não podem (ou não querem pagar os 100 dólares recomendados). Mas tudo bem. Ninguem será punido por isso. Ninguém está reclamando do que você deixa de fazer. Há só uma mensagem: faça. Faça o bem, doe, brinque, dê exemplo, chame mais 3.

Qual o papel dos artistas nisso? Eles querem mostrar que são humanos como nós. E são. Isso ajuda a criar mais doadores? É provável que sim. Mas a questão é que a P.G. já está andando. E para o americano médio, isso só reforça que a campanha deve seguir, porque "nós americanos" isso e aquilo. Pois eles, os americanos, doaram até agora para uma única ONG 35 milhões de dólares. Eu também doei para a ALS. Fácil, sistema de poucos clicks. Recebi um email automático da presidente da ONG me agradecendo. No site nem se falava muito do desafio do balde. Tudo muito elegant.

Agora vamos ver o caso brasileiro. Logo que o furor começou já existia uma proporção equilibrada entre apoiadores e críticos. Já tínhamos dados, estatísticas e informações antes mesmo do Bill Gates aceitar o desafio do Zuckerberg. E então começou a sessão novela. Se o americano pega aquilo e começa a fazer o mesmo, o brasileiro médio ficou assistindo o quanto pode das celebridades. E ficava atento a se a pessoa citou a doença, se avisou que tinha doado, se a mulher estava com celulite.

Eu tenho preguiça de celebridade, já falei disso em outras ocasiões, inclusive no TEDx que participei. O que me interessa são as pessoas comuns. Eu comecei a ficar preocupado quando não vi nenhuma ação envolvendo o desafio entre nós, pessoas comuns. Então resolvi criar eu mesmo o desafio, pra gerar uma P.G. por aqui. E isso me gerou tanto aprendizado nestes últimos 4 dias que não sei se este artigo será suficiente. A primeira coisa que fiz foi, ao invés de jogar um balde de gelo, doar as 100 doletas pra ALS. Portanto segui rigorosamente o script americano. Posso chamar isso de experimento 1. É que fiz mais dois experimentos:

O experimento 2 foi tropicalizado (em função do fracasso do experimento 1, que conto daqui a pouco). Eu escolhi 6 amigos que gostam de beber, como eu, e os que deveriam fazer era escolher uma receita de drink contendo gelo. E doar para uma das mais de 40 ONGS de uma plataforma específica, todas ONGs muito conhecidas e sérias. Chamei isso de #outrodesafiodogelo.

O experimento 3 foi uma variação a partir do que descobri com o 2. Existe um componente psicológico aí, que é o sofrimento do outro (maluco isso, não?). Então como eu não queria me jogar um balde de gelo na cabeça, criei um desafio onde, além de doar para uma ONG, eu faria um match, uma nova doação, para as ONGs que meus selecionados tivessem doado. Sim esse é mais complexo, explico mais abaixo. Esse eu chamei de #desafiosemgelo.

Ok. Qual o motivo de criar três experimentos para falar sobre as doações do brasileiro médio? Bem, além do fracasso da primeira experiência, para duas coisas; por um lado, irmos descobrindo quais são as narrativas que podemos usar aqui no Brasil. E por outro, pra ir criando cultura, a partir da tentativa e erro mesmo. Quanto antes errarmos, mais rápido acertaremos.

Minhas primeiras conclusões sobre o processo, que ainda está em andamento:

O brasileiro médio que sai da posição de expectador ainda não tem consciência de seu poder mobilizador. Amigos meus que se atreveram a aceitar o desafio já se sentiram suficientemente felizes por fazê-lo, sem perceber que ainda existia a outra parte do desafio que era animar e estimular os outros 3 desafiados. Temos então um conjunto grande de brasileiros que não doam (e reclamam, se queixam, são contra, etc), temos um conjunto bem reduzido de doadores que se atrevem a doar, mas fazem isso de forma discreta, silenciosa, como se fosse pecado fazer diferente.

A ideia de existir um doador que é barulhento, que faz video, que pede pros outros doarem, tudo isso é quase uma heresia para o doador silencioso (nem cito para o não doador, pra esses, o doador mobilizador é um vaidoso). E é aí onde falarei um pouco (bem pouco) sobre o artista e a celebridade: Eles são vaidosos sim, trabalham com isso. E é um um bom serviço animar as platéias com suas aparições. Por isso temos o Didi e todos os globais no "Criança Esperança". E o Silvio no "Teleton" com vários artistas e cantores. Eles estão dizendo: doem. E nós, brasileiros, doamos. Ou seja, nós somos os heróis. Eles são nossos espelhos, intermedíarios, animadores. Mas os heróis, quem dá o dinheiro, somos nós.

Nos EUA isso é tão óbvio que nem é tema de debate. Aqui o debate tem o viés errado. Pouco me importa se o artista quis aparecer, eu quero mais é que ele apareça. Mas quero mais ainda que o brasileiro médio apareça. Que qualquer pessoa se sinta feliz, realizada, animada, em doar. Esses são os verdadeiros heróis. Nós somos os nossos heróis.

PS: Não deu pra falar tudo aqui. No próximo artigo conto um pouco mais das experiências que estão, neste momento, rolando no facebook. Se você receber algum desafio meio maluco de um amigo seu, leia atentamente, doe, e agradeça seu amigo. Ele e você são os heróis da vez.

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