OPINIÃO
18/08/2014 10:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02

Como não cortar as asas de uma criança que pode voar

Quando meu filho ficou empolgado para ir à festa de Dia dos Pais da escola mesmo sem ter um na certidão de nascimento eu não sabia o que fazer. Ele pulava pela sala todo feliz que vai homenagear a madrinha.

Andrew Rich via Getty Images

Quando meu filho ficou empolgado para ir à festa de Dia dos Pais da escola mesmo sem ter um na certidão de nascimento eu não sabia o que fazer. Ele pulava pela sala todo feliz que vai homenagear a madrinha.

Toda a minha preparação para que ele lidasse com a situação da melhor maneira possível era desnecessária, e talvez faltasse a mim o preparo para conviver diariamente com uma pessoa que vê a vida pelo brilho nos próprios olhos, não por circunstâncias desfavoráveis.

Tendemos a enxergar a vida pelo que nos abate ou poderia ter abatido, só que isso não está tatuado na testa de ninguém, a gente não sabe a dor que vai dentro do mesmo peito que solta uma gargalhada. E meu filho, do alto de seus 3 anos de idade, me ensinou a ver o que estava na cara: nenhuma pessoa se define por tragédias pessoais, mas pelas razões que a levam a seguir em frente e pela forma como faz isso.

A vida é um seguir em frente. A cada obstáculo que se impõe sobre nós, encontramos uma forma de saltar ou contornar. A nossa identidade é essa ação, não o obstáculo. Transpor isso para a vida de um filho, uma vida pela qual a gente se sente responsável mas só o é realmente em determinadas circunstâncias, acaba sendo um aprendizado contínuo.

Nossa tendência natural é assumir a responsabilidade pela adversidade, quer seja pelo sentimento de culpa que toma o corpo a partir do momento da fecundação ou pelas inúmeras tentativas de impor a culpa a pais e mães, bombardeadas de todos os lados.

Uma mãe solteira pode escolher se apegar às próprias dores ou ao que eu aprendi recentemente serem os "amigos de Jó", os que são amigos porque estão presentes mas cuja presença tem o objetivo de jogar na sua cara todos os erros que você cometeu.

Seja por decisão ou por circunstância da vida, a mãe solteira enfrentará os questionamentos de por que deixou isso acontecer, por que oferece ao filho uma vida sem pai, por que não procurou ter filhos só depois de ter um pai para ele, por que não arruma outro companheiro, por que não insiste em criar pontes entre uma criança amada e uma pessoa que a despreza ou nem quis saber que ela existe.

Na verdade isso não deve definir nem a mãe, não há mãe solteira ou mãe casada/separada, há mães. E resolver ser mãe de alguém ou pai de alguém independe da maneira como outras pessoas encaram essa missão, é um compromisso de vida, uma alegria diária para a alma e uma tarefa que consome tanto a ponto de não dar tempo nem vontade de dar importância a quem tem opiniões que não ajudam nem melhoram nada.

Quando a vida foge do script perfeito, e isso acontecerá sempre com todas as vidas, ela continua. E essa continuidade é feita daquilo que vem para construir, das pessoas capazes de dar a mão, o coração, as boas palavras, o alento, a compreensão, a solução que a gente não vê, um abraço, uma gargalhada inesperada, um sorriso.

É, no final das contas, uma violência definir nossos filhos pelas adversidades que a vida lhes impôs. Eles se definem pelas soluções simples e maravilhosas que vão criar ao longo de um tempo que eu espero que me supere e por um mundo que está aos pés deles. Eles têm a vida pela frente e ela será feita de sonhos e soluções. Problemas são coisas que passam, a personalidade é coisa que resiste.

Eu tenho uma história. Cada mãe e cada pai que está lendo isso tem inúmeras outras e sabe o quanto é difícil olhar um filho e, em vez do mal que a gente queria ter evitado, enxergar a pessoinha brilhante que encontrou, com mais ou menos dificuldade, uma forma de prosseguir.

Não defendo aqui que a gente deva ignorar os problemas ou as nossas responsabilidades reais, muito pelo contrário, o dever mais importante de mães e pais é serem o que são: mães e pais. Defendo que a gente aprenda a reconhecer nos nossos filhos quem eles realmente são, não aquela pessoa que a gente gostaria que eles fossem, a que jamais em tempo algum sofreu qualquer adversidade ou foi ferida por alguém.

Uma das coisas mais importantes que uma criança tem a nos ensinar é o fato de a alegria ser tão importante quanto a tristeza e a possibilidade de colocar isso em prática. Dizem por aí que as crianças são anjos, disso eu não sei. Sei só que elas têm asas e aprendi aqui em casa que uma das minhas funções mais importantes é não cortá-las.

Termino com um trecho pequenino de um poema enorme do espanhol Antonio Machado, coisa que a gente deveria emoldurar para lembrar disso todos os dias:

Caminante, no hay camino,

se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

y al volver la vista atrás

se ve la senda que nunca

se ha de volver a pisar.

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