OPINIÃO
02/04/2014 10:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

O cinema muda o mundo (mudou o meu)

Reprodução/YouTube

Desde que me conheço por gente sempre quis fazer cinema. E comecei fazendo comerciais para TV porque, na época em que me formei, não existiam as leis de incentivo fiscais, a Embrafilme foi logo extinta e a indústria de longa metragens se resumia aos filmes da boca do lixo e a alguns poucos filmes de arte que conseguiam sobreviver ao marasmo cinematográfico vigente.

Assim que pude, pulei dos comerciais para os longas. Meus dois primeiros filmes foram comédias. No primeiro filme ALÔ?! tive a honra de trabalhar com Myriam Muniz, naturalmente talhada para o papel de Maria, uma empregada trambiqueira; e com Betty Lago, que, no auge de sua fama, também encaixava-se perfeitamente no papel de Dora, uma dona de boutique pra lá de desonesta.

Meu próximo filme foi Avassaladoras, uma comédia romântica com Giovanna Antonelli, Reynaldo Gianecchini e Caco Ciocler. Sucesso de bilheteria, principalmente entre as mulheres que se divertiam muito e até tiravam lições de vida do enredo.

E pensei que fosse enveredar pelas comédias (românticas ou não), mas sempre procurando o riso que, acredito fortemente, desarma as pessoas e abre as portas para que as ideias penetrem sorrateiramente em suas almas desarmadas.

Mas não foi assim que o destino quis. Em 2005 parti para meu terceiro filme, Doutores da Alegria, um documentário sobre o olhar do palhaço. Afinal sou mulher do fundador (Wellington Nogueira) e já estava cansada de ouvir histórias lindas sobre a interação entre palhaços e crianças hospitalizadas. Estas histórias comoventes precisavam ser conhecidas!

O filme foi muito bem recebido pela crítica e público, e recebeu vários prêmios, sendo considerado pela Unesco como uma OBRA QUE PROMOVE UMA CULTURA DE PAZ.

Acho que foi aí que o bicho me picou. Fui então contaminada pelo social.

Comecei a perceber que o impacto social de um documentário não passa pelo número de ingressos vendidos. Sua potência deve ser medida com outras ferramentas. Vários documentários já causaram "estragos", e suas bilheterias foram ínfimas se comparadas aos filmes de ficção. Um dos exemplos é o filme Super Size Me, que influenciou a mudança do cardápio do McDonald's, e também o filme Uma Verdade Inconveniente, com Al Gore, que estimulou a discussão sobre aquecimento global.

E assim foi com o filme Doutores da Alegria. Pessoas de todas as idades e perfis vinham me contar o quanto o filme tinha impactado suas vidas. Lembro-me de uma jovem que saiu de uma sessão do filme com os olhos marejados e me disse que estava em dúvida de que carreira seguir e que o filme tinha sido a inspiração que faltava para tomar sua decisão. Um professor que relatou ter mudado seu jeito de ensinar depois de ver o filme. Um outro jovem que decidiu ser voluntário. Enfim, desde que o filme foi lançado e a cada nova exibição na TV, sempre ouvimos histórias muito emocionantes.

E foi então que percebi que estava num caminho sem volta e decidi partir para uma nova aventura social: um filme sobre Empreendedores Sociais ao redor do mundo chamado Quem se Importa? ("Who Cares?", internacionalmente).

Entrevistei 18 líderes sociais de diversas partes do mundo e de diversas áreas de atuação. Conheci um monge budista belga que treina ratos na Tanzânia para detectar minas terrestres e tuberculose. Uma educadora que está acabando com o bullying nas escolas do Canadá, ensinando empatia para as crianças. Um brasileiro que foi o primeiro a falar em inclusão digital e a levar computadores para favelas. Outro que era padre e virou banqueiro dos pobres. E tive a honra de conversar com Muhammad Yunus, criador do Grameen Bank e Prêmio Nobel da Paz, e com Bill Drayton, fundador da Ashoka, primeira organização a apoiar empreendedores sociais ao redor do mundo.

Aprendi muito sobre empreendedorismo social, sobre estas pessoas brilhantes com ideias criativas, de baixo custo e alto impacto, que estão causando tantas transformações em suas comunidades. E me perguntei: o que estas pessoas tão diferentes entre si tem em comum? Afinal elas vem de backgrounds muito diversos e criaram organizações muito diferentes umas das outras. A princípio elas não tem nada em comum além de muita persistência e da vontade de mudar o mundo. Mas o que mais me chamou a atenção é que todas elas conseguiram unir missão de vida a trabalho. E não existe nada mais gratificante do que se trabalhar no que a gente acredita que pode melhorar o mundo!

Talvez agora vocês entendam por que o cinema também pode mudar o mundo. Afinal, mudou a minha vida.