OPINIÃO
06/10/2014 15:38 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

Não há como sair da caverna de Platão sem ficar um pouco cego

Bosnian Muslim people walk inside a cave to pray, during traditional annual prayers for rain, at the Djevojacka cave, near Bosnian town of Kladanj, 70 kms north of Sarajevo, Bosnia, Sunday, Aug. 31, 2014. People gathered at the cave located in a remote mountain village to offer prayers for rain and a successful harvest. (AP Photo/Amel Emric)
ASSOCIATED PRESS
Bosnian Muslim people walk inside a cave to pray, during traditional annual prayers for rain, at the Djevojacka cave, near Bosnian town of Kladanj, 70 kms north of Sarajevo, Bosnia, Sunday, Aug. 31, 2014. People gathered at the cave located in a remote mountain village to offer prayers for rain and a successful harvest. (AP Photo/Amel Emric)

Nota: escrevi este texto há um ano, como trabalho para uma disciplina da pós-graduação. O texto faz uma retomada de movimentos populares globais e recentes, culminando com as jornadas de junho, no Brasil. Em junho de 2013, todo mundo acreditava que novos ventos soprariam por aqui. Pouco mais de um ano depois, o que vimos nas urnas é que a vontade de mudar tende a zero. Por isso resolvi resgatar este texto, ainda que um pouco mais acadêmico, citando autores e etc. Quem sabe, a reflexão aqui posta faça sentido para mais alguém.

Esta não é uma análise definitiva sobre os acontecimentos em curso no Brasil; qualquer material que se proponha a tal definição está fadado a ser míope e incompleto. Mas há alguns pontos de reflexão que podem ser utilizados na construção de uma leitura dos fatos a partir do olhar sobre mobilizações populares do último triênio, como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street e, mais recentemente, o levante turco, iniciado em maio de 2013.

Da Tunísia à Turquia: diferentes contextos, diferentes gotas transbordantes

Quando Mouhamed Bouazizi, um jovem tunisiano de 26 anos, ateou fogo ao próprio corpo, em dezembro de 2010, era impossível prever que um evento corriqueiro com consequências trágicas seria o estopim para o maior levante popular da história da Tunísia.

O contexto? O desemprego atingia 70% da população tunisiana com menos de 30 anos, a corrupção era prática comum dentro do governo, em diferentes níveis e o país vivia sob um regime ditatorial que perdurava há 23 anos, tolhendo liberdades individuais e impedindo qualquer tipo de organização política ou demonstração de oposição ao governo, sob pena de tortura e morte.

Após a notícia sobre a morte de Mohamed Bouazizi, em 4 de janeiro de 2010, uma série de ações começaram a ser planejadas por toda a Tunísia. As revoltas locais, ignoradas pela mídia tunisiana - que é controlada pelo governo, ganharam visibilidade na internet. Sem um comando central ou líder, e sem nenhum vínculo partidário ou ideológico, a revolução tunisiana foi motivada por cidadãos comuns, descontentes com os rumos do país, dispostos a derrubar o regime e alterar o status quo. Após pressão internacional e às custas de 338 mortes e 2147 pessoas feridas, o ditador Ben Ali foi forçado a se exilar na Arábia Saudita e o primeiro-ministro Mohammed Ghannouchi assumiu interinamente a presidência.

Tendo o caso tunisiano como inspiração, outros países do Oriente Médio e Norte da África também testemunharam levantes populares, aos quais a História chamou de "Primavera Árabe". Ao total, 18 países organizaram movimentos, com diferentes formas de ação e desdobramentos e tendo como característica comum a presença maciça de jovens . No que tange às causas que levaram as pessoas às ruas, Antonio Patriota acredita ser possível "afirmar que as principais motivações dos manifestantes são os anseios por oportunidades econômicas, maior participação política e liberdade de expressão".

Outra característica que vale ser salientada é que a maioria dos jovens que integraram as manifestações é proveniente de meios urbanos e ricos, que não possuem experiência militante de qualquer tipo, e valorizam o caráter apolítico do engajamento nas revoltas que não estão ligadas a nenhum partido ou associação. Os desdobramentos das lutas? Até o presente momento, foram derrubados quatro ditadores - na Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen - e o governo de outros países, como o Bahrein e Jordânia demonstrou a iniciativa de ampliar o debate democrático na região. Além disso, estima-se que mais de 50 mil pessoas já perderam a vida durante os confrontos com forças do governo, evidenciando o grau de repressão a manifestações populares no Mundo Árabe.

Em outro continente, jovens espanhóis, movidos pelos levantes árabes, ocuparam praças por toda a Espanha a partir de 15 de maio de 2011, sob o lema "Democracia Real Já!", munidos de um manifesto com objetivos muito bem definidos . Os "indignados da Espanha", como ficaram conhecidos os participantes do movimento, trouxeram à pauta pública a discussão sobre os descaminhos democráticos e a crise de representatividade partidária, colocando pressão sobre os partidos que já não correspondiam mais aos anseios populares no que diz respeito às decisões econômicas e seus consequentes reflexos sociais , além de uma crítica clara contra o sistema democrático do país que, segundo o movimento, estava sob influência direta dos banqueiros.

Os resultados da Primavera Árabe e as reflexões levantadas pelos "indignados" reverberaram para além-mar e chegaram à Nova Iorque, a primeira cidade a promover o movimento chamado "Occupy", em setembro de 2011. Autointitulado como um movimento de resistência sem líderes, com pessoas de diferentes cores, gêneros e posicionamentos políticos, se propunha, inicialmente, a refletir profundamente sobre o sistema econômico, tido como a principal fonte de problemas da maioria da população mundial. Como explica Rushkoff, o Ocuppy "não é um protesto, mas um protótipo de um novo estilo de vida", ideia compartilhada por Stiglitz que afirma que o desejo do movimento é de evolução, não de revolução. Numa chamada de ação global através da internet, o Occupy se alastrou por mais de 100 cidades ao redor do mundo, promovendo encontros e debates sobre temas pertinentes a cada local. Sobre o engajamento dos jovens ocidentais, Roos defende que as revoluções árabes despertaram a juventude alienada da Europa e dos Estados Unidos e, estimulados a pensarem criticamente sobre a sociedade, os jovens se uniram para enfrentar aquela que o autor chama de "a maior crise na história da democracia liberal".

A partir das informações acima dispostas, é possível inferir que cada movimento citado teve uma causa - ou um conjunto de causas - norteadora, definida dentro de um contexto muito específico, além de um estopim que deflagrou a situação. Se no mundo árabe a demanda era por mais participação política e a Primavera teve início após a imolação de Bouazizi, na Espanha a discussão começou com o primeiro grupo acampado na praça Catalunha e girou em torno dos reflexos da crise econômica sobre a sociedade, questão compartilhada e ampliada pelos movimentos Occupy, que foi posto em prática após uma convocatória de ocupação à praça Zucotti, em Nova Iorque; cada lugar com a gota que lhe coube para transbordar o povo às ruas.

Na Turquia, a gota definitiva foi a violenta repressão policial a um protesto pacífico que tentava impedir a derrubada de árvores num parque no centro de Istambul - o parque Gezi, para a construção de um shopping. Por conta da proposta do presente trabalho, não cabe aprofundar a questão turca, cabe apenas ressaltar que a Turquia ocupa uma posição relevante no cenário mundial, está num período de estabilização econômica e sem conflitos sociais internos graves que justificassem um levante popular em tais proporções como se viu. Os protestos, todavia, levantaram uma série de questões e demandas, que vão desde a proteção do parque Gezi à renúncia do primeiro-ministro, Recep Tayyip Erdogan, tido como um tirano pela população, que está no poder desde 2003. Desde o início dos protestos, em 28 de maio de 2013, seis pessoas já perderam a vida e mais de 7 mil ficaram feridas.

O gigante acordou?

No Brasil, a onda de protestos nacionais teve início no mês de junho, após o anúncio do reajuste nas passagens de transporte público feito pelo governo do Estado de São Paulo e pela prefeitura municipal da capital. As primeiras manifestações, convocadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), levaram algumas centenas de pessoas às ruas de São Paulo, reclamando por uma causa clara: a revogação do aumento na tarifa do transporte.

O ponto de virada, a gota transbordante das manifestações se deu após o ato do dia 13 de junho, quando cerca de 5 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar, foram duramente reprimidas durante o protesto, atingidas por disparos de bala de borracha e dispersadas com bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo. Naquela noite, mais de 240 pessoas foram detidas e pelo menos 100, feridas . A partir daí, a mobilização tomou novos rumos e a pauta foi ampliada para outras temáticas.

Nos dias que sucederam o protesto do dia 13, outras cidades organizaram manifestações por todo o país: capitais como Brasília, Rio de Janeiro, Florianópolis, Belo Horizonte, Fortaleza, Belém e até Parauapebas, no interior do Pará, também foram às ruas, motivados pelo movimento de São Paulo.

Por quê? Diante da reação à repressão policial no ato de 13 de junho, o movimento ganhou força e adesão de outros grupos e indivíduos e, no dia 17, o número de pessoas marchando pelas ruas de São Paulo cresceu exponencialmente, a estimativa oficial dá conta de que havia 65 mil manifestantes, enquanto poucos dias antes eram apenas 5 mil. A pauta, que antes era única, tornou-se um mosaico de reivindicações - algumas concretas, como a contrariedade à PEC 37, outras abstratas, como o pedido pelo fim da corrupção no país.

Assim como nos movimentos internacionais supracitados, em especial como no Occupy e Indignados da Espanha, a mobilização no Brasil atingiu outro patamar e a apropriação do movimento por outros atores sociais assemelha-se às características citadas por Laacher e Tezi, conferindo um caráter apolítico e difuso ao engajamento. Na prática, o que se viu foi uma grande massa mobilizada país afora, ocupando as ruas sem uma demanda específica e conjunta, protestando por aquilo que lhe convém, seja contra os gastos do governo com a Copa, a favor do casamento gay, contra Projetos de Emenda Constitucional ou Projetos de Lei, enfim, uma miscelânea de reivindicações.

É possível analisar o caso brasileiro e, com um pouco mais de clareza, o caso internacional tendo como base de interpretação a metáfora apresentada por Platão na Alegoria da Caverna. Nela, o filósofo descreve uma situação onde indivíduos estavam condicionados a aceitar um simulacro como realidade. Uma vez libertos da "escuridão da caverna", de onde a realidade chegava até eles na forma disfarçada de sombras, os indivíduos sofreriam de uma espécie de cegueira temporária, "ele ficaria ofuscado e não poderia distinguir os objetos, dos quais via apenas as sombras anteriormente", como descreve Platão no texto original.

Analogicamente, o mesmo processo aconteceu, em proporções variadas, com as sociedades que organizaram seus levantes. A euforia inicial pela ideia de ter uma demanda coletiva atendida pelo governo, principal responsável pelas decisões que atenderiam aos pleitos, transformou-se em cegueira após a percepção de que a mudança não foi atingida no nível esperado durante as manifestações. No mundo árabe, governos foram depostos e o aqueles que entraram no poder acabaram por ser tão ou mais autoritários e restritivos às liberdades individuais que os antecessores; no caso espanhol, não há nenhuma mudança significativa, os indicadores de desemprego e crise econômica continuam nos mesmos patamares e o movimento dos Indignados ainda realiza protestos; o Occupy foi varrido da praça Zucotti pelo inverno e pelo uso da força policial e também não promoveu nenhum efeito prático além da mobilização e chamada à reflexão.

Como dito inicialmente, o caso brasileiro está em curso e, por isso, ainda é cedo para qualquer análise mais aprofundada. Numa conversa com jovens em plena praça Catalunha, na Espanha, o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano disse que "existe outro mundo na barriga deste. Esperando. Que é um mundo diferente. Diferente e de parto complicado. Mas com certeza pulsa no mundo em que estamos", ele conclui dizendo que pouco importa o que vem adiante, mas que importa o que está acontecendo. No Brasil, pouco se sabe o que o futuro reserva, se os movimentos de rua irão prosperar, se as votações na Câmara e no Senado estarão alinhadas com o desejo da sociedade e se alguma mudança efetiva será concretizada. O que se sabe é que ao sair da caverna, o tal "gigante" certamente ficará um pouco cego e que essa cegueira temporária não o impeça de ver a realidade com clareza a longo prazo.

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