OPINIÃO
26/03/2014 09:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

<em>Ela</em>, o amor e a intolerância

Quem somos nós, afinal, para julgar como duas (ou mais) pessoas devem se amar? E quem somos nós para dizer que tal relacionamento funciona ou não - baseados em experiências que nunca vivemos?

Já faz mais de mês que assisti a Ela, de Spike Jonze, e ainda me pego pensando em momentos do filme. É nesses casos que sabemos quando algo tem impacto em nossas vidas, verdade? Tudo porque acredito que a relação dos dois personagens principais, interpretados por Joaquin Phoenix e Scarlett Johansson, é tão plausível e real que às vezes acabo transferindo parte daqueles episódios para minha vida pessoal.

Para quem ainda não viu - vejam! - a história é sobre Theodore, um homem amável e sociável que, após ser deixado pela antiga namorada, se sente solitário e decide buscar uma companhia inusitada. Anunciado como a grande revolução tecnológica da época - o filme é passado em um futuro não tão distante - ele compra um Sistema Operacional (Operational System, em inglês) com plena capacidade intelectual.

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Apesar da surpresa e incômodo iniciais de dividir a vida com um ser digital pensante, a OS - que se autobatiza de Samantha - demonstra ser sensível, crítica, com ótimo humor e bom senso. Tudo aquilo que, afinal, buscamos em uma pessoa real. E, embora não o seja, Samantha age como se fosse, e logo ela e Theodore iniciam uma relação íntima, especial e afetiva.

Claro que manter relacionamentos à distância não é fácil. Exige muita, muita paciência, compreensão, confiança (crises de ciúme nem pensar) e respeito (sempre). Às vezes, até deixar de fazer alguma coisa com os amigos para ficar online com o amado. A distância não muda o fato de que a relação precisa ser preservada e cuidada com todo o carinho.

Mas o interessante em Ela é que Theodore é pintado como um homem extremamente sensível e delicado - o que, na nossa cultura machista, seria motivo para chamá-lo de vários nomes pejorativos - mas que em momento algum é condenado ou ridicularizado por sua decisão. Talvez, no futuro, o tato, o cheiro e a presença física não sejam tão necessários para o sucesso de um romance, pois tudo depende do nosso entorno cultural e social.

No caso do filme, essa situação se encaixa com a realidade cada vez mais introspectiva da população. Na Grécia Antiga, por exemplo, o casamento significava a mudança não só do lar, mas da religião - a esposa passava a adotar os deuses da família do marido, abandonando os da infância. O casamento tinha uma função específica que, como diz Fustel de Coulanges, era "unindo dois seres no mesmo culto doméstico, dar origem a um terceiro, apto a perpetuar esse culto". O divórcio, tão condenado na Idade Média, era raro, mas aceito.

Ao contrário do que a nossa sociedade está cada vez mais predisposta a fazer, ninguém aponta o dedo e diz que aquilo é errado, simplesmente por ser uma forma de amor diferente. A intolerância, aqui, não existe. Existe, sim, o convívio pacífico com o outro. Quem somos nós, afinal, para julgar como duas (ou mais) pessoas devem se amar? E quem somos nós para dizer que tal relacionamento funciona ou não - baseados em experiências que nunca vivemos?

Hoje não só a religião não é mais necessária para um relacionamento como a forma com a qual se enxerga o amor tampouco é limitada. O poliamor - e a relação entre Theodore e Samantha - são sintomas de que as formas de amar evoluem com o ser humano. E se nós não temos a capacidade de enxergar isso, talvez no futuro tenhamos que nos entender com Darwin.