OPINIÃO
28/09/2018 13:38 -03 | Atualizado 28/09/2018 13:39 -03

Os extremos de mãos dadas

Não há na política brasileira um extremo ao neoliberalismo. Não foi apresentada nenhuma proposta alternativa a ele, tampouco um retorno estatizante.

Adriano Machado / Reuters
Articulista questiona o significado da polarização entre extremos na política brasileira.

Um discurso está sendo recorrente nestas eleições: o de que há uma polarização entre extremos. Trata-se de um discurso um tanto opaco, pois não ilumina quais são as extremidades, os antagonismos aos quais se refere.

A princípio, a polarização indicada é entre o discurso de extrema direita de Jair Bolsonaro, do PSL, e o de esquerda de Fernando Haddad, do PT. Mas o que significa nomear alguém ou um partido ou projeto político no espectro direita-esquerda hoje em dia? É algo que não é bem definido e cabe uma longa discussão. E não serei eu que, aqui, pretenderei esgotá-la. No entanto, cabe indicar alguns pontos para reflexão para não cair no engodo desse discurso opaco que tentam nos envolver, sabe-se lá com quais intenções.

Qualquer análise política digna de nota atualmente deve levar em conta que vivemos uma nova forma do capital: o neoliberalismo. Isso implica dizer que o modo de produção, as relações de trabalho, as relações sociais, a ideologia se apresentam de uma nova forma. A fragmentação, a "descartabilidade", a fluidez, a efemeridade, a aparência, a liquidez, são constitutivas dessas relações.

Fundamentalmente, o privado cresce sobre o público, como um império domina um império. Corporações detêm montantes de capital maior do muitos Estados nacionais. O capital financeiro circula pelo mundo com maior rapidez que os caças de guerra e de tudo se apossa e se desfaz em instantes.

O Brasil, num breve olhar sobre o mundo, é o único país do mundo com mais de 200 milhões de habitantes com um sistema público de saúde, com educação pública, ainda com algumas empresas estatais de caráter estratégico (como bancos, petrolífera, Correios etc). Isso o coloca na contramão da ordem neoliberal, contrariando os interesses de quem detém de fato o poder, os especuladores, os bancos, as corporações, o capital financeiro ou, em uma palavra, o mercado.

No caso do candidato do PSL, apesar de ser de direita ou de extrema-direita, como alguns afirmam, ele tem uma plataforma neoliberal, isto é, privatizante. Interessante comparar com as plataformas da extrema-direita da Europa ou mesmo dos EUA, que são nacionalistas ou estatizantes, ou seja, anti-neoliberais. Lá a direita é neoliberal, assim como o centro e a centro-esquerda foram arrastados, como que sem saída dessa espécie de regime.

O espectro político direita-esquerda no Brasil é tão conservador que foi de tal modo deslocado para a direita que o que era para ser centro é chamado de esquerda. Encontramos no PT uma série de políticas que não apontam saídas à política neoliberal; ao contrário, a reforçam. Implementação de Organização Social (OS) na Saúde, financiamento de ONG, parcerias público-privado, são exemplos da falta de alternativas diante do poder privatizante que assola o Estado, ou seja, o que é público.

Fundamental entender que há um discurso de sentido único e recorrente que toca em pontos sensíveis, pois reais, mas os distorce para deslocar as saídas e atender aos interesses privatizantes, portanto neoliberais.

Um discurso que faz uso de palavras mágicas, que a princípio nada dizem, palavras destituídas de conteúdo, mas que parecem dizer muito: eficiência, modernização e flexibilização. Com o uso incessante dessas palavras, os agentes do poder privado imiscuídos no público vêm há décadas desmontando e entregando o que era de todos a alguns, sem, no entanto, entregar o que prometeram — apesar de lucrarem muito.

Não há, pois, em nenhum momento, no debate político um extremo ao neoliberalismo. Não foi apresentada nenhuma proposta alternativa ao neoliberalismo. Tampouco um retorno estatizante.

A pergunta que fica é: de quais extremos se fala? De um neoliberalismo de coturno e de um neoliberalismo de terno?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.