OPINIÃO
05/03/2015 14:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Filho não é pet: lições da mãe do Bolsonaro e da mãe das chineladas

Os dois casos ensinam na prática que pessoas são complexas e não é possível seguir aqueles lindos ensinamentos sobre como fazer tudo dar certo desde o planejamento da existência de um ser humano até o funeral. Seria ótimo se as receitas prontas que fazem sucesso na internet tivessem algum respaldo na realidade, a vida seria muito mais fácil.

jannabantan

Filho é ser humano. Não é uma frase óbvia. Se você tem um desses em casa, sabe que a bravataria de classe-média-alta da maternidade cibernética não se aplica a seres humanos e não deveria se aplicar, especialmente, a pessoas que amamos: elas não são um "pet".

A dependência do elogio e reconhecimento nas redes sociais leva ao fenômeno da maternidade/paternidade troféu, algo parecido com competição de adestramento de cachorro. Isso não é amor.

São inúmeros os exemplos de pessoas bem intencionadas que se vangloriam da mudança operada em um filho que era considerado um lixo ou de feito aquela tela humana em branco se tornar uma pintura irretocável. As atitudes dessas pessoas são realmente louváveis, não há como negar. Mas é perverso expor a fragilidade de quem se ama para receber elogios. Isso não é amor, mesmo vindo de quem ama.

Mais perversa ainda é a lógica da culpabilização dos posts simplistas e rasos, do eduque seu filho para isso ou para aquilo, como se fosse realmente algo possível com seres humanos. Lembra das tais regras da mesada? Não beneficiam filho nenhum, mas fazem os pais quebrarem a internet. Isso é vaidade, não é amor.

Cabe às mães e pais fazerem o melhor pelos filhos e darem o máximo de oportunidades que puderem, mas é cômodo e simplista acreditar numa lógica cartesiana de causa e efeito, o que pode gerar muitos likes nas redes sociais mas é facilmente desmentido pela realidade. Estão aí para nos provar Jair Bolsonaro e o menino da chinelada.

Cito um trecho curtinho do golaço da Revista Crescer entrevistando a mãe de Jair Bolsonaro, uma desconhecida senhora citada à exaustão pela gente vanguardista que frequenta redes sociais:

"CRESCER: Dona Olinda, como a senhora criou o Jair?

Olinda Bonturi Bolsonaro: Com amor, muito amor. Não queria que fosse uma criança estúpida, bruta, falasse besteira."

Maior ainda é a lição de Carol Latalisa, a mãe que deu as chineladas no filho responsável por espalhar um vídeo íntimo com a namorada. É tão fácil julgar, mas deve ser a coisa mais assustadora do mundo estar no lugar dela. Uma coisa que eu desejo é jamais ter de passar por isso.

A gente sabe uma coisa sobre essa mãe: não criou o filho para ser um machistinha que expõe a namorada. Mas ela também nunca quis ser a responsável por transformar o próprio filho num alvo da hidrofobia dos vanguardistas de redes sociais. Se diz arrependida, tuitou "a minha vida acabou."

Os dois casos ensinam na prática que pessoas são complexas e não é possível seguir aqueles lindos ensinamentos sobre como fazer tudo dar certo desde o planejamento da existência de um ser humano até o funeral. Seria ótimo se as receitas prontas que fazem sucesso na internet tivessem algum respaldo na realidade, a vida seria muito mais fácil.

Não nego minha satisfação quando meu cachorro, Pablo, vira-latas doente e abandonado, se torna o símbolo da minha capacidade de compaixão e do sucesso da minha dedicação. De bicho magro de mostrar as costelas, virou um cachorro esteticamente lindo que todo mundo pergunta de que raça é.

Medroso e impulsivo, incapaz de se comunicar com humanos, virou companheiro, condescendente com crianças e capaz de vigiar a casa e atacar apenas quando recebe o comando. Obedece comandos básicos e faz gracinhas, como o high five. Ainda é impulsivo com outros cães mas, se receber meu comando, é capaz de olhar sem tocar sua comida preferida.

É preciso ter muita clareza da diferença entre o Pablo e um filho. Pablo é um "pet" cujo comportamento é resultado direto da ação humana e que não guarda ressentimento quando eu conto que ele era um bicho feio, sujo e rejeitado. Humanos são diferentes e crianças são humanos.

O maior desafio de criar filhos é entender que a vida não é uma matemática perfeita e não se pode usar outro ser humano como troféu ou projeto de vida. A complexidade da alma humana não cabe no amadorismo das receitas de bolo para criar gente perfeita.

LEIA TAMBÉM::

Mãe, a culpa é sua