OPINIÃO
11/12/2015 19:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

Uma irmandade transsexual

Nada era capaz de atrapalhar nossa relação de irmãs. Éramos melhores amigas em quase tudo. Ela me enxergava diferentemente, não conseguia me enxergar realmente.

arquivo pessoal

Co-escrito com a minha irmã: Rachael Ball

Meus pais tiveram uma surpresa pequenina e linda: minha irmãzinha bebê que acabava de nascer. Seria maravilhoso ter outra menina com quem conversar e compartilhar meus segredos. Era alguém que com certeza me enxergaria, enxergaria quem eu verdadeiramente sou. Eu só podia sonhar que algum dia ela entendesse.

Tínhamos a maior intimidade, como irmão e irmã. Nas manhãs de sábado eu subia nas costas dele para assistirmos aos desenhos animados juntos, desde He-Man até Ursinhos Carinhosos. De vez em quando ele me fazia descer, mas eu só queria saber de ficar juntinho do irmão que tanto admirava.

Assistir aos desenhos na manhã de sábado sempre era uma curtição para nós, como para muitas crianças dos anos 1980. O fato de ter minha irmã junto me dava uma desculpa para ver todos os programas que as menininhas, como nós, geralmente gostávamos. Meu programa favorito era Rainbow Brite. Era totalmente coisa de garotinha.

Na hora do banho era uma guerra total, com vários brinquedinhos fazendo o papel dos soldados dos dois lados. Ele era um pouco malvado, vivia mudando as regras em seu favor. Se eu estava com m campo de força incrível, ele tinha o único aparelho para romper campos de força.

Nunca entendi porque minha irmã tinha aparência diferente da minha. Quando eu ainda estava no jardim de infância, nossos pais nos faziam tomar banho de banheira juntos, geralmente enquanto minha mãe lavava nosso cabelo. Mas eu ficava confusa, frustrada. Quando olhava para minha irmã, percebia que eu era diferente da maioria das meninas. Achava que talvez um dia aquela coisa fosse cair.

Escondidos debaixo de nossa fortaleza de cobertores, eu estava fascinada pelas sombras que o farolete de meu irmão projetava sobre a parede do quarto. Mexendo a mão diante da luz, ele criava um conto de fadas.

O gigante e seu amigo fora do comum, um balde mágico. Ouvindo-o fazer voz bobinha eu dava risada, esquecia meus medos, protegido por sua presença, e mergulhava no sono tranquilo.

Eu era uma criança um pouco medrosa. Não suportava ver minha irmãzinha assustada ou aflita -que irmã suportaria?

À medida que nossa relação se fortalecia, fui percebendo que eu era capaz de acalmá-la, contando histórias. Eu nunca lia livros para ela. Em lugar disso, preferia criar minhas próprias histórias sobre terras mágicas onde nada poderia nos fazer mal.

Ele sempre tinha as melhores ideias. Tivemos muitas aventuras no quintal de nossa casa. Uma área de grama muito alta, sem cortar, virava nossa selva, onde nos agachávamos usando nossos equipamentos de caça a insetos, feitos sob medida. Com ele ao meu lado, eu era capaz de enfrentar até insetos e outros bichos.

Ela está presente em todas minhas memórias de infância, pelo menos as importantes. Desde nossos safáris para caçar insetos até nossas aventuras empreendedoras com "Spookies", o cassino que criamos, com temática do Halloween.

Nada era capaz de atrapalhar nossa relação de irmãs. Éramos melhores amigas em quase tudo. Ela me enxergava diferentemente, não conseguia me enxergar realmente.

O verão significava férias. Ficávamos olhando a paisagem do campo passar pela janela. Horas e horas na estrada, que parecia interminável. Podíamos acampar sob as estrelas, nadar em piscinas de hotel ou visitar parentes - em todo lugar eu tinha meu irmão mais velho que fazia qualquer lugar parecer nossa casa.

Nos anos que passamos viajando na estrada tivemos muitas aventuras. Eu me deleitava por conseguir falar com a mesma voz de minha irmã, para desgosto de meus pais. A gente adormecia no banco de trás, uma em cima da outra.

Adolescente, em Las Vegas, criei coragem para comprar meu primeiro vestido. Tive que dá-lo para minha irmã quando minha mãe o encontrou.

A infância passou rápido demais; a minha chegou ao fim de repente. Com 16 anos, eu já estava grávida. Meu irmão pareceu me olhar com outros olhos naquele dia quando dei a notícia. Raramente eu o tinha visto chorar, mas ele chorou.

Enfrentei um desafio novo, assustada e com medo, mas meu irmão se alistou na Marinha e foi embora para muito longe. Eu queria segurá-lo perto de mim. Mas a vida tinha outros planos para nós dois.

Meses apenas antes da gravidez inesperada de minha irmã, eu sobrevivi a uma tentativa de suicídio. Eu não tinha coragem de viver, não tinha coragem de olhar na cara de meus pais, fazendo de conta que era seu filho homem. Meus pais não suportariam outro susto. Fiz a escolha de partir e fui para o Japão com a Marinha.

Me perdoe, irmãzinha, por ter deixado você na hora em que você mais precisou de mim.

Eu me acomodei na vida de casada e de mãe, enquanto ele foi conhecer o mundo. Anos se passaram e nos encontramos de novo na nossa casa de infância. Ficamos acordados até tarde, acampados na sala, e ele me contou o que tanto queria me dizer.

Ele era minha irmã mais velha e sempre tinha sido. Confusa, mas dando apoio, fiquei olhando-a experimentar suas roupas de mulher. E então percebi uma coisa: eu nunca tinha visto meu irmão tão verdadeiramente feliz, até ver que ele era ela.

Durante minhas viagens pelo mundo, nunca deixei de sonhar em ser eu mesma, em ser uma irmã mais velha. Muito tempo depois de sair da Marinha, um dia eu estava ali diante de minha irmã, nervosa, de vestido, apresentando a verdade de minha vida a ela. E então, como eu sempre esperei que acontecesse, ela me aceitou como irmã dela.

Olhando para ela ali, no leito do hospital, soltando alguns gemidos de dor, senti alívio e felicidade por compartilhar esse momento com ela. Ela renasceu. Agora todo o mundo a enxergaria. Como meu irmão, ela sempre me protegeu. Agora era eu que estava ali para segurar a mão dela. A irmã que eu sempre sonhei ter e que estava ali o tempo todo. Estou vendo você, mana, e você é incrível!

Ao longo de nossa vida, tudo o que sempre quis foi ser uma irmã mais velha. Quando me levaram na maca para fazer a cirurgia de confirmação de gênero, me senti reconfortada por saber que minha família estava ali.

Que, quando eu acordasse depois, minha irmã estaria ali para dar apoio a mim, sua irmã mais velha. Obrigada, mana, por me enxergar, me aceitar e me amar.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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