OPINIÃO
11/11/2014 14:42 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

O foco da semana de moda se perdeu

Fernanda Calfat via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - NOVEMBER 07: (EDITORS NOTE: THIS IMAGE WAS CONVERTED TO BLACK AND WHITE.) An alternate view of models on the at the 2nd Floor fashon show during Sao Paulo Fashion Week Winter 2015 at Parque Candido Portinari on November 7, 2014 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Fernanda Calfat/Getty Images)

Semana de moda é aquela loucura, mal dá tempo de comer direito, quanto mais acompanhar todos os bafafás pelo Twitter, Facebook, Instagram, Tumblr... A vida se resume em correr de um lado para o outro, sentar dez minutos na sala de imprensa para bater a notinha mais recente e depois sair de novo atrás da próxima notícia.

Complicado.

No entanto, entre um backstage e outro, um tweet das meninas do blog "Oficina de Estilo" me chamou muito a atenção. Dizia assim: "Semana de moda brasileira que celebra estilista italiana, produto chinês, stylist de celebridade, blogueira belga. bom dia pra você também". Realmente, fica difícil ter um bom dia depois de um balde d'água desses.

Engraçado como, a cada temporada, as semanas de moda focam mais e mais no lado 'glamour' e menos na valorização daquilo que é nosso, do ofício incrível que é a criação de uma roupa e sua apresentação para o mundo. Não sei dizer como são as semanas de moda internacionais, eu, particularmente, nunca tive a chance de ir à uma, mas aqui em casa eu tenho visto cada vez mais a busca pelo número de seguidores do que por aquilo que é visto nas passarelas. Bons os tempos em que a correria era para perguntar inspirações para estilistas, referências de maquiadores, a opinião dos especialistas... E só.

Hoje em dia (parece coisa de gente de idade, mas não é!), o que mais se valoriza é o dinheiro. Sim, pode não fazer (tanto) sentido, mas é bem isso mesmo. O famoso da novela que usa uma peça da marca do desfile que ele vai ver e aparece em todos os veículos com o tal look. Ou a blogueira que leva a bolsa nova recém ganhada de presente da outra marca Y justamente para ser exibida durante a São Paulo Fashion Week. O que importa são os likes numerosos nas contas do Instagram e os looks - cada vez mais espalhafatosos - cujo único objetivo é - você adivinhou - aparecer em todos os veículos de comunicação (quem por aí viu a foto da wanna be Lady Gaga com roupa feita de balões?).

Quando foi que perdemos a admiração por aquilo que era criado, pela arte apresentada (porque, sim, eu acredito que moda é um tipo de arte), por conta do número de seguidores nas redes sociais? Já disse uma vez e digo de novo: parem o mundo, porque eu quero descer!

O Brasil é um país gigante pela própria natureza e que tem tanto talento, tanta inpiração por aí, que é difícil pensar que o que mais é valorizado durante uma semana de moda são coleções lançadas em parceria com estilistas gringos para marcas de fast fashion cujas roupas, muito provavelmente, são produzidas em massa na China ou Tailândia. Esqueça Glória Coelho, Ronaldo Fraga, e todo trabalho que Lino Villaventura e Tufi Duek tiveram para criar coleções que serão apresentadas sempre com uma estação de antecedência.

O que os fotógrafos querem é saber quem está na Fila A, quem está namorando quem, o que a blogueira está usando hoje e em qual festa estarão as pessoas mais hypadas da moda hoje em dia. Esqueça os grandes bares nos bairros nobres da cidade, deste vez todo mundo vai estar no boteco da esquina que é a promessa da próxima temporada.

Essa foi a São Paulo Selfie Week. Todo mundo viu quem conseguiu uma foto com Gisele Bündchen, e quem não conseguiu... Bom, sempre tem o ano que vem, não é mesmo? Foi a semana das fotos de sorvete de graça, de lanchinhos na sala de imprensa, de festas pós-desfile e de celebridades contando sobre seus últimos projetos profissionais nos backstages. Foi a semana de bolsas de marca e looks criados especialmente para serem vistos e fotografados para as galerias das melhores produções do evento, de bafões nos corredores do parque Cândido Potinari e de filas para comer crepes de Nutella superfaturados.

Quanto aos desfiles... Bem, sempre podemos falar disso depois. E viva a moda brasileira!

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