OPINIÃO
20/02/2015 17:53 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Licença-paternidade: blasfêmia ou tabu?

Se a licença-paternidade é de 5 dias, nossa sociedade objetivamente considera que não há nenhuma necessidade de pais cuidarem dos próprios filhos. Conheço heróis da resistência que juntam férias, folgas acumuladas e conseguem entrar um pouco no universo da família, mas não é a regra.

sturti via Getty Images

O Brasil é um país que gosta de conversar por frases feitas, talvez por isso que a gente lacre o twitter e faça um excelente jornalismo declaratório. Ganhou destaque na imprensa a opinião do deputado Jair Bolsonaro sobre licença-maternidade (virou especialista nisso também?), mas ninguém nem falou do artigo da revista Fortune sobre o tema que insistimos em evitar: "Quer criar mais mulheres líderes? Ofereça licença-paternidade".

Vivemos numa sociedade igualitária em que pai capaz de cuidar do próprio filho sem auxílio de uma babá é sério candidato à beatificação e, se souber trocar fralda de cocô ou pentear cabelo de menina, fura a linha da canonização imediatamente. Existem infinitos fatores que levam a esse fenômeno e atribuir exclusivamente ao comportamento masculino é tão cômodo quanto falso.

Há um aspecto prático importante: se a licença-paternidade é de 5 dias, nossa sociedade objetivamente considera que não há nenhuma necessidade de pais cuidarem dos próprios filhos. Conheço heróis da resistência que juntam férias, folgas acumuladas e conseguem entrar um pouco no universo da família, mas não é a regra.

Enquanto engatamos a frase feita "a família em primeiro lugar", fazemos um esforço contínuo para tornar o homem um estrangeiro na própria família e acabamos distorcendo a igualdade no mercado de trabalho. Segundo a Fortune, para cada mês de licença-paternidade oferecido, o salário das mulheres tem aumento de 7%.

Faço questão de dizer novamente que é A FORTUNE norte-americana, a tal bíblia econômica, não um semanário feminista.

A relação dos Estados Unidos com licenças-parentalidade é o oposto da nossa. Aqui há período regulamentado por lei, vozes na economia dizendo que isso é um absurdo e falando também que "a família em primeiro lugar". Lá não há esse direito legal, regulamentar a licença-maternidade é prioridade para o presidente Barack Obama e Kirsten Gillibrand tem um projeto em que seria para homens e mulheres.

Só que já há empresas norte-americanas que oferecem licença-maternidade e licença-paternidade, principalmente no Silicon Valley. Os pais, veja que coisa, são até mesmo considerados membros da própria família, com direito inclusive a chá-de-bebê. Nessa empresas, "Os homens estão muito bem com isso, é 'cool' tirar a licença-parternidade", diz a Fortune.

O Google dá 12 semanas de licença-paternidade, Facebook e Reddit dão 17. A Change.org recentemente mudou sua política para 18 semanas de licença parentalidade, para homens e mulheres, que tenham filhos biológicos ou adotivos. Gente, eles vão quebrar? Não, não é o que parece.

Falar nisso aqui no Brasil parece tão absurdo que não se leva adiante nem quando é a Fortune que levanta o tema. Sobre a razão para tanta resistência, só tenho perguntas.

As empresas brasileiras enfrentam mudanças mais rápidas que as do Silicon Valley? Têm interface com consumidor maior que essas empresas com bilhões de clientes? Conseguem lucrar mais que elas porque não dão licença-paternidade? Têm um padrão de produtividade e excelência maior porque os homens não se afastam? Convivem com uma diversidade maior de necessidades e culturas familiares? Precisam de funcionários mais especializados e, talvez, imprescindíveis? Se a resposta para a maioria das perguntas for realmente não, como eu imagino, a discussão não se abre porque não e ponto.

Países escandinavos descobriram há décadas que o equilíbrio da sociedade, família e mercado de trabalho, depende principalmente de não promover o desequilíbrio e uma peça importante nesse jogo é a licença-paternidade. Não haverá igualdade enquanto, por força de lei, despejamos em cima das mulheres toda a responsabilidade pelo cuidado das futuras gerações e impedimos os homens de participar do processo.

Se "a família vem em primeiro lugar", o que é mais importante que ela? Dividendos? Não é possível que a gente passe a vida toda admirando a prática de vomitar discursos lindos e agir no sentido oposto. Licença-paternidade não é blasfêmia, é uma discussão necessária.

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