OPINIÃO
15/07/2014 15:25 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

São Paulo, a gente se merece

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Foi assim. Há dois anos decidi empacotar meia dúzia de caixas, enjaulei meu gato e rumei ao norte. O destino? São Paulo. À minha espera, 11 milhões de clichês.

"Se cuida lá, viu? Dizem que São Paulo engole gente" e "Qualquer coisa, volta". Essas frases - e suas variações - foi o que mais ouvi pouco antes de partir. Até hoje elas martelam na minha cabeça.

Pois bem. Ao chegar em terra estrangeira, logo aprendi que o ritmo é diferente. E que muito importa de que lado você samba. Aqui, a curiosidade é lei e, numa primeira conversa, estranhos já te chamam pelo apelido, e querem saber tudo. O Minhocão deveria ser demolido? Serramalte ou Original? E a Cracolândia? Gostou da mostra do Kubrick? Aquele filme mudo, iraniano, não é lindo? Por que diabos você trocou Floripa por São Paulo? Cê tá louca?

Me perdi no início, é verdade. A gastrite atacou, também é verdade. Não dá pra engolir São Paulo de uma vez só. Não há estômago que aguente. Seguimos, eu e ela, numa dieta silenciosa.

Descobri com Gil que o tempo é rei e transformei as velhas formas de viver. Cá, a inércia não perdoa: é preciso estar em movimento (in)constante. Por aqui criei casca e coragem. Transformei o inquilinato em lar, duas vezes. Troquei de emprego e não foi nenhum desastre digno de nota. Fiz novas amizades e reforcei outras, mais antigas. Encontrei o amor. Tudo isso porque, há dois anos, entre garfadas de pizza e dúvidas sobre a mudança, perguntei "Qual é o problema de levar uma vida medíocre?" e ouvi "Nenhum, mas esse tipo de vida não é pra ti". E não é mesmo.

A primeira crise veio, a segunda também, é bem verdade. E aí... "Qualquer coisa, volta". A frase ressoou e o desejo até veio, confesso, mas os pés não obedeceram. Por certeza ou teimosia, vai saber, finquei meus pés no chão e disse não.

É assim. Um amigo me disse, depois de passar um dia por aqui: "Vocês se merecem". Demorei pra entender o que ele quis dizer. Hoje, concordo. São Paulo, eu sei que a gente se desentendeu um pouco no início, eu estava sozinha e você quase venceu. Agora, nos deixamos quietas, cada uma no seu canto. Eu não mexo contigo. Você não mexe comigo. Fiquemos, tipo, de boa.

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