OPINIÃO
08/07/2014 10:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Família em primeiro lugar? Aham, Claudia, senta lá.

Se aceitamos um esquema de trabalho do tipo máquina de moer gente, em que o sinônimo maior de produtividade é chegar num lugar a tal hora e sair muito tempo depois, é cínico demais querer dizer que a família está em primeiro lugar. Não está.

Maartje van Caspel via Getty Images

Se alguém resolver fazer a conta de quantas pessoas, instituições, empresas e partidos políticos pregam "a família em primeiro lugar" aqui no Brasil, vai ter de dedicar a vida a isso. A priorização absoluta da família é, sem dúvida, uma realidade no discurso.

Mas você já tentou priorizar a sua família? Digo, de verdade. Não aquela máxima de quem nem vê a família porque "está trabalhando para dar o melhor a eles". A prioridade da pessoa que é parte de uma família, que gosta do convívio e é imprescindível no dia-a-dia.

Vou dar um exemplo muito legal: sabia que Michelle Obama levou a filha de 4 meses a uma entrevista de emprego? Sério, leia aqui neste link. O marido ainda não era Presidente dos Estados Unidos e ela estava amamentando e não tinha babá. Resumo da ópera: ela virou vice-presidente do hospital em Chicago.

Qual a chance de isso acontecer na sua vida? E falo dos dois lados da moeda, tanto de conseguir o emprego quanto de dar o emprego nessas condições. Michelle Obama, de bebê a tiracolo, disse que priorizava a família, mas faria o trabalho, precisava só de flexibilidade. Ela realmente fez o trabalho e se diz grata até hoje pelo apoio que deram a ela.

No mesmo evento, o presidente Barack Obama disse que a grande maioria das pessoas não tem como colocar a família em primeiro lugar na prática, já que não é possível negociar. Sair para ver a peça infantil da escola de um filho ou levar a mãe ao médico, por exemplo, causaria a perda do sustento da família.

O outro lado da moeda, esse mais fácil de a gente acreditar que existe, infelizmente, é o de Shanesha Taylor, que está sendo processada no Arizona porque deixou os dois filhos, um com 2 anos e outro com 6 meses de idade, no carro enquanto estava numa entrevista de emprego. Sim, esse dilema é mais fácil de visualizar: deixo na rua ou no carro? Levar na entrevista jamais.

Aqui no Brasil, 85% das empresas dizem que a maior parte das mulheres não volta ao trabalho depois da licença-maternidade. É bem acima da taxa mundial, de 52% de empresas com este problema. A pesquisa é meio antiga, mas vale a pena ler ou reler.

Segundo a consultoria de recursos humanos Robert Half, os empresários brasileiros acham que o maior atrativo para manter as mães no quadro de funcionários é plano médico e odontológico (oi????). Os outros atrativos, que fazem algum sentido, trabalho remoto e horários flexíveis, são realidade em apenas 31% das empresas - a média mundial é de 68%.

Se aceitamos um esquema de trabalho do tipo máquina de moer gente, em que o sinônimo maior de produtividade é chegar num lugar a tal hora e sair muito tempo depois, é cínico demais querer dizer que a família está em primeiro lugar. Não está.

Família não é um troféu para exibir em eventos nem um banco onde se investe o dinheiro ganho em uma vida individualista. Não é possível imaginar que pessoas incapazes de ouvir o próprio coração ou de viver a dimensão sentimental da vida possam se dedicar integralmente a qualquer tipo de trabalho.

Nossas empresas não são mais produtivas do que as dos países que permitem flexibilidade. Aqui pouco se discute o presenteísmo: quando a pessoa vai ao trabalho, passa longas horas, cumpre o horário, mas faz tudo isso só de corpo presente. Vivemos ainda o conceito de criadagem, não de profissionalismo, e é duro para muita gente enxergar a diferença.

A maioria das mães e muitos dos pais já enfrentaram o dilema do compromisso com os filhos e a exigência de presença do trabalho. Em boa parte das vezes dá para rebolar, mas em algumas não.

Eu já briguei muito por causa dessa história e já fiz coisas como deixar meu filho de meses no colo do meu chefe enquanto terminava um relatório. Nesses 3 anos concluí que é muito mais fácil encontrar uma pessoa que tenha compreensão e consideração humana com as mães do que esperar respeito a normas corporativas ou bom senso.

Quando a gente tem a felicidade de ser subordinado a alguém que sabe as tarefas de que precisa e entende que ganha ao ter um ser humano completo, 100% focado no trabalho a fazer, está no paraíso. Essas pessoas têm a coragem de existir, pena que não são valorizadas como deveriam.

E, para quem não entendeu o "Aham, Claudia, senta lá", o vídeo original. Pensa que a Xuxa é a empresa e você, Claudia, está tentando dizer que tem uma emergência familiar. Família em primeiro lugar? Aham, Claudia, senta lá.

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