OPINIÃO
02/10/2014 14:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02

Reclamação dos outros é sempre mimimi? Tem algo errado

sezer66 via Getty Images

Há coisas que permanecem apesar de todas as mudanças do mundo. Em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis diz que "suporta-se com paciência a cólica do próximo". Basta abrir qualquer rede social para perceber que a evolução da ciência e da tecnologia não matou essa característica da nossa alma.

Pautamos as discussões dos que importam. Manifestações favoráveis e contrárias não saem daquela pauta dos problemas que conhecemos e nos atingem. As dores que não nos afetam, ainda que sejam do amigo ao lado ou da maioria esmagadora das pessoas, na maioria das vezes não importam, não merecem menção, ou são chamadas de mimimi. A dor do outro é suportável, o problema do outro tem solução fácil, a reclamação do outro é bobagem.

Confúcio dizia que "para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade". Quem passou pela experiência sabe que os séculos não tiram a validade da constatação. A partir do momento em que se adquire problemas novos e não se tem mais os mesmos meios de solução ou de aproveitar a vida, muda o círculo de amizades.

Há um mar de pessoas que se aglomeram apenas por identidade absoluta e não cogitam mudar nada, nem atitude, nem opinião, nem rotina, para aliviar uma dor que não lhes atinge. Valorizamos a vitória, o sucesso, a competição. São poucas as pessoas capazes de atrasar um passo no próprio caminho para estender a mão a quem precisa levantar.

Mas muito do que emociona emociona mães e pais, constatei numa grata surpresa deste post do "Pop Sugar Moms", é quando os filhos reconhecem a dor do outro ou são capazes de atos gratuitos de generosidade. Aí tem de tudo, mas esses me chamaram a atenção:

Andrea Marchand Wight

Minha filha voltou do último dia de aula no jardim de infância com um presente. Era um cartão de um menino da classe dela, com necessidades especiais. Assinado pela família dele e pelos funcionários da escola, a agradecia por ter sido tão boa amiga e ter ajudado naquele ano. Quando eu perguntei à minha filha sobre isso, ela disse que ficou amiga dele porque viu que ele não tinha com quem brincar e tinha dificuldades para andar, então ela sempre sentava ao lado dele e dava as mãos quando ele queria caminhar.

Ashley Bova

Meu filho tinha 3 anos quando viu na TV que a casa de uma família com várias crianças pegou fogo. Ele saiu correndo para o quarto. Fui ver o que estava acontecendo e ele disse que ia dividir seus brinquedos com as crianças que não tinham mais nenhum.

Rae Cann

Minha filha de 3 anos imediatamente deu seu balão de gás a um garotinho quando viu que ele estava triste porque a mãe dele disse que não iria comprar um.

Jessica Lynn Poljanac

Dorothy (7) queria brincar de boneca e perguntou se eu podia. Eu disse que sim, mas ela teria de esperar até que eu acabasse de lavar a louça. O irmão, Dominic (9), disse "eu vou, mamãe. estou cansado dos meus legos". Ela ficou tão contente que quase chorou quando disse obrigado a ele por brincar com ela. Eu olhei justo a tempo de ouvi-lo dizer "eu sempre estarei aqui quando você precisar de alguém".

Desiree Die-Morales

Quando meu filho tinha 15 anos ele viu um senhor idoso empurrando seu carro que havia quebrado no meio do trânsito. Ele me fez parar para que pudesse sair e ajudá-lo.

Ronda Snow Jones

Quando nosso filho serviu no Iraque em 2008, aos 19 anos, falando por mensagens, ele disse: "Você fez uma garotinha sorrir hoje." Eu perguntei como e ele disse: "Lembra que você me mandou caramelos? Eu dei um para uma menininha hoje e ela retribuiu com o sorriso mais lindo.

Os relatos trazem, obviamente, a ação generosa dos filhos. Mas são também a comprovação de que essas pessoas valorizam este tipo de atitude. É emblemático ver a mãe de um soldado não citar as condecorações ou feitos de batalha do filho, mas o fato de ele ter dividido o doce que ela fez em casa com uma menininha que vive a dureza da guerra.

Vivemos essa onda de sentir a obrigação de opinar sobre tudo, a ilusão de que a pessoa é apenas a opinião e seu papel no mundo é a forma como discursa. Não é, o papel de cada um é a forma como age. Importa muito pouco aquilo em que as pessoas dizem acreditar, o significativo é como se comportam, isso mostra em que acreditam ou não.

Compreender a dor do outro como tão legítima quanto a nossa é o mínimo necessário para alguém dizer que realmente convive em sociedade e tenta fazer algo de positivo da vida. Um passo além é ser capaz de atos genuínos de generosidade, ainda que nas pequenas coisas da vida. Não acredito que nada disso seja dom, é um exercício - que poderia muito bem estar na moda.

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