OPINIÃO
11/05/2015 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

As mães que podemos ser

Blaise Hayward

Segunda de manhã e uma chuvinha fria lá fora. Sexta tinha sido feriado e passamos, portanto, três dias juntos praticamente o tempo todo, meu marido, meu filho de quase 3 anos e eu. Eu, que tenho um humor facilmente determinado pelo clima, olhei pela janela da sala e sorri com alívio, apesar de aquele cinza úmido não ser, geralmente, o que me faz acordar disposta. Eu tinha pra fazer apenas trabalhos de que gosto, e em casa. Meu marido levaria o João pra escola e eu ficaria, até a hora do almoço, com a casa toda para mim. Que sonho. Que alegria imensa, só eu e o gato, eu e o relógio fazendo tic-tac, eu e... a mensagem de áudio do meu marido que acabava de chegar no celular: "Má, falei com a professora e ela disse que ele anda se comportando do mesmo jeito na escola. Faz de tudo pra chamar a atenção, briga, não quer participar de algumas brincadeiras, parece carente...". Minha resposta, compadecida e resignada: "Vou trabalhar até o almoço e à tarde vou respirar fundo pra conseguir fazer algo sozinha com ele, talvez levá-lo pro cinema, pra dar uma volta, vamos ver. De repente é bom você fazer o mesmo em algum outro momento desta semana, se você puder".

Crianças de três anos ainda não sabem dizer: "Mamãe, tenho me sentido carente. Tenho sentido sua falta, gostaria que você ficasse mais tempo comigo." Ou: "Papai, ando meio estranho, sentindo uma coisa que não sei nomear. Mas não está bom, eu fico aflito, sabe?". E cada uma lida à sua maneira, portanto, com essas sensações e tantas outras. A do meu filho tem sido nos deixar malucos. Ele passou os últimos dias fazendo tudo o que tinha ao seu alcance para nos tirar do prumo. Desde as pequenas coisas, como mexer em absolutamente tudo o que ele sabe que não pode enquanto estamos apenas esquentando a comida ou lavando a louça, por exemplo. Ou jogar toda a comida do gato na água do gato enquanto estamos acordando de manhã, levantando da cama devagar às 6 e meia no sábado - porque essa é a hora que ele acorda e, entre abrir os olhinhos e estar correndo pela sala são poucos segundos. Ou pedir tudo o que vê pela frente pra comer, mas logo que é servido, dar uma mordidinha e dizer que não quer mais, rindo. Ou bater forte de sopetão na nossa cara, se divertindo como se isso fosse uma brincadeira legal. Ou pedir ajuda para colocar e tirar os sapatos 32 vezes na sequência, berrando sempre que dizemos que não vamos mais fazer aquilo. Ou, um clássico aqui em casa, fazer alguma estripulia que obviamente vai dar em cabeça batida numa quina quando vê meu marido e eu conversando sobre um assunto que não é ele. Pior ainda se nos beijarmos, mesmo que rapidinho.

Quando essas situações acontecem isoladamente, em geral encaramos como oportunidade de mostrar limites. Mas quando se repetem por dias, como foi por aqui no feriado prolongado, detectamos que existe algo mais acontecendo. Ainda não sei do que se trata e nem se existe uma grande resposta, mas entendo que posso tentar fazer coisas que tornem essa fase mais tranquila para o meu filho.

O esforço que fiz cada vez que me vi perdendo o controle nesses dias foi o de me lembrar que ele estava tentando me dizer algo que, certamente, nem ele sabe bem o que é. E meu papel é, na medida do possível, ajudá-lo nisso. Acolher me parece sempre um bom caminho. Parar por um segundo quando se está no olho do furacão, respirar e tentar esfriar a cabeça quando tudo o que você quer é sair correndo pra passar a vontade de bater, é uma arte. Não consegui fazer isso em todas as vezes nesses últimos dias. Aliás, me descontrolei pelo menos uma vez por dia, levando-o pra sentar na cama e pensar no que tinha feito de errado, fechando a porta do quarto e ouvindo ele chorar pedindo desculpas enquanto eu notava que estava tão irritada que meu coração já nem se despedaçava mais com o apelo dele. Só não bati.

O João passa a manhã na escola e a tarde com a Marly, que trabalha conosco desde os seis meses dele. Fico por perto, mesmo que um tanto ausente durante o dia por conta do trabalho, porque tento almoçar em casa sempre e chegar cedo. Então ficamos juntos de verdade à noite, quando o pai dele também chega, e assistimos tv, lemos histórias, conversamos sobre o dia. Às vezes um de nós sai com amigos e o outro fica com ele. Aos finais de semana, passeamos, brincamos, vamos à praça, cozinhamos, ficamos de preguiça vendo filme, chamamos amigos com filhos e ele brinca com outras crianças, visitamos amigos/parentes também com filhos, e ele vai pra casa da avó sempre que temos algum programa de adulto. Ele adora ir pra lá, sempre pede e muitas vezes não quer ir embora. Minha mãe é uma super avó.

Não consigo pensar que faço pouco por ele. Nem que poderia ser uma mãe melhor. Nem que ele não tem uma vida ótima. Nem que preciso criar mais regras pra ele seguir até ficar sem saída, nem que preciso abraçá-lo incondicionalmente toda vez que ele faz alguma coisa que me enlouquece, engolindo a raiva sempre (sim, raiva é o que eu sinto, às vezes, e também não consigo achar que sou uma pessoa terrível por sentir isso por uma criança de três anos).

Nada disso significa que eu me veja como alguém que só acerta, que nunca pode fazer mais, se questionar, assumir falhas, mudar direções. Até porque, de onde eu olho pra tudo isso, ser mãe é uma oportunidade tremenda de encarar nossas fragilidades, sombras, e crescer, não só de experimentar uma felicidade sem precedentes, um amor que talvez seja o mais louco e incondicional que existe, e que nos inspira uma coragem de atacar a quem faz mal à nossa cria mesmo que o inimigo seja um leão raivoso.

Eu só não faço da culpa materna uma companheira constante, sempre a postos para tentar tomar conta de mim e me fazer carregar um peso que não é só meu. Ela pode ser tão grande que, em vez de nos ajudar a repensar formas de criar nossos filhos, o que é extremamente positivo e acontece quando a medida é razoável, nos paralisa. E se não nos coloca em uma posição de vítimas de nós mesmas, nos enfraquece em todas as outras áreas das nossas vidas, não apenas na maternidade. A culpa materna é uma excelente forma de controlar mulheres. Pra que elas passem a vida tentando ser mães melhores a qualquer custo, sem se preocupar com mais nada. Pra que elas tenham a certeza de que são incapazes, pouco dedicadas, numa constante autoavaliação que conclui, invariavelmente, que há insuficiência.

Essa culpa cresce demais quando alimentada pelos dedos acusatórios apontados em nossa direção de todos os lados, desde que nos tornamos mães. Eu tenho meus dias de fraqueza. Mas desde que comecei a sentir na pele esse mecanismo cruel e naturalizado de julgamento, quando meu filho ainda era pequenininho e eu estava aprendendo a ser mãe dele, passei a me fortalecer com essas acusações. Respondi a elas, toda vez que tinha condições pra isso, com palavras variadas que sempre queriam dizer a mesma coisa: vocês não vão me controlar.

Entendo que esse peso todo precisa ser dosado e compartilhado, não só com os pais, ou até com a sociedade em geral, mas com outras mães. Vejo tantas delas assumindo-o sozinhas, sem nem perceber que a maternidade, que pode nos tornar ainda mais poderosas, quando está nesse contexto pode até levar a culpa de destituí-las de si mesmas. Não sei dizer quantas vezes comentei que o João estava terrível e recebi em troca olhares e palavras de reprovação, ou mesmo aquele: "Ah, criança é assim mesmo, mas é maravilhoso ser mãe, né?", que também nos diz: "Deixa isso pra lá, shh, pega mal, vamos falar sobre aquela parte do amor incondicional e tal". Nem em quantas conversas entre mães vi uma encenação de placidez, aquela das propagandas de lenços umedecidos e shampoos de bebê, que me deixava triste por não enxergar, ali, alguém que pudesse aproveitar para desabafar um pouco, nem que fosse pra rir da situação. Ou mesmo me acolher se fosse o caso de eu estar precisando disso. Sei que não é culpa delas.

Minha sorte - ou, em parte, consequência natural das escolhas que fiz por aqui - é que tenho à minha volta amigas e mães dispostas a olhar para a vida real e encontrar ecos nos desabafos que fazem numa roda de conversa, num chat de facebook, numa mesa de bar depois da reunião da escola.

Não sou uma mãe que lê muitas teorias sobre a maternidade, a não ser relatos, mesmo. Fui optando, meio sem pensar, só sentindo, por criar meu filho do jeito que eu acreditava ser o melhor, e por criar minhas próprias regras conforme elas fossem se fazendo necessárias. Hoje, acho que são 3 as principais por aqui. A primeira: para cuidar bem de um filho ou de uma filha é preciso estar bem cuidada, inclusive por mim mesma (essa eu adotei quando o João ainda era um bebê de colo e me vi acabada pelo pós-parto); a segunda: quando bate a culpa, é hora de aproveitá-la pra entender se posso fazer algo melhor do que o que já estou fazendo; a terceira: nem sempre a vida permite que possamos seguir quaisquer regras e, para sermos fortes o suficiente para encarar esses momentos, precisamos de amor-próprio e apoio. O resto é instinto.