OPINIÃO
26/01/2017 18:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 18:14 -02

O jurista Ives Gandra e uma ideia equivocada sobre as mulheres e a família

E tudo isso é feito em prol de uma "família" que muitas vezes segregou, silenciou, torturou e vilipendiou. Vocês podem pensar em alguma coisa mais cruel? A inquisição, talvez. Acontece que não estamos mais na Idade Média. E não, queridos, não é lenda urbana. Acontece diariamente. Todos os dias recebemos estes pedidos de socorro e podemos exemplificar aqui, com um caso real que todos conhecem.

Marcos Correa / PR

Eu transito muito bem em todos os espaços, tenho amigos "esquerdopatas" e "direitopatas" que fazem parte da minha vida por desejo meu, simplesmente porque são meus amigos e porque gosto deles. Escuto o que todos tem a dizer. Às vezes concordo com uns, outras com outros e sigo minha vida sem sectarismo e sem preconceito, porque seria no mínimo uma incoerência lutar contra o preconceito fazendo uso dele na minha luta.

Amigos fazemos por afinidade e aos meus ou a maioria deles, sou unida pelos Direitos Humanos que é uma pauta que não passa por viés político ideológico nenhum já que diz respeito à vida , à dignidade e a integridade de todos os seres humanos. A maioria dos meus amigos é humanista sejam eles "coxinhas" ou "mortadelas". E dentro do direito e das ciências humanas se encontram a maioria deles.

No último fim de semana, participei de muitos eventos e vi nascer uma unanimidade: Ives Gandra Filho. Não interessa se defendem o estado mínimo ou máximo, se são conservadores econômicos ou não, se são socialistas ou capitalistas. Todos estão (me desculpem o termo) "embasbacados" com as notícias da possível indicação desta pessoa para um STF progressista.

Pelo viés dos Direitos Humanos o STF ainda é motivo de orgulho e é a última muralha de proteção dos minorizados e dos vulneráveis num País que não respeita a laicidade do Estado e que tem um legislativo corrompido e completamente desacreditado.

Com muito boa vontade, fui ler agora hoje de manhã os argumentos do tal jurista numa mídia sabidamente tendenciosa. Nenhuma novidade. Só reafirmou o que já sabíamos, que é um machista, homotransfóbico, que não respeita a laicidade do Estado, e que quer impor a todos suas crenças que deveriam ser de foro íntimo.

Quando diz que é a favor dos direitos dos homossexuais mas contra o casamento igualitário por exemplo, cai num poço sem fundo de contradição, já que está negando a pagadores de impostos que contribuem na construção deste País, mais de 80 direitos que vão desde o simples compartilhamento do plano de saúde até o regulamento da guarda de filhos ou o direito a herança. Ou pior ainda: o direito de acompanhar o cônjuge, que é muitas vezes o companheiro de toda uma vida, numa hospitalização, numa UTI, nos últimos momentos. No último suspiro.

E tudo isso é feito em prol de uma "família" que muitas vezes segregou, silenciou, torturou e vilipendiou. Vocês podem pensar em alguma coisa mais cruel? A inquisição, talvez. Acontece que não estamos mais na Idade Média. E não, queridos, não é lenda urbana. Acontece diariamente. Todos os dias recebemos estes pedidos de socorro e podemos exemplificar aqui, com um caso real que todos conhecem.

Cassia Eller, cuja companheira passou por quase tudo isso e quase perdeu a guarda do próprio filho. Quero, mulher que sou, lembrar ao jurista machista que 40% das famílias brasileiras são comandadas e sustentadas por mulheres e que o chamado "aborto masculino" é completamente legalizado neste País.

Os homens? Os tais chefes provedores? Sabe-se lá onde andam. Só sei que o patriarcado está com os dias contados. Amém. Eu... Quem sou eu na fila do pão? Sou só uma MÃE lutando pelos direitos do meu filho e como aprendi a ler, e a interpretar textos, numa época em que saíamos todos alfabetizados da escola, eu entendi bem o que diz o artigo quinto da Constituição.

Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, SEM DISTINÇÃO DE QUALQUER NATUREZA, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Sugiro despretenciosamente, já que nada sou, que o dito jurista releia o artigo quinto e talvez também o décimo nono de nossa Carta Magna. Nós, ativistas de Direitos Humanos lutamos inclusive pelo seu direito a crença, senhor jurista. Desde que esta sua crença e o que diz seu manual não se sobreponha ao direito do outro.

Constituição sim, Bíblia não.

Aqui tem a força de uma mãe que lhes diz: O Estado brasileiro é laico e meu filho não será privado de direitos. Não vai virar estatística e não vai ser levado ao sacrifício para reafirmar a crença pessoal de quem quer que seja e seja ela qual for. Gritarei até meu último suspiro pela vida, pela integridade física e moral e pelos direitos daquele que coloquei no mundo e que me foi confiado por meu Deus de misericórdia. E é esta a chama que me move. Somos família, sim e machistas, racistas e lgbtfóbicos não passarão.

Algumas frases de Ives Gandra Filho. Julguem por vocês mesmos :

"A mulher deve obedecer e ser submissa ao marido"

"O casamento entre dois homens ou duas mulheres é tão antinatural quanto uma mulher casar comum cachorro ou um homem com seu cavalo."

"Casais homoafetivos não devem ter os mesmos direitos dos heterossexuais, isso deturpa o conceito de família."

"O princípio da autoridade na família está ordenado de tal forma que os filhos obedeçam aos pais e a mulher ao marido"

"O uso de células-tronco embrionárias com fins terapêuticos representa nitidamente processo de canibalização do ser humano, incompatível com o estágio de civilização da sociedade moderna".

PS: Temer, tire Flávia Piovesan da manga. Indique uma jurista do século XXI à altura deste STF que está posto.

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