OPINIÃO
31/03/2018 10:42 -03 | Atualizado 31/03/2018 10:52 -03

O que a geração Y tem a nos ensinar sobre elevadores e poliamor

Será que existe uma escola de desapego – easy, budistas, que não estou falando de religião – na qual possamos nos matricular para aprender umas lições de vida?

"Inspirados em pessoas neuróticas como eu, os engenheiros modernos passaram a criar edifícios em que não pegar o elevador é algo praticamente impossível".
igor_kell via Getty Images
"Inspirados em pessoas neuróticas como eu, os engenheiros modernos passaram a criar edifícios em que não pegar o elevador é algo praticamente impossível".

Sempre morri de medo de elevador. Quando era pequena, imaginava que, um dia, aquela bosta ia despencar comigo dentro, e eu morreria de pescoço quebrado quicando bem forte com as costas no chão.

Naquele tempo, alguns séculos atrás, os elevadores eram bem mais românticos - como o é tudo que é velho, tipo eu -, com aquelas portas pantográficas e botões em relevo, lustres que custavam um apartamento, tapetes bordados, espelhos. Eram, também, bem menos seguros do que hoje, porque tecnologia era algo que só se usava para fazer Atari.

Quase 40 anos depois, sigo apavorada só de imaginar que preciso entrar em uma daquelas caixas metálicas para ir de um andar para o outro, e, se a distância envolve menos de 90 andares, costumo cogitar subir de escadas, sempre baseada em uma equação que sobrepõe o tempo disponível que tenho para chegar lá e a quantidade de fôlego de que meus pulmões ainda dispõem naquele dia.

Inspirados em pessoas neuróticas como eu, os engenheiros modernos passaram a criar edifícios em que não pegar o elevador é algo praticamente impossível. Pura sacanagem. Algo como terapia de choque, só que fora da sua alçada. Até dá para descer de escada, no caso de o prédio inteiro pegar fogo, e de certo o processo deve ser absolutamente seguro e muito ágil, como é tudo nos dias de hoje. Mas subir, ah, querido, subir vai ter que ser de elevador mesmo.

Porque, você já deve ter notado, o intervalo entre o térreo e o primeiro andar destas construções atuais costuma ser de cerca de três quilômetros e meio – e ninguém tem escritório no primeiro andar, vamos combinar, que chique mesmo é alugar a partir do décimo e ter aquela vista panorâmica. De modo que, fóbicos neuróticos inseguros, a fim de chegar ao seu andar de destino, precisarão, invariavelmente, embarcar na cabininha da morte.

E, como os engenheiros destes prédios modernos e ricos e muito altos são os mesmos daquelas salas de horror das quais precisamos escapar em menos de 60 minutos - um sucesso em São Paulo, cidade da qual venho tentando escapar há 60 encarnações - outra diversão na hora de bolar a planta é, além de condenar os visitantes a embarcar no ascensor, também bolar um design interessante em seu interior.

Porque elevador novo que se preze não pode ter botão. Quer dizer, até tem, mas não serve para muita coisa, é tipo decorativo. Botão do Romero Britto. Porque não é você quem decide para onde vai, é o elevador quem manda nessa parada. O passageiro tem que, basicamente, confiar e entregar pra Deus – ou Otis, no caso.

Sabe do que estou falando? Quando você programa, lá de fora, o andar para onde quer ir, e sua única função como viajante é tirar a casquinha de feijão no dente em frente ao espelho e crer que 1) o elevador vai, de fato, parar onde você precisa, e 2) ele não vai despencar ou te trancar lá dentro para sempre antes disso.

É o típico dispositivo da geração millennial. A geração que tem desprendimento suficiente para se enfiar em uma cabine e não surtar sob a possibilidade de que tudo saia de controle. Porque os millennials estão de boa com coisas fora de controle. Eles não têm a necessidade de dominar o baile todo igual nós, antigos, temos.

E eles aceitam muito mais que o simples fato de que um elevador não tenha botões. Eles aceitam, por exemplo, que não há como controlar absolutamente nada nessa vida, inclusive, e especialmente, os relacionamentos. Ou você acha que a gente da terceira idade conseguiria viver o poliamor, por exemplo?

Sim, um dia houve toda aquela famosa libertação sexual, e a gente transou adoidado com um monte de pessoas diferentes, mas nunca antes na história deste país nós embarcamos de cabeça em uma relação amorosa com mais de um indivíduo. Ok, pode ser que tenhamos feito isso pelas costas de um parceiro, traindo-o com toda a torcida do Flamengo, mas, oficialmente, éramos de, no máximo, uma pessoa só. O poliamor foi inventado pela turma Y, ponto.

Encarar com consentimento a divisão do coração do ser amado em tantas fatias quanto uma pizza de catupiry demanda desprendimento e confiança de que, suponho, minha geração não é capaz. Somos do tipo que sua de nervoso diante do painel decorativo dos elevadores, e vomita de angústia quando o namorado compartilha link de matéria sobre o poliamor. Simplesmente não estamos preparados.

Será que existe uma escola de desapego – easy, budistas, que não estou falando de religião – na qual possamos nos matricular para aprender umas lições de vida?

Para levar uns tapas suaves na cara e aceitar, por exemplo, que o gravador digital está, sim, registrando a entrevista, e que não é preciso ver a fita rodando para ter certeza?

Meu email está aberto à ajuda dos millennials que topem guiar esta senhora agarrada à vida e aos velhos conceitos. Acho que sempre é hora de evoluir, nem que seja só para aprender a andar tranquila de elevador.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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