OPINIÃO
06/03/2015 18:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

É questão de gênero, sim

O mercado de trabalho é muito mais desafiador para as mulheres. Porque uma mulher enfrenta, todos os dias, o desafio de ser quem é. Para além de provar suas capacidades (o que precisa ser feito com mais constância e intensidade do que quando se é um homem), precisa se manter firme em disputas de poder com quem, historicamente, já está em uma posição mais vantajosa, inclusive na questão salarial. Precisa lidar com o assédio, muitas vezes escolher a roupa que vai usar sem ficar bonita demais (mas feia demais também não pode, claro), e até mesmo com o preconceito geracional que, contra nós, é mais agressivo.

Msieur J. version 9.1/Flickr

Juliana* tinha um sócio. Teoricamente, portanto, não havia nenhuma relação de hierarquia entre os dois. Mas era comum ele tratá-la como se fosse chefe dela. Numa ocasião, por exemplo, ele se atrasou muito para uma reunião que os dois haviam marcado com uma pessoa. Depois de esperarem por algum tempo, Juliana, a pedido dessa terceira pessoa, acabou começando a reunião sem ele. O sócio chegou irritadíssimo, questionando Juliana. E, invalidando o trabalho feito por ela até ali, redirecionou tudo o que já havia sido decidido na conversa. Depois, os dois discutiram. E Juliana, que ficou bastante nervosa, se impôs, reafirmando sua posição. O que correu depois, entre as pessoas que souberam do desentendimento, foi que Juliana havia perdido o controle, ficado nervosa demais. Que agira como uma mulher louca, desequilibrada, talvez até estivesse de tpm.

Em outra situação, também durante uma reunião, o sócio questionou Juliana, na frente de outras pessoas, em relação às finanças da empresa. Como se ela houvesse embolsado algum dinheiro indevidamente. Depois, ficou claro que ele nunca havia realmente desconfiado dela: queria apenas constrangê-la diante dos outros.

Mariana* trabalhava como editora de livros. Seu chefe a tratava como se fosse um pai, mas aquilo não era confortável para ela. Parecia que ele achava necessário agir assim porque ela, por ser bem mais nova, era vista como uma incapaz. Até mesmo os autores publicados pela editora a tratavam com desdém e indiferença. Depois que saiu da editora e foi para uma redação (ela é jornalista), percebeu que, ali, quando um estudante muito jovem do sexo masculino era contratado para uma vaga geralmente destinada a pessoas mais experientes, todos o tratavam como um talento excêntrico. As estudantes mulheres eram sempre estagiárias. E tratadas como se suas supostas ingenuidades a colocassem numa condição inferior -- inclusive à do menino que era um talento excêntrico. Se elas atendessem aos padrões de beleza, então, era como se não fosse compatível que, na mesma pessoa, existisse também alguma inteligência.

Carolina* também era jornalista, e experiente, apesar da cara de menina. E sua aparência cumpria todos os requisitos básicos que os padrões de beleza possuem: era mesmo linda, ninguém discordava. Entrevistava muita gente importante e, uma vez, precisou aparecer no vídeo. Ela não se sentia à vontade com a ideia, até então só trabalhara escrevendo suas reportagens. Mas acabou fazendo o trabalho, vestida com uma camisa toda fechada e quadrada que nem ela sabia por que estava em seu armário. O medo de aparecer na tela, para Carolina, ia muito além da timidez: ela não queria que sua aparência ficasse muito em evidência e se destacasse mais do que seu trabalho. É que já havia acontecido, por exemplo, de um entrevistado, executivo de alto escalão, pedir ao seu chefe que Carolina fosse a pessoa escolhida na equipe para entrevistá-lo. E não era porque ele a considerava uma boa profissional.

Eu também sou jornalista e, há bem pouco tempo, fui visitar uma exposição porque estava apurando informações para uma reportagem. Quando pedi a uma senhora da instituição uma informação sobre autorização de fotografias no local, ela me encaminhou a um funcionário (não sem antes me olhar de cima a baixo, verificando a que correspondia meu vestido florido e rodado em seu código mental). O funcionário me destratou sem pudor algum, levantando a voz para dizer que eu trabalhava numa revistinha qualquer, e não me deixava falar. Insisti, tremendo de raiva e descrédito, afirmando que ele não estava bem informado a respeito da publicação e que, mesmo que se tratasse de uma revista pequena, ele não deveria agir dessa forma. Apenas quando ele ouviu minha fala, pareceu se ver em uma armadilha. Me olhou inteira, como se estivesse se certificando de algo: será que, apesar do meu vestido florido e rodado, da minha cara de menina, eu poderia ser uma pessoa importante? Ter algum poder sobre ele? Não deu tempo de ele chegar a ser gentil comigo, mas vi o receio nos olhos dele, antes de ir embora.

O mercado de trabalho é muito mais desafiador para as mulheres. Porque uma mulher enfrenta, todos os dias, o desafio de ser quem é. Para além de provar suas capacidades (o que precisa ser feito com mais constância e intensidade do que quando se é um homem), precisa se manter firme em disputas de poder com quem, historicamente, já está em uma posição mais vantajosa, inclusive na questão salarial. Precisa lidar com o assédio, muitas vezes escolher a roupa que vai usar sem ficar bonita demais (mas feia demais também não pode, claro), e até mesmo com o preconceito geracional que, contra nós, é mais agressivo.

Se você é mulher e se lembrou de alguma história parecida com essas acima, me conta (mesmo que não tenha certeza de que havia uma questão de gênero envolvida)? Pode ser nos comentários, aqui embaixo, ou diretamente no meu e-mail: marcella@iara.vc. Obrigada.

*Os nomes verdadeiros foram preservados porque nenhuma delas merece ser questionada, agredida, mal tratada novamente, dessa vez por conta de seus relatos.