OPINIÃO
16/01/2015 19:11 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

Em terra de sinhazinhas, parto normal é para poucas

Idealizar o parto também é um sonho que se realiza com dinheiro, mas muito difícil em escala num sistema público.

Não creio que exista disposição para um debate amplo e verdadeiro sobre parto normal no Brasil, isso significa sair do camarote, dar tchau para a pulseirinha de área vip do parto e abandonar a soberba. Parto normal é para pessoas normais, mas quem quer ser normal?

Chamou muito a minha atenção a ótima reportagem da Rádio França Internacional com uma ginecologista brasileira que trabalha em Paris: "Veja por que a França tem um dos menores índices de cesáreas da Europa".

Ela traz muitos pontos que ficam claros no choque cultural relatado pela jornalista Pamela Druckerman no livro "Bringing Up Bébé: One American Mother Discovers the Wisdom of French Parenting".

Vinda dos Estados Unidos, império do consumo e origem da maioria das modinhas consumistas de parto, pós-parto, pré-parto, puerpério, infância e vida adulta que pegam com força aqui, ela acha interessante a ideia de um sistema igual para todas, sem pulseirinha vip.

Há um debate legítimo e acalorado nas redes sociais sobre o que as mais ricas pagaram para realizar no próprio parto. Mas defender o melhor parto para todas as mulheres é algo bem diferente.

É contra o parto normal como regra toda pessoa que utilize expressões como "meu médico", "minha GO", "minha doula". Um sistema de saúde em que a mesma pessoa atende no consultório e precisa atender todos os partos não agendados de todas as pacientes em todos os lugares não tem como funcionar. Fazer parte dele é defender parto agendado para a maioria.

Há senhorinhas de engenho bradando nas redes sociais "agora bagunçou a agenda dele", falando dos médicos. Foi difícil engolir que empregadas domésticas e babás não trabalham 24 horas diárias, não seria diferente com outros profissionais só porque eles têm diploma.

Sinhazinha pode querer, mas é irracional exigir que doutor fulano esteja à disposição dela o tempo todo, é preciso ter equipes eficientes em sistema de plantão, o único jeito de realmente tornar rotina os partos não agendados.

Idealizar o parto também é um sonho que se realiza com dinheiro, mas muito difícil em escala num sistema público. No livro de Pamela Druckerman ela conta a história de uma americana que, ao apresentar seu plano de parto ao médico francês, ouviu: "Aqui não é zoológico nem circo. Basicamente, você terá o seu parto como todas as outras. E a razão é que, se houver um problema, eu tenho como fazer algo."

É uma declaração dura, mas leva em conta que parto normal só vira regra com pensamento coletivo. Na França, os plantonistas supervisionam os partos, casos que já estudaram previamente, e a condução é feita pelas sage-femmes, enfermeiras obstétricas do plantão. Só funciona bem para todas se todas aceitarem ser pacientes normais. No caso do livro, aliás, a moça teve complicações.

Na França, a mulher tem, ao longo do pré-natal, todas as informações disponíveis para que tome decisões sobre o parto e é dada a oportunidade de participar, mas a decisão final é médica e se entende que muitas vezes as expectativas da parturiente são vistas de outra maneira por especialistas que fazem partos diariamente.

É decidida assim, por exemplo, a analgesia, polêmica entre as ricas e luxo entre as pobres, já que o SUS não garante anestesia em todos os partos normais nem se a gestante solicitar ou precisar, é apenas para cesáreas.

Todo mundo já sabe que parto normal é melhor, cesárea é só para emergência e vivemos um sistema que força cesáreas. O debate não é o tipo de parto, é sobre o quanto estamos dispostos a abrir mão de um sistema de parto vip.

O luxo de exigir um profissional específico no parto e fazer demandas que não têm justificativa de necessidade ou saúde já é garantido para quem paga e não tem nada de errado, é um direito usar o próprio dinheiro para se proteger dos problemas do sistema de saúde.

Mas isso não ajuda em nada a garantir mais partos normais nem mais partos saudáveis, pelo contrário, é essa lógica que consagrou os cesaristas.