OPINIÃO
15/02/2016 11:19 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

A 'Revolução Feminista' já está acontecendo. E não vai parar

A 'Revolução Feminista' vem para colocar as mulheres no centro do pensamento e das práticas políticas, sociais, institucionais e discursivas. Uma Revolução não é um acontecimento, mas um processo histórico de longo prazo que muda as bases objetivas e as mentalidades.

Jorgenmac via Getty Images
Great illustration of a Retro Strong Powerful Asian Woman inspired by the Famous World War Two propaganda Poster of Rosie the Riveter calling for women to play their part in the war effort.

Pode-se entender "revolução" como uma alteração na ordem estabelecida. Ordem constituída, produzida, regulada e operada por instituições cuja perspectiva é a do homem. Da linguagem cotidiana ao discurso científico, das relações afetivas à vida política.

Nicolau Copérnico revolucionou quando mudou a perspectiva inteligível dos planetas ao colocar o Sol como referência, como centro.

René Descartes com o cogito e Immanuel Kant com o sujeito transcendental colocar, o ser pensante como o lastro de toda verdade possível.

Mas esse sujeito - e seus discursos e ações - sempre foi o homem. O homem se impôs como universal. O que pensa e fala o mundo.

Agora, uma outra Revolução se apresenta no horizonte.

A 'Revolução Feminista' vem para colocar as mulheres no centro do pensamento e das práticas políticas, sociais, institucionais e discursivas.

Uma Revolução não é um acontecimento, mas um processo histórico de longo prazo que muda as bases objetivas e as mentalidades.

Fenômenos como as reações de ódio misógino e machista diante de uma simples questão do ENEM, ou da hashtag #meuprimeiroassédio ou ainda da amamentação em público revelam um dos alicerces da sociedade brasileira - ao lado da escravidão (que se manifesta, por exemplo, na questão das cotas) e da defesa da ordem (isto é, no uso do aparato militar para a contenção e repressão social).

Ao ocupar as universidades, as profissões tida por masculinas, os lugares de poder, enfim, ao ocupar o espaço público, o espaço do discurso sobre o mundo, lentamente a Revolução Feminista está ocorrendo.

Vulva, vagina, menstruação, virgindade, denúncias de estupro, "não", exploração salarial, entre outras realidades, agora fazem parte do universo discursivo e, portanto, das novas práticas sociais. Palavras proibidas e seus significados, aquilo antes era não-dito, ou indizível, hoje é gritado, em coro, e exigido como existente e inteligível.

Uma outra dinâmica social e entre corpos dá sinais fortes que as arcaicas estruturas machistas começam a mostrar fissuras. Unidas, como nas manifestações contra o PL 5069 de Cunha e seus asseclas, as mulheres estamos nos posicionando diante de violências e opressões históricas.

Uma perspectiva feminista, portanto, não visa apenas a igualdade em direitos e deveres que respeite as diferenças, mas busca formular uma outra visão de mundo e produzir outras relações, em que o afeto não seja o ódio, mas o amor, e que ao invés da competição e exploração exista cooperação e solidariedade.

Uma outra sociedade desponta no horizonte possível. Não está pronta, bastando andar em sua direção. Ela será construída aqui e agora, com muito esforço.

É necessário olhar para as bases da desigualdade, entender os processos históricos que nos trouxeram até aqui e nos posicionarmos em toda decisão tomada tendo o vista o que queremos - não o que está dado.

Toda e cada mulher é uma guerreira. Mais que uma sobrevivente, é quem sustenta todo o edifício.

Nós é que vamos dar as cartas, se quisermos.

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