OPINIÃO
13/09/2014 18:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:03 -02

É possível salvar as crianças do chorume da internet?

Vez ou outra surge por aí a notícia de que alguém importante proíbe os filhos de ver televisão, usar internet, ter redes sociais. Dependendo do caso, pode haver razão ou não.

Slobodan Vasic via Getty Images

Eu tive a sorte de ser da última geração que atravessou a adolescência e a fase de adulto jovem sem redes sociais na internet. Não que as coisas fossem mais fáceis, eram mais difíceis mesmo. Quando a internet começou, a gente encontrava as pessoas e trocava endereços de emails no papelzinho para perder em seguida. Ficávamos dias na fila do Fotolog para criar uma conta que só se podia ver do computador de casa e postar uma foto por dia.

Não creio, sinceramente, que fôssemos muito diferentes do que se vê hoje, molecada é basicamente molecada em qualquer tempo e lugar. A diferença é que os escorregões ficam documentados e a falsa impressão de distância dá coragem para as pessoas revelarem seu pior, algo a que é difícil se acostumar.

Em época de campanha política a gente vê a tendência de utilizar o ódio como instrumento de argumentação e a lógica binária como regente do mundo: se não é rigorosamente a favor de algo, faz alguma ponderação, logo é contra e inimigo mortal. Aliás, pouco importa o que a pessoa disse de verdade, vale o enquadramento nessa lógica de clássico de futebol.

A falta de tempo ou o excesso de necessidade de opinar sobre tudo fazem com que o estilo de argumento mais rasteiro vire regra. Não gostou de algo, basicamente não gostou dos primeiros 50 caracteres de algo, desqualifica a pessoa. Mas isso é pouco para a internet, desqualifica também a família dela, todos os descendentes, todos os ancestrais, o vizinho, o cachorro, o papagaio.

Tem também as duas ferramentas clássicas do discurso que não leva a outro lugar senão a ofensa. A pessoa discorda sem ler (às vezes até concorda mas não leu tudo) e diz que o autor do texto só faz tal afirmação porque isso não é com a família dele e, em seguida dispara o clássico: e se fosse com a sua mãe/pai/irmão/filho/gato/periquito? A outra é a ressalva para falar as maiores barbaridades, o tal do "eu não tenho preconceito porque até tenho vários amigos que são (qualquer coisa), mas..." O tal do mas é fatal.

A substituição de premissas, anulando ou generalizando fatos, estratégia de discurso que cria uma realidade paralela, virou lugar comum. Por exemplo, quando eu estava em Angola, me mandaram um vídeo de uma - uminha mesmo, só uma - moradora de Higienópolis criticando o metrô porque traria "gente diferenciada" ao bairro dela. Esses dias li no jornal que "os moradores de Higienópolis" fizeram isso, o bairro todo. As pessoas parecem aceitar como real.

São apenas constatações, armadilhas nas quais eu própria caí, mas minha reflexão é que, quando chega a nós a grande oportunidade de ter mais comunicação, constatamos que nos comunicamos menos. O preconceito, o ódio e o medo do diferente talvez neste momento se mostrem de maneira mais exuberante que a infinita possibilidade de conhecer diferentes pontos de vista e aprender com eles.

Vez ou outra surge por aí a notícia de que alguém importante proíbe os filhos de ver televisão, usar internet, ter redes sociais. Dependendo do caso, pode haver razão ou não. Eu fiz a opção de regras rígidas em casa, mas não tenho vocação para a proibição total dessas coisas que fazem parte do nosso tempo, são ferramentas comuns a todos.

Penso muito que chegará o momento em que o acesso pleno a todas essas maravilhas que a tecnologia nos deu será inevitável. E aí vem a minha dúvida: como ajudar uma criança que nasceu num mundo que já tem tudo isso a utilizar da melhor maneira possível? A verdade é que nós, adultos, não fazemos isso e o que há de pior na alma humana é despejado nas nossas timelines, das quais nos alimentamos diariamente.

Talvez a geração deles seja diferente da nossa. Outro dia expliquei ao meu filho de 3 anos que, quando eu era criança, a gente precisava ficar esperando o desenho passar na televisão, não podia colocar o desenho que quer na hora que quer. Também contei como era a coisa de tirar e revelar fotos e que não tinha celular, não podia mandar mensagem nem foto pelo telefone. Ele me olhou com pena: "coitadinha de você, mamãe, me dá um abraço."

Pode ser que essa coisa de enfiar os pés pelas mãos seja porque ficamos plugados o tempo todo mas a nossa cabeça ainda é aquela de quem faz caderno de perguntas, joga stop, grita com uma televisão que não responde de volta e tem a sensação de que pode se perder no mundo sem deixar rastro.

Proibir uma criança de ter acesso a isso ou aquilo é necessário em muitos momentos, mas é comodismo pensar que seria a única ferramenta ou a mais eficiente para livrar uma alma da contaminação do chorume de debate que tenta nos inundar diariamente. Talvez esse seja um daqueles momentos em que a única solução é a gente tomar jeito.

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