OPINIÃO
11/08/2014 17:42 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02

Carta ao pai ausente

Em segundos meu pai morreu e ressuscitou, para um sumiço inexplicável. Depois, mais velho, soube que a história era complexa, havia nuances de fuga, idealismo e abandono. Amante, dívidas e ameaças de morte.

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Era um domingo, e eu, com 10 anos, voltava de um passeio de bicicleta pelo bairro. Minha diversão naquela época era escolher alguns gibis velhos e trocá-los por outros também velhos, na proporção de 2 por 1 em uma banca perto de casa. Desde jovem aprendi a perder dinheiro, como se nota.

Chegando em casa entrei pela porta de serviço, deixei minha bicicleta no quintal, entrei na cozinha e ouvi gente na sala. Minha surpresa: minha mãe chorando, escondendo a cara entre as mãos. Subi pro quarto, esperando que não me vissem. Ou que me vissem. Não sei dizer agora. Eu já assimilara nesses segundos que meu pai tinha morrido. Fui para o quarto dele e da minha mãe. Percebo agora como é curioso que eu tenha decidido isso ao invés de ir para o meu quarto chorar.

Na sequência, chegaram rápido meu irmão do meio e a melhor amiga da minha mãe. E me disseram que ele não tinha morrido. Ele tinha ido embora pra Mato Grosso, onde tinha umas terras que às vezes visitava. A Dirce, amiga da minha mãe, falou que segunda ou terça ele estaria de volta. Meu irmão, percebendo que eu não ia cair nessa, falou que na terça ele nem teria chegado ainda em Mato Grosso. Meu irmão tinha 20 anos na época. Tínhamos 10 anos de diferença. Eu não gostava muito dele, brigávamos muito. Mas eu acho que nasceu ali naquele dia uma cumplicidade. Algo como: "Lidaremos com a verdade, ok?"

Eu não lembro muito mais daquele dia. Passaram-se mais de 30 anos, mas do que eu disse acima, lembro perfeitamente. Em segundos meu pai morreu e ressuscitou, para um sumiço inexplicável. Depois, mais velho, soube que a história era complexa, havia nuances de fuga, idealismo e abandono. Amante, dívidas e ameaças de morte. Não importa. Ele foi, mas voltava regularmente.

Então, pra você entender, ele não morreu, ele não sumiu. Categorizar isso é realmente complicado. Vinha umas 2 vezes por ano, ficava em casa e passava uns dias. Era uma outra casa, minha mãe agora trabalhava para pagar as contas. Eu tinha uma bolsa de estudos numa escola cara e ela se agarrou a isso. Mudamos pra perto do colégio, assim eu poderia ir a pé e ela trabalhava o dia inteiro. As vindas dele eram estranhas pra mim. Depois de adulto percebi que preferia que não viesse. Aquilo não era um pai presente, nem um pai ausente. Aquilo era esquisito. Ele não era do mal, nem violento, ele era até engraçado. Mas eu não gostei de ter migalhas de um pai por tanto tempo. E ele, quando vinha, não pretendia compensar sua falta. Ele vinha e ficava como se nada tivesse acontecido. Como aquele pai que está sempre ali. Que lê o jornal dos domingos, que janta em silêncio, que prepara uma sopa enquanto conta uma história. Eu tentava gostar daquilo. Mas definitivamente eu concluí, adulto, que eu não gostava.

Essas 2 a 3 vindas anuais duraram até que eu fiz 18 anos e fui morar em Barcelona pra fazer a faculdade. Tem duas coisas que eu devo a ele nessa vida, que me fazem ter gratidão. A primeira é ele ter brigado por conseguir aquela bolsa de estudos na escola cara. Naquela época ele ainda morava com a gente. A segunda coisa foi ele ter pago essa passagem pra Espanha quando eu tinha 18 anos. Nós compramos um bilhete só de ida e ele me deu 300 dólares. Ele me disse que sabia que era pouco, mas que se eu precisasse, que me daria mais depois de um tempo. Eu não escrevi errado: foram 300 dólares. E eu me virei sim. Feliz, encontrei emprego de garçom, era verão, fiz uma grana - enfim, isso é outra história. Eu, na minha construção de um pai que me fez algo, achei o gesto de ele me dar uma passagem e 300 dólares uma coisa incrível, até porque eu sabia que ele vivia muito mal de grana em Mato Grosso. Aquilo pra mim foi até pouco tempo atrás a representação de um pai que na hora certa, te ajuda, como eu sempre leio em homenagens póstumas a pais variados.

Nesses mais de 30 anos eu nunca fui conhecer seu canto em Mato Grosso. Nos últimos 15 anos devo tê-lo visto umas 5 vezes. Há 10 anos atrás, tivemos uma conversa dura, onde acho que consegui dizer tudo o que precisava sobre ele. E que aquela situação aparentemente normal não era normal, que eu senti falta sim de um pai, de que suas vindas não foram minimamente suficientes, que não chegaram nem perto do que pais separados de amigos meus realizam com seus filhos quando se encontram. Eu sabia que ele não era do mal, como já disse. E que ele simplesmente não tinha consciência de nada daquilo. E que dizer aquilo iria no mínimo fazê-lo perceber alguma coisa. Mas que principalmente eu me aliviaria daquele peso. Concluí a conversa com um: "Agora cada um que carregue a sua cruz. Eu me cansei de carregar as duas". Fez bem pra mim. E desde então diminuíram ainda mais os encontros, sumiram os poucos telefonemas. Mas dessa vez eu sabia que o motivo era outro, era porque ele sentia uma certa vergonha.

Faz uns dois anos que eu pensei que era hora de visitá-lo lá longe. Eu não queria que ocorresse o pior: ele morrer, eu não ter ido conhecer sua casa e então eu me sentir culpado. Pois no começo desse ano lá fui, pra uma cidade pequena no meio do nada, longe. Muito longe. Dois aviões e mais 5 horas de carro por estrada de terra. Longe, mesmo. Passei uma semana lá, meu pai com quase 80 anos, mas um touro, me levou pra todo canto, me apresentou pra todo mundo. Dava comida pras vacas, andava pelo mato me explicando as árvores. Eu, urbanóide, achei tudo aquilo ok. Mas estava só cumprindo com meu objetivo, que era ter ido lá antes de sua morte e assim viver minha vida em paz.

Eu sei que as pessoas falam muito sobre perdoar. Meu irmão mais velho me fala isso até hoje. E minha resposta é simples: eu perdoei, só que não esqueci. E não esqueci por uma questão simples: porque não foi um ato isolado. Minha chateação não foi pelo que aconteceu naquele domingo dos gibis. Mas sim o que aconteceu nos 30 e poucos anos posteriores. Ele foi cometendo o mesmo abandono diariamente, a cada não ligada, a cada não conversa.

Então eu não me sinto culpado por essa espécie de frieza que passei a sentir sobre isso. Porque também lá atrás - faz 10 anos - no papo sério, eu disse a ele com muita objetividade: "Ok, você errou comigo nesses anos todos, mas não faça isso com minha filha, com sua neta. Participe, esteja presente dentro do possível, ligue pra ela, pra ela ter um avô." Mas ele não fez isso. E comentei isso a ele nessa viagem que fiz faz uns meses.

Dias depois de minha volta, a mulher dele me ligou dizendo que ele estava muito mal e que estava internado. Pra resumir, foram umas duas ou três semanas entre exames, melhoras, internações e, no fim, seu falecimento.

Ontem foi, portanto, o primeiro dia dos pais em que ele não está vivo. Mas, sem nenhum rancor no coração, posso dizer que já faz muitos anos que ele havia morrido em mim. E se há algo para eu ficar triste, é isso.

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