OPINIÃO
07/03/2014 18:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

Alguém lá sabe dizer o que é ser mãe?

Nós podemos compartilhar fotos lindas, textos engraçados, vídeos comoventes e defesas apaixonadas de teses sobre a infância mas não podemos compartilhar a vivência real da maternidade nem da paternidade.

É mãe quem é e é pai quem é, simples assim. Muito difícil realmente saber o que isso significa sem experimentar e mais complicado ainda conseguir colocar em palavras uma vivência para a qual toda palavra parece ser pequena, incompleta, inadequada.

Não é parindo um filho que a gente vira mãe ou acompanhando a gravidez e o nascimento do bebê que se vira pai, trata-se de um encontro da nossa alma com a gente, um troço que faz sentido mas dá uma vontade de explicar mais sem saber como.

Dessa dificuldade nasceu toda a literatura de internet ensinando o que vem a ser a mãe perfeita, que pouco tem a ver com ser mãe e mais com cumprir uma série de exigências ditadas por opiniões alheias, na maior parte das vezes de gente que nós nunca vamos conhecer.

Mãe mesmo é aquela que resolveu parir assim ou assado, dorme com o filho na cama ou coloca no berço, pega no colo quando chora ou deixa chorar até se acalmar sozinho, joga duro com alimentos industrializados ou libera tudo em nome da magia da infância, investe na educação desde cedo ou acredita no poder da brincadeira. Vale para o pai fora a parte de parir, mas acabo falando sempre em mãe porque é o que eu realmente conheço bem como funciona.

É sempre uma coisa ou outra, um conjunto enorme de regras defendido com unhas e dentes por uns e torpedeado por outros com o mesmo vigor. Seguir a tal cartilha é uma escolha que faz a pessoa ser vista como "mais mãe" por um grupo e "menos mãe" por outro. Não importa a escolha feita, sempre será condenada.

Para mim, a grande questão não é nem essa da condenação eterna e exploração da culpa, mas o erro grotesco de foco. Ser mãe é algo que não acontece pelo simples fato de se ter um filho e fazer esta ou aquela opção no dia-a-dia, é uma conexão profunda, que chega como epifania e transforma de um jeito que faz a gente incapaz de lembrar como era ser antes disso.

Acredito que nem todas as pessoas vivem essa experiência e que ela está ligada à existência do filho, mas não diretamente. Há quem sinta exatamente o mesmo por um filho que não é biológico, quem não sinta pelo filho que gerou e, entre os que sentem, cada um vive a seu tempo, em fases diferentes, uns antes mesmo da existência do filho e outros depois que ele já era crescido.

Não precisa de mais de 5 minutos em qualquer rede social para se entender o desvio do foco da discussão sobre mães e pais. Quantos de nós, afinal, realmente têm coragem de focar na verdade das relações?

A diferença real não é entre alimentar um filho com orgânicos ou industrializados, é em como e por que se faz cada uma dessas opções. Há um abismo entre os que o fazem para postar a foto equivalente a mais um troféu no campo das convicções pessoais e aqueles que acreditam fazer uma escolha coerente com um estilo de vida que leve o filho à busca da própria felicidade, com liberdade inclusive para contestar essa escolha.

Nós curtimos diariamente fotos de pessoas com seus filhos sem nem saber se são mães e pais ou se foi só uma mimetização via internet dessa relação. Muitos se questionam, lamentam as próprias imperfeições e temem nunca ser o suficiente olhando para algo que às vezes nem existe, medindo os outros com a própria régua.

Para quem realmente vive a maternidade ou paternidade, aquela foto é sempre de mais uma de tantas brincadeiras diárias cheias de risadas, mas pode ser uma no ano, na única vez em que a pessoa resolveu interagir com o próprio filho. Talvez o ser perfeito, capaz de seguir todas as regras que você admira mas acha impossíveis de conciliar, não exista. Pode ser que faça as tais coisas até menos que você mas poste e reposte todas as duas vezes por ano em que faz.

Nós podemos compartilhar fotos lindas, textos engraçados, vídeos comoventes e defesas apaixonadas de teses sobre a infância mas não podemos compartilhar a vivência real da maternidade nem da paternidade. Não depende de fazer de um jeito ou de outro e até dá para fingir lindamente na internet, mas mãe ou pai só se é sendo.