OPINIÃO
23/09/2014 17:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Argumento x xingamento: seus filhos sabem a diferença?

A internet nos levou a um exercício forçado do debate, quer seja pela vontade danada que todo mundo passou a ter de dar opinião sobre tudo, quer seja pela proximidade gerada entre as pessoas pelas redes sociais, basta dar um clique para entrar num debate.

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Não estamos mais ensinando criança a tomar bênção e a dizer "sim, senhor". Muita gente se ressente, o que é natural quando se suprime táticas fáceis de comando que podem convenientemente esconder grandes problemas. Uma coisa é o costume ancorado por diálogo e respeito e outra é usar de maneira cínica frases prontas para encobrir relações violentas e sem diálogo, o último caso é conhecidíssimo não só entre pais e filhos.

A internet nos levou a um exercício forçado do debate, quer seja pela vontade danada que todo mundo passou a ter de dar opinião sobre tudo, quer seja pela proximidade gerada entre as pessoas pelas redes sociais, basta dar um clique para entrar num debate.

Mas você já pensou quanto dessa troca entre pessoas é realmente comunicação e quanto é apenas uma explosão individual de raiva que não leva em conta a existência de outras pessoas? Já, aposto.

Eu acredito na lógica de fazer do limão uma limonada, então listei 6 tipos de discurso de raiva mais comuns nas minhas timelines. O que eu fiz talvez não funcione para todos, mas quero dividir uma experiência legal: observe seu próprio comportamento, analise e tente evitar esses erros na argumentação com os filhos.

Se é verdade que eles aprendem pela experiência, e eu creio que sim, talvez a gente possa formar uma geração mais saudável, que use as redes sociais para dialogar, conviver com diferenças e crescer, em vez de ficar deslumbrada e só sair xingando muito.

1. Lógica binária

Quem não é a favor de algo inteiramente, ainda que seja a favor do conteúdo e não da forma, passa a ser totalmente contra e inimigo mortal.

Tudo na vida tem nuances e pessoas com um olhar diferente podem trazer ponderações que nos ajudam muito. Abra mão das suas verdades absolutas e ensine a cabeça a pensar, vai ajudar muito.

2. Uso do ódio como instrumento de discurso

Se uma pessoa arranja briga com a internet inteira não é porque o mundo é mau, é porque existe algum erro de posicionamento. De boas intenções o inferno está cheio, diz o ditado antigo e verdadeiro. Boas ideias não emplacam por xingamento, gritar mais alto ou ódio, emplacam por convencimento e isso é uma arte que exige reconhecer a existência e a importância do outro.

3. Desqualificação do interlocutor

A pessoa escreve algo e outra pessoa não gosta dos primeiros 50 caracteres. Qual a reação? Desqualifica a pessoa, xinga, diz que não é ninguém para falar daquilo, desqualifica também a família, os amigos, o cachorro, o papagaio, a forma daquela pessoa viver.

A sociedade é feita da convivência entre diferentes. Qualquer argumento que despreze o valor das diferenças na construção de um mundo melhor não é válido.

4. Enfiar a mãe no meio

O bordão serve para situações em que a pessoa discorda de algo em que a outra diz e aí pergunta: e se fosse com o seu filho, você faria como? Ou com a mãe, com o pai, com a família.

É um estilo de argumentação que não leva a lugar nenhum, primeiro porque empobrece o debate de ideias depois porque continua fazendo uma pergunta hipotética que duvida da coerência do interlocutor, parte do princípio de que diz uma coisa e faz outra.

Nada que tenha como fundamento a ofensa pessoal vira diálogo.

5. Falsas ressalvas

Uma tática comum para reafirmar um pensamento e suavizar críticas que possam ser vistas como ou realmente sejam preconceituosas, é apelar para as relações pessoais. "Eu não tenho preconceito porque até tenho um amigo/primo/tio que..." e daí solta a maior barbaridade generalizante da face da terra.

Todos temos preconceitos e muitos de nós fazem o máximo para superar. Formar um vínculo com uma pessoa não neutraliza o preconceito de ninguém. Relações pessoais e argumentos sobre ideias não são sinônimos.

6. Substituição de premissas

É uma tática simples, você parte de um caso individual e vai generalizando ao longo do tempo até que ele se torna um axioma. Uma entrevista de um morador de um bairro, por exemplo, não significa que todos os outros moradores do bairro tenham a mesma opinião.

Mas o preconceito é maior que a razão. As pessoas fazem passeatas baseadas na realidade paralela que criam usando a fórmula mágica que combina o próprio preconceito com uma afirmação qualquer que pareça validá-lo.

Dizem que o homem é servo do amor e escravo do ódio. É tentador captar tudo o que tem documentado na internet para reforçar preconceitos, mas tem jeito mais produtivo de gastar a energia e promover debates reais.

Todos nós, vez ou outra, cairemos na tentação da argumentação mais fácil se a regra for dar opinião sobre tudo e convencer a outra parte de coisas nas quais nem sabemos direito por que acreditamos. Estamos deslumbrados com o direito de gritar que a internet nos dá, talvez seja a hora de apreciar o direito de ouvir visões diferentes.

Garanto que o exercício vai aliviar muita raiva, pacificar muitas tensões em casa e ajudar nossos filhos a serem pessoas melhores, aptas a se comunicar de verdade em vez de passar vergonha gritando muito na internet.

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