OPINIÃO
01/04/2014 10:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Nativos digitais analfabetos computacionais: é hora de aprender a programar!

Realmente acredito que trazer a computação para a vida das crianças e para as escolas deva ser uma coisa a ser feita no Brasil. Entender a organizar ideias de forma não linear, como nos programas de computadores, é um talento incrível e com aplicaçoes nas mais diferentes áreas, mesmo que não ligadas ao mundo da computação.

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Qualquer pessoa que nasceu depois dos anos 90 pode se considerar um nativo digital. Ela nasceu numa época em que computadores pessoais, telefones celulares e a Internet já estavam bastante presentes e cresceram com estas e outras tecnologias praticamente ubíquas em suas vidas. Mas será que estes nativos digitais também são fluentes na língua dos computadores?

Quando tive meu primeiro contato com um computador, lá em Araguari, por volta do meus 8 anos de idade no começo dos anos 80, o computador era algo mágico mas que não fazia nada quando tirado da caixa. Meus primeiros contatos foram com alguns clones do Sinclair ZX 80, um simpático computador pessoal de 8 bits bastante famoso no Reino Unido. Naquela época, para os que ainda se lembram, era proibido importar computadores para o Brasil e dependíamos de contrabando - o que era bem complicado - ou de uma forte indústria de clonagem de projetos importados. Um dos clones em questão era o NE Z8000 que, pasme, vinha na forma de kit em uma revista de eletrônica da época, a Nova Eletrônica, e tinha apenas 1K byte de memória RAM. Daí o nome, NE Z8000. Mas foi alguns anos depois, acho que por volta de 1985, que me liguei de fato à computação quando ganhei meu CP-400 Color II, um outro clone, desta vez um bem mais acabado, produzido e comercializado pela Prológica, uma das maiores empresas de computação da época. O CP-400 Color II era um clone basedo no TRS-80 Color Computer, um dos primeiros computadores pessoais capaz de reproduzir gráficos coloridos. Ele tinha incríveis 64K bytes de memória RAM (sendo apenas uns 24K disponíveis para programas do usuário) e sua CPU rodava por volta dos 1Mhz.

Além da distância quase estratosférica de capacidade daqueles computadores com qualquer computador atual, a grande diferença, para mim, era que aqueles computadores quando ligados não faziam praticamente nada. Ao ligar meu velho CP-400 o que eu via na tela da TV da sala de estar - uma daquelas de tubo e que fazia as vezes do monitor do computador - era uma tela toda verde, algumas informações sobre o computador e um cursor colorido piscando. Nada de interfaces gráficas sofisticadas ou de programas instalados. Nada, nem um joguinho de paciência. Aquele prompt era uma porta para um mundo de possibilidades que tomou boa parte de minha infância e adolescência e me levou definitivamente para o mundo da computação. Para tirar algum proveito do computador você não tinha opções senão a de aprender a trabalhar com os recursos mais básicos do sistema operacional, que em geral não serviam para muita coisa, ou você era obrigado a criar seus próprios programas. Assim, o passo mais natural era aprender a programar. E foi isto que eu e vários amigos daquela época fizemos e, consequentemente, começamos a falar a língua dos computadores apesar de não sermos verdadeiros nativos digitais.

A situação era tão drástica que o manual de um computador daquela época tinha em suas primeiras páginas as instruções para conectá-lo à TV e à rede elétrica, mas o restante era a documentação da linguagem BASIC que normalmente vinha embarcada no computador. Ou seja, mais do que para ser usado o computador era para ser programado. Em alguns modelos de computadores os comandos do BASIC estavam gravados nas teclas do teclado. Tudo que você tinha que fazer era ir testando cada comando para ir, aos poucos, aprendendo aquela linguagem de programação. Assim, qualquer criança ou adolescente que começou a brincar com computadores nos anos 80 acabou tendo que, de um jeito ou de outro, aprender a programar e a entender melhor como um computador funciona.

Hoje, qualquer dispositivo vem recheado de aplicativos e com funcionalidades super sofisticadas, seja ele um notebook, um tablet ou um telefone celular. As interfaces são extremamente mais amigáveis do que o prompt piscante dos anos 80 e, muitas vezes, nem de um teclado você precisa. Minhas filhas de 1 e 3 anos de idade interagem fluentemente com meu iPhone e não tem a menor dificuldade para encontrar seus jogos preferidos ou ver as fotos da família. São nativas digitais, nasceram numa época em que computadores estão presentes em todos os lugares, com telas de toque, interfaces intuitivas, recheados de aplicações e conectados à Internet. Porém, existe um preço que estamos pagando por isto. A necessidade de se conhecer como um computador funciona e de aprender a programá-lo está ficando cada vez menor para estas pessoas. O que é uma pena, pois computadores são apenas ferramentas. Sim, são a ferramenta mais poderosa que já foi inventada, pois são ferramentas para a construção de outras ferramentas. O ponto é que estas novas ferramentas só podem ser criadas através da programação dos computadores. Logo, para tirar o maior valor dos computadores precisamos de programá-los e, quando isto acontece, o resultado é mágico e transformador.

Computadores estão transformando todas as indústrias e nossas vidas com a digitalização e automação de quase tudo que conhecemos. Isto só acontece porque para cada problema encontrado alguém está desenvolvendo um pedaço de software que ajude a resolvê-lo. Da medicina à arquitetura, da manufatura às artes, da linguística ao entretenimento, todas as áreas estão demandando mais computação e, consequentemente, mais programadores para ajudar em sua evolução. Com isto, vemos uma demanda cada vez mais de profissionais de TI no mundo todo. Para se ter um ideia, uma recente pesquisa feita pelo IDC com foco na América Latina identificou um crescimento da demanda por profissionais de TI acima do que o mercado é capaz de formar. No Brasil, onde em 2011 tínhamos 25% mais demanda do que profissionais sendo formados, em 2015 este número excederá os 35% significando uma carência de mais de 117 mil profissionais de TI. A situação também é parecida nos países desenvolvidos onde já vemos esforços e movimentos dos governos e outras instituições para acelerar o desenvolvimento destas capacidades desde cedo.

No Reino Unido a campanha independente chamada de Year of Code, ou Ano do Código, tem o objetivo de fazer com que pessoas do país todo comecem a programar em 2014. E o Reino Unido irá introduzir programação como parte do currículo escolar para crianças entre 5 e 16 anos a partir de setembro deste ano. Nos Estados Unidos outra organização chamada CODE.org está dedicada a expandir a participação da ciência da computação na vida escolar de crianças e adolescentes e também a aumentar a presença de mulheres e outros grupos pouco presentes no mundo da computação. Eles também defendem que a ciência da computação deveria fazer parte do currículo básico das escolas junto da matemática, da física, da biologia e da química. O assunto é tão estratégico que até o Presidente Barak Obama juntou-se às vozes do movimento na "semana do código" no ano passado sugerindo que as crianças "não apenas comprassem um novo video-game, mas que criassem um".

Realmente acredito que trazer a computação para a vida das crianças e para as escolas deva ser uma coisa a ser feita no Brasil. As razões vão muito além de tentar suprir a lacuna no mercado de trabalho para profissionais de TI. A primeira é razão é a da fluência na língua dos computadores que estarão, inevitavelmente, cada vez mais presentes em todos os aspectos de nossas vidas. Assim, para entender melhor este novo mundo onde vivemos e para aproveitá-lo em sua plenitude, a fluência na língua dos computadores será fundamental. Depois, ao ser apresentado aos conceitos básicos da programação, a pessoa aprende a organizar melhor seus pensamentos, a trabalhar de maneira mais estruturada e sistemática e a transformar sua criatividade em resultados com a mais poderosa das ferramentas. Entender a organizar ideias de forma não linear, como nos programas de computadores, é um talento incrível e com aplicaçoes nas mais diferentes áreas, mesmo que não ligadas ao mundo da computação.

É hora de lutarmos para que estas primeiras gerações de nativos digitais sejam, também, fluentes na língua dos computadores.

Let's hack* the planet!

* Hack é uma coisa boa, mas isto é assunto para outro artigo. ;-)