OPINIÃO
20/10/2014 14:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Voto em Roraima é tratado como moeda de troca

Celso Pupo rodrigues via Getty Images

Voto em Roraima ainda é uma moeda de troca, uma mercadoria negociável. Não à toa, em 2010 esse pedaço extremo do Brasil apareceu nas manchetes de jornais nacionais como o lugar onde o voto teve o valor per capta mais alto do País e onde a corrupção eleitoral correu solta. No pleito deste ano não tem sido diferente. Teve candidato a deputado estadual que informou à Justiça Eleitoral a previsão de um gasto de R$ 5 milhões na campanha. De acordo com cálculo feito pelo deputado comunista Soldado Sampaio, os quatro anos de proventos recebidos por um parlamentar estadual rendem menos de R$ 1 milhão, já descontado o imposto de renda. Então, o que faz um candidato gastar R$ 5 milhões para se eleger? Fica a pergunta no ar.

A compra e a venda de votos correu solta no primeiro turno das eleições, ainda que o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e o Ministério Público Federal (MPF) tenham afirmado que foram poucas as ocorrências de crimes eleitorais registradas este ano. Quem percorreu o interior do estado nos dias que antecederam à eleição, como eu, sabe muito bem o quanto a corrupção eleitoral está entranhada na cultura política roraimense. Ouvi diversos relatos de reuniões em municípios interioranos, onde determinado candidato de plumagem colorida anunciava derrame de dinheiro.

Algumas prisões de emissários de candidatos - ou dos próprios - que portavam listas de documentos e endereços de eleitores e determinadas quantias em dinheiro, foram feitas nos dias que antecederam ao pleito e no dia 5 de outubro. No dia da votação, um deputado estadual candidato à reeleição do PSDB e uma ex-deputada foram presos sob acusação de crime eleitoral. Cerca de duas semanas antes, em São João da Baliza, sul do estado, uma Hilux ligada à campanha de um candidato à reeleição como deputado federal foi apreendida. Com o motorista foram encontrados mais de R$ 20 mil e uma relação de supostos eleitores, além de cópias de documentos.

Uma prática abominavelmente comum nas eleições disputadas em Roraima é a ronda de carros luxuosos na madrugada dos últimos dois dias que antecedem à votação, nos bairros periféricos da cidade. São emissários de coligações e candidatos corruptos que apelam para a ignorância de eleitores igualmente corruptos, cuja noção de cidadania é tão abundante quanto a chuva no Nordeste. Este ano, eu me incumbi da missão de investigar a ação desses compradores de voto madrugada a dentro e presenciei celas deploráveis. A constatação é desalentadora.

Consegui flagrar pelo menos quatro abordagens desses "emissários" a eleitores que aceitaram receber dinheiro em troca do voto. Em bairros, como o "Conjunto Cidadão", cuja cidadania se restringe ao nome, famílias inteiras e grupos de vizinhos esperavam, na madrugada de sábado para domingo, munidos de garrafas de café ou de pinga - como acontece em todos os anos de eleição - a passagem dos carrões que descaradamente paravam e deixavam a encomenda tão desejada. Muitos chamavam a situação ironicamente de "chegada de Papai Noel".

Cheguei a baixar o vidro o carro para conversar com uma mulher de meia idade que me confundiu com um dos emissários da anticidadania e, achando que eu iria lhe dar dinheiro e recomendar o voto em algum candidato, se propôs a votar em que eu mandasse. "Qualquer valor acima de cinquenta já serve", propôs a criatura. Ali, pude ver de perto o quanto a sociedade roraimense foi sendo atrofiada, décadas a fio, pela prática de uma política assistencialista e corrupta e perversa.

Povo usado como gado

Mas a engenharia da compra de votos em Roraima usa de sistemas diversos e perversos, com o objetivo de burlar a lisura da disputa. Servidores de cargos comissionados em secretarias e autarquias estaduais são usados como cabos eleitorais sem nenhum pudor. Todos são obrigados a, literalmente, vestir a camisa do mandatário de plantão.

Uma operação da Polícia Federal, realizada na tarde do dia 14 de outubro, no comitê eleitoral do governador e candidato à reeleição Chico Rodrigues (PSB), da coligação "Roraima Unida, localizado na periferia da cidade, encontrou vários servidores estaduais prestando serviços à campanha. Rodrigues ficou em segundo lugar na disputa para o governo e agora disputa o segundo turno com a candidata Suely Campos (PP), que terminou o primeiro turno em primeiro lugar com mais de 100 mil votos.

No entanto, o fato mais escandaloso acerca do uso de recursos públicos para cooptar eleitores se tornou público três dias após a apuração dos votos para deputado estadual. Vendo-se sob o risco de ser alijado da composição da Assembleia Legislativa, depois de cinco mandatos consecutivos, o presidente da Casa, deputado Chico Guerra (PROS), com a conivência da primeira-secretaria da mesa-diretora, demitiu mais de 1.200 servidores do Poder Legislativo estadual de uma canetada só. Entraram na enxurrada de demissões cabos eleitorais e servidores que já tinham algum tempo de casa.

Curioso foi ver na mesma edição do Diário do Poder Legislativo, do dia 8 de outubro, as resoluções assinadas por Chico Guerra admitindo os servidores com datas retroativas aos meses de março, abril, maio, junho, julho e agosto para, nas páginas seguintes, exonera-los. A legislação eleitoral proíbe ao poder público fazer admissões e demissões no período de três meses anteriores e três meses posteriores às eleições. Deputados de todas a vertentes políticas acusaram publicamente a presidência da Casa de ter lançado mão de atos secretos, com o objetivo de contratar cabos eleitorais que foram demitidos tão logo terminou a campanha eleitoral. O corregedor da Casa, deputado Erci de Moraes (PPS), chegou a afirmar que acionaria os ministérios públicos estadual e federal para investigar o caso.



Oito dias depois da publicação da exoneração em massa, Chico Guerra veio a público para defender o ato como uma medida administrativa necessária para enxugar o quadro de servidores da Assembleia, que, segundo ele, estava inchado. Imediatamente, o parlamentar anunciou a realização de um concurso público que tem o objetivo de contratar cerca de 600 servidores para todos os cargos, extinguindo, assim, as funções comissionadas. Chico Guerra nega, no entanto, que o concurso seja uma tentativa de minimizar os feitos negativos da demissão em massa.

Vale ressaltar que Guerra disputou a reeleição com sua candidatura sub judice, uma vez que fora condenado por participação no malfadado "escândalo dos gafanhotos", desmantelado pela Polícia Federal em 2003 por meio do qual foram surrupiados dos cofres públicos mais de R$ 200 milhões, e teve o registro de candidatura negado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

E nessa toada seguem as eleições em Roraima ano após ano. O abuso do poder político e econômico é sempre usado de forma desmedida e acaba por desequilibrar o pleito a favor de quem já dá as cartas há muito tempo ou a seus herdeiros e afilhados. No final, os representantes no Executivo e no Legislativo até mudam, mas tudo continuam sempre igual.

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