OPINIÃO
08/11/2014 21:33 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:44 -02

O que significa a unificação alemã para a geração pós-Guerra Fria?

"Aufklärung jetzt!" ("Esclarecimento já!") parece um slogan de protesto muito antigo -- "Povo, levante-se e abra as portas do inferno!" Isso foi em 1813, quando a Alemanha teve de se libertar de Napoleão. Como filho da guerra, eu fui incitado à ação já em 1945 pela Aufarbeitung (reconciliação). Desde minha infância, portanto, fui confrontado com essa dupla história de ditadura.

"Aufklärung jetzt!" ("Esclarecimento já!") parece um slogan de protesto muito antigo -- "Povo, levante-se e abra as portas do inferno!" Isso foi em 1813, quando a Alemanha teve de se libertar de Napoleão. Como filho da guerra, eu fui incitado à ação já em 1945 pela Aufarbeitung (reconciliação). Desde minha infância, portanto, fui confrontado com essa dupla história de ditadura.

Na antiga República Federal Alemã, foi inicialmente sobre a denúncia dos crimes nazistas e a Segunda Guerra Mundial. A discussão se baseava em duas questões: a culpa alemã e como era possível que a maioria dos alemães tivesse acreditado em um Führer diabólico.

Depois de 1945, houve outros problemas prementes em consequência da guerra: o destino dos prisioneiros de guerra, o futuro de milhões de refugiados e deslocados, a reconstrução de um país marcado pela guerra, os empregos e a recuperação da soberania alemã.

"Sempre teve a ver com a identidade alemã."

Em 1961 foi construído o Muro; ao mesmo tempo, por causa do processo de Eichmann em Jerusalém, o genocídio contra os judeus europeus tornou-se uma questão, assim como a questão de por que os democratas da República de Weimar haviam sido tão fracos. Por que a República não havia sido capaz de resistir ao movimento de massa totalitário nazista? Por que os partidos civis concordaram com a lei que instituiu Hitler em 1933?

Todos esses debates tinham um denominador comum: eram sobre a identidade dos alemães na República Federal. Era uma dolorosa reconciliação com essa história de ditadura, que não deixou de ter consequências para a vida mental. Entre os intelectuais, formou-se em muitos casos uma relação fraturada com seu país, eventualmente crescendo para um ódio-próprio alemão.

Na República Democrática Alemã, os comunistas -- apoiados pela potência vitoriosa, a União Soviética -- ditavam sua percepção histórica ideológica, justificando a constituição do socialismo. Os discursos históricos nos dois Estados alemães eram sobre a reivindicação de uma nova identidade alemã, democrática ou socialista. Debates históricos em nome do futuro. A vida continuava. Mas como? Essa era a questão.

Portanto, na Alemanha reunificada se originou uma cultura de memória de ambas as ditaduras, cada qual com seus próprios memoriais e monumentos. Estes servem como locais históricos contemporâneos de aprendizado e de apelo à proteção da liberdade.

No meio de Berlim ergue-se o memorial aos judeus assassinados na Europa, a curta distância do mausoléu soviético para os soldados do Exército Vermelho que perderam a vida na batalha por Berlim. A reconciliação com as duas ditaduras, a dos nazistas e a dos comunistas, percorreu um longo caminho, portanto. Mas o chamado à ação "Aufarbeitung jetzt!" ("Reconciliação já!") perde a validade porque o trabalho já está feito?

"A Geração Unificação Alemã tem de encontrar sua identidade."

Eu acredito que não; afinal, a "Geração Unificação Alemã" cresceu. Ela ainda está presa em um processo de determinação, certificando-se de sua responsabilidade pelo país. Por trás dessa geração está a divisão alemã em dois Estados, assim como a história das ditaduras e a das duas guerras mundiais. Essa geração não conhece nem a República Democrática Alemã nem a antiga República Federal por experiência própria.

A "Geração Unificação Alemã" também continua o caminho dos alemães que começou muito antes de seu nascimento, há mais de mil anos. A queda do Muro em 1989 não foi a experiência emocional "alemã" conjunta dessa geração; mais provavelmente foi a Copa do Mundo da Fifa de 2006.

Naquela época, como que por magia, jovens autoconfiantes segurando bandeiras alemãs apareceram para apoiar em público seu time: "Queremos que nosso time, o time alemão, seja campeão do mundo!" -- ignorando críticas que consideravam adequado advertir contra um novo nacionalismo. Foi uma demonstração surpreendente: a história da divisão ficou para trás.

Por causa disso, essa geração enfrenta outra "reconciliação": que parte da herança histórica alemã é importante para nós? O que nós queremos transmitir? Ao mesmo tempo, essa geração não tem problemas de informação. No universo da internet, a história alemã está presente em episódios, biografias e documentários. É uma oferta confusa de eras, personalidades históricas e eventos.

Diante disso, as aulas de história na escola foram sistematicamente desvalorizadas durante décadas, muitas carecem de orientação e capacidade para classificar fragmentos no curso da história. O fio da meada desses eventos muitas vezes está ausente -- e com isso a consciência da continuidade de sua própria história alemã, aquela em que esta geração nasceu e na qual seguirá.

A "Geração Unificação Alemã" será aquela que moldará o futuro econômico, cultural e político da Europa. Por responsabilidade por seus filhos e as sucessivas gerações, ela deve ter consciência de seu legado histórico. Isto se aplica em parte aos crimes das ditaduras, mas principalmente à manutenção de certas coisas: democracia, criatividade em tecnologia, ciência, cultura e o poderio econômico do país. A base de nossa prosperidade.

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