OPINIÃO
03/01/2017 16:49 -02 | Atualizado 03/01/2017 16:49 -02

Quando o discurso de ódio se torna prática de ódio

Members of the public unaware of man holding gun
Gary Waters via Getty Images
Members of the public unaware of man holding gun

A chacina de Campinas promovida pelo assassino misógino Sidnei Ramis de Araújo não é apenas um crime "cometido por um louco". Corriqueiramente, ao feminicídio é atribuído o nome de crime passional, relativizando e invisibilizando o machismo e o ódio às mulheres construídos cotidianamente em nossa sociedade. A carta divulgada em que Sidnei revela o planejamento de suas ações deixa claro que trata-se de mais um crime resultado de um país construído sobre alicerces machistas e misóginos.

A violência contra as mulheres é estrutural no Brasil e antecede os debates entre esquerda ou direita.

É fruto de uma colonização que traz em seu bojo uma ideologia religiosista de países europeus que mais queimaram mulheres durante a Inquisição. É fruto de instituições que excluem as mulheres dos cargos de poder e representatividade. É fruto de uma sociedade que reduz a mulher ao espaço privado, afetivo e ausente de autonomia. É fruto de uma sociedade que ensina desde cedo os meninos a serem agressivos e as meninas a se calarem diante das violências sofridas e ainda culpa as vítimas de estupro pelas suas roupas ou lugares frequentados, taxando-as de vadias. É fruto de uma medicina que enxerga as mulheres apenas como reprodutoras e de um mundo do trabalho que remunera mal e desigualmente. A violência contra as mulheres no Brasil é fruto de uma sociedade autoritária, vertical, perversa, excludente, brutal, que transforma diferenças em desigualdades e as naturaliza.

Sidnei não cometeu um crime passional. Comprou uma arma da esposa de um policial. Raspou o número de série para não "prejudicar" a prática ilegal, corrupta do policial. Sidnei calculou seus atos, escreveu cartas e enviou a amigos. Declarou odiar as mulheres "vadias", como a mãe de seu filho e as mulheres da família, que iriam "pagar o preço". Sidnei proferia discursos de ódio, desses que abundam na sociedade e, ultimamente, em comentários de internet. Sidnei não é um indivíduo apenas, mas a expressão de muitos homens que são produto e se ancoram na estrutura misógina da sociedade para legitimar suas violências. A cultura do estupro, tão arraigada, é a expressão da ideia de que as mulheres devem se submeter às vontades dos homens, que seus corpos podem ser subjugados a qualquer instante, que suas vidas estão sujeitas ao deleite masculino. Há, portanto, uma raiz de dominação e um discurso que a reproduz em vários níveis.

Até novelas que reforçam estereótipos femininos e masculinos, que legitimam estupros, agressões, violências psicológicas em nome da audiência

A mídia corporativa lucra vultuosas verbas com o sangue da população e, principalmente, das mulheres. Desde programas policialescos comandados por brutamontes que desrespeitam diariamente a Constituição Federal (CF) até novelas que reforçam estereótipos femininos e masculinos, que legitimam estupros, agressões, violências psicológicas em nome da audiência. Esta mesma mídia que, além de ganhar nas duas pontas, tanto ao estimular a violência como ao noticiá-la como algo surpreendente, descontextualizado, sensacionalista, ótimo para manchetes, defende o uso da força contra a população. Uma mídia que despolitiza, que desinforma e ataca diariamente os Direitos Humanos, que foram construídos após a barbárie da Segunda Guerra Mundial.

Cabe à sociedade, guiada pelas mulheres, tomar a frente, de forma organizada, e exigir a regulamentação dos artigos 220, 221 e 222 da CF e democratizar os meios de comunicação e assim tirar o oligopólio da informação da meia dúzia de famílias que lucram com a violência estrutural. É necessário que os meios de comunicação sejam plurais e diversos para que as mulheres possam discutir a estrutura da sociedade, debater a sociedade que queremos, produzir conteúdo e outro tipo de propagandas (que estão nas mãos de poucas empresas de marketing comandadas por homens). É necessário que tenhamos uma mídia que não coloque a culpa nas mulheres, as vítimas, alegando "infidelidade" da mulher para a "perturbação da mente masculina" enquanto justifica a infidelidade dos homens como algo natural. A mídia, como todos sabem, mesmo que nada saibam, vulgariza, hipersexualiza e submete as mulheres a condições degradantes pela própria condição de ser mulher.

Cabe a instituições públicas, como Ministério Público, Defensorias, Polícia Federal entre outras investigar as pessoas que disseminam discursos de ódio pelo mundo virtual - e não apenas esperar para tomar alguma atitude quando o discurso de ódio se torna prática de ódio.

Cabe às escolas discutirem Gênero e sexualidade para que outros Sidneis não sejam formados diariamente, que a tal da "Escola sem Partido", cujo partido é o que está aí, defendendo uma ideologia de gênero sexista, machista e misógina, não encontre mais espaço e que nossas crianças e jovens cresçam de modo saudável, buscando a igualdade e o respeito para uma sociedade sem violência.

Cabe também a empresas privadas, como Facebook e Twitter, assumirem suas responsabilidades pela plataforma que comandam. É inacreditável e inaceitável que existam páginas e pessoas fomentando e disseminando discursos de ódio sem que façam nada, apesar de toda a tecnologia e capital que possuem para desenvolver meios de brecar a barbárie. Que ao menos respeitem e façam respeitar a Constituição.

Até quando iremos aceitar como natural aquilo que foi construído para violentar nossos corpos, nossas famílias e nossa sociedade?

Os discursos de ódio que agora reverberam refletem apenas a estrutura de uma sociedade machista, misógina, racista, LGBTfóbica, patrimonialista e falsamente meritocrática. A mídia corporativa não conseguindo mais controlar e esconder a verdadeira face da sociedade brasileira, vê pela internet a recusa e a mobilização dessa violência. Está mais do que na hora de enfrentarmos, cara a cara, essa sociedade que não tem coragem de encarar seus esqueletos: a escravidão, o colonialismo, as ditaduras, as forças militares repressoras, a concentração de terras, as instituições que não permitem o acesso das minorias (minoria não se refere a quantidade, mas aos grupos mais vulneráveis da sociedade, mulheres, negros, LGBT, portanto, à maioria da população), a entrega das riquezas nacionais aos estrangeiros (que irá pauperizar ainda mais a população, especialmente as mulheres e negros) e a misoginia e o machismo que estupra uma mulher a cada dez minutos e mata 13 por dia.

A prática de ódio, tão comum na nossa história, tem no governo golpista uma de suas maiores exposições: um governo de homens, brancos, cisgêneros, heterossexuais, ricos e de meia-idade. A mesma sociedade que aceita um governo violento desses é a que aceita crimes como o de Sidnei e naturaliza tudo: todo político é corrupto, toda mulher é vadia, todo estupro é instinto, todo feminicídio é passional.

Até quando iremos aceitar como natural aquilo que foi construído para violentar nossos corpos, nossas famílias e nossa sociedade?

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