OPINIÃO
05/08/2014 13:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Que tal apoiar DE VERDADE a amamentação?

Amamentar não é fácil, é difícil e ninguém explica. A gente não aprendeu desde criança como faz, presencia muito pouco e, até pegar o jeito, pode ser um troço frustrante num período muito delicado.

KidStock via Getty Images

Aprendi, por experiência profissional, que o sucesso de campanhas de comunicação para mudança de comportamento podem ter inúmeros fatores, mas há dois essenciais: informação e sinceridade. Infelizmente, nesse campo, temos tido muito mais fofura e idealização do que os dois fatores que efetivamente mudariam alguma coisa.

Eu acho as campanhas todas muito lindas e tive todas as informações a respeito de amamentação que se possa imaginar, mas isso não tornou a minha vida mais fácil. O grande nó é propor soluções impossíveis.

A gente ouve que: "amamentar é um ato de amor", "o leite materno é o melhor alimento para o bebê" ou "a amamentação fortalece o vínculo entre a mãe e o filho". O foco é informar que leite materno é melhor que leite industrializado. Sabe há quanto tempo as mães brasileiras já sabem disso? 40 anos!

Pois é, uma espiadinha nas estatísticas mostraria a realidade. O auge da amamentação artificial foi entre as décadas de 1950 e 1960, quando realmente se acreditava existir uma alimentação melhor para o bebê. Ninguém mais acredita nisso, as estatísticas mostram que as mães só recorrem ao leite artificial em último caso.

Acredito que, em vez de fazer campanhas para conscientizar as nossas mães, que não vão amamentar mais ninguém, a gente podia fazer campanhas para quem tem filho e vive na sociedade de hoje.

Não adianta jogar na mãe e na ideia da qualidade do leite todo o peso. Infelizmente, a decisão de amamentar não passa por aí. É uma loucura a gente ver o Ministério da Saúde falar em amamentação exclusiva até os 6 meses quando as licenças duram 4 meses e depois você tem direito a dois intervalos de meia hora por dia para isso. Sinceramente, dá para suprir toda a amamentação nesse intervalo?

Outra questão é exigir que todos participem. Sabia que poucas creches têm meios para armazenar leite materno e que nenhuma tem essa obrigação? Que as mães das regiões urbanas do Sudeste têm mais dificuldades para amamentar no peito do que aquelas da zona rural porque a rotina de trabalho a que são submetidas não permite (mais dados neste artigo)?

Esses são dados básicos e objetivos e que dependem de mudanças importantes na legislação, mas há aquela coisa corriqueira do dia-a-dia, em que a gente pode interferir sem ter de fazer muito esforço: a tolerância com a mãe que amamenta.

Quando a gente resolve amamentar em público, encontra um percentual pequeno de pessoas que vêem nesse ato um bebê comendo e uma relação poética entre mãe e filho. O que mais se encontra é quem vê um peito de fora, cara que fica olhando como se a mãe estivesse se masturbando na frente dele e gente que tem nojo.

Não há dados sobre isso, falo da minha própria experiência. Quando meu filho tinha 2 meses, resolvi amamentar num restaurante badalado na hora do almoço. O assédio incomodou tanto que a minha irmã veio me cobrir com um pano e ainda havia tarados que continuavam olhando para mim como se fosse um filme pornô, mesmo com o pano em cima.

Amamentar não é fácil, é difícil e ninguém explica. A gente não aprendeu desde criança como faz, presencia muito pouco e, até pegar o jeito, pode ser um troço frustrante num período muito delicado do ponto de vista psicológico. O apoio de quem está em volta é fundamental. Rapidinho a gente consegue, mas ninguém conta isso, que é uma fase de dificuldade.

Na vida real, você vai encontrar gente que vem dar sermão assim que você saca uma mamadeira da bolsa e quem olha feio quando você amamenta no peito. Que tal se toda essa energia negativa fosse convertida para uma atitude positiva com relação às mães?

A gente poderia, por exemplo, fazer a censura pública ao cara que olha babando para a mãe com peito de fora ou à mulher que faz cara de nojo e comentários maldosos quando vê outra amamentando. Esses tomam pito de vez em nunca, enquanto a mãe toma pito toda vez que saca o peito ou a mamadeira, não importa onde.

Sou a favor também daquelas pequenas gentilezas urbanas. Pagar um café para a mãe que amamenta, oferecer o lugar ou uma ajuda. No dia-a-dia com um bebê, às vezes a gente precisa só de um sorriso ou uma gentileza para não desabar.

Desfiar um rosário de crenças sobre amamentação pode ser muito bom para aumentar a auto-estima de quem quer ser um conhecedor ou defensor da causa, mas ajuda muito pouco a fazer com que ela vire um direito de todo bebê e toda mãe. Esse tipo de coisa só se torna realidade com ação e solidariedade, coisa de que todo ser humano deveria ser capaz. O melhor é que dá para começar agora mesmo.

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