OPINIÃO
21/03/2014 17:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

São Paulo pode parar por falta de água

Para repor 50% da água dos reservatórios do Cantareira, especialistas calculam que serão necessárias chuvas de 17 mm por dia, durante 60 dias, ou 1 mil mm no acumulado. Caso contrário, a região enfrentará sério racionamento.

O Sistema Cantareira, responsável por 47% da água que abastece a Grande São Paulo, chegou a 14% da sua capacidade, bem abaixo do necessário para atender a demanda de milhões de pessoas, da industrial e do agronegócio nas Regiões Metropolitanas de São Paulo, Campinas e Piracicaba. Por falta de chuvas, alto consumo, poluição e desperdício não há água para todos e a sustentabilidade da região está ameaçada.

Se não chover nos próximos dias e a captação no Cantareira continuar nos volumes atuais, de 31 m³/s para a Grande São Paulo e 3 m³/s para o interior, a água dos reservatórios acabará em 80 dias, alertam os Comitês de Bacias Hidrográficas.

A disponibilidade de água na Região Metropolitana de São Paulo é de 200 mil litros/habitante/ano, o que representa 1/10 do valor indicado pela Organização das Nações Unidas (ONU), que considera a disputa por água entre a capital e a região de Campinas uma das mais graves crises por escassez hídrica do mundo.

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A outorga - autorização legal para a Sabesp captar água do Sistema Cantareira - vence em agosto. A renovação está em discussão na Agência Nacional de Águas (ANA) e no Departamento de Água e Energia do Estado de São Paulo (DAEE). Mas as audiências públicas devem ser adiadas em virtude da grave seca que deve acirrar o conflito. Organismos de bacias querem reduzir o volume da água concedido à capital para aumentar a disponibilidade no interior. As condicionantes para a outorga já viraram objeto de inquérito do Ministério Publico.

O Sistema Cantareira é essencial não apenas para o abastecimento público da Grande São Paulo, mas para o uso múltiplo da água nas regiões metropolitanas de Campinas, Piracicaba, Jundiaí, Sorocaba e Baixada Santista e algumas cidades de Minas Gerais.

Essa região tem uma população superior a 30,8 milhões de habitantes, o que corresponde a 75% do Estado e 180 municípios, e reúne importantes empreendimentos industriais, agrícolas e de serviços responsável por 83% do PIB Paulista ou 28% do PIB do país.

Segundo estudo estratégico encomendado há 8 anos pelo Governo de São Paulo ao DAEE, essa região, considerada a mais rica do Brasil, é um polo atrativo de desenvolvimento limitado pela baixa disponibilidade de água. Sua população consome 223 m³/s de água e, se crescer de acordo com as previsões para os anos de 2018 e 2035, precisará de mais 60 m³/s - o equivalente a mais dois Sistemas Cantareira.

A situação impõe um alerta aos municípios sobre a necessidade urgente de restrições de uso do solo e rigor no planejamento territorial. Mostra que é preciso proteger as Unidades de Conservação de Camanducaia, Jaguari, Fernão Dias, Cantareira, Japi, Cabreúva, Itapeti e o Parque Estadual da Serra do Mar que garantem a manutenção da água e recuperar as Áreas de Preservação Permanente.

É urgente combater o desperdício e a poluição dos rios. A média do desperdício na rede pública no país é de 40%. São Paulo reduziu as perdas a 25,7%, o que ainda é muito para uma região que não tem água.

O desperdício não está apenas no setor público, que tem sido o foco das atenções por conta da outorga do Cantareira. Segundo a ANA, a agricultura é responsável por 70% do consumo da água no país e é recordista de desperdício na irrigação. Embora seja uma região industrializada e urbanizada, a bacia do Paraná, que abriga essas regiões, conta com 1,8 milhão de hectares irrigados e os índices de desperdício passam de 60%. A indústria consome 7%, desperdiça menos e há anos paga pelo volume de água que capta. O cidadão é responsável por 10% do desperdício. Portanto, todos temos de saber o tamanho da nossa pegada hídrica.

O combate a vazamentos e "gatos" (captações clandestinas) deve ser permanente, como parte da estratégia para garantir a segurança hídrica e evitar o racionamento, assim como campanhas educativas e fiscalização.

A poluição impede o uso da água dos rios Tietê e Pinheiros até para fins menos nobres. E tratar esses rios como descarga é o pior dos desperdícios. Buscar água limpa em outras bacias é inviável. A captação na bacia do Ribeira, por meio do Sistema São Lourenço, executado por parceria público privada, custa R$ 340 milhões/m³/s. Sua capacidade máxima é de 4,7 m³/s, ao custo de R$ 1,6 bilhões e mais um Cantareira custaria R$ 5,7 bilhões nesses moldes.

Para repor 50% da água dos reservatórios do Cantareira, especialistas calculam que serão necessárias chuvas de 17 mm por dia, durante 60 dias, ou 1 mil mm no acumulado. Caso contrário, a região enfrentará sério racionamento. A água é vital para nossa sobrevivência e uma questão estratégica que precisa ser priorizada na agenda dos gestores públicos e da sociedade.