OPINIÃO
14/02/2014 14:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Inimigo dos índios quer ser governador de Roraima

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O deputado e rizicultor Paulo Cesar Quartiero, do partido Democratas, quer ser governador de Roraima. Ele já anunciou pela imprensa que seu nome está posto no debate sucessório local. Roraima é o estado mais setentrional do Brasil, localizado na tríplice fronteira: Brasil-Venezuela-Guiana. É uma terra cheia de virtudes e problemas. Lugar de uma classe política compostas por castas poderosas, que passam o poder de pai para filhos e esposas.

Nesse cenário, quem é Paulo César Quartiero? Ele é simplesmente o inimigo número um dos missionários da Consolata, dos povos indígenas e dos ambientalistas de Roraima. Arrozeiro influente e rico, Paulo Quartiero era dono de uma grande fazenda de arroz dentro da Terra Indígena (TI) Raposa Serra do Sol, localizada no noroeste de Roraima. Os agrotóxicos usados nas lavouras de arroz poluíam as águas do rio Maú.

Quando o então Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva homologou a demarcação da TI Raposa Serra do Sol em área contínua, no ano de 2005, o rizicultor Paulo Quartiero, junto com empresários do setor agropecuário, encampou um movimento de guerrilha contrário à decisão do Governo Federal. As ações se deram quase sempre ao arrepio da lei e em confronto direto com o bom senso. Ele e seus seguidores alegavam a defesa do direito à propriedade da terra.

A Terra Indígena em questão é uma das maiores do país, com um total de 1,7 milhão de hectares e 1.000 quilômetros de perímetro. Nela vivem índios das etnias taurepang, macuxi, wapixana, ingarikó e patamona. Com a presença de fazendeiros e plantadores de arroz, desde 1970, esses indígenas alegavam não poder efetivamente essa área. Na região à época da homologação viviam mais de 20 mil índios. Outros 10 mil vivem na periferia de Boa Vista, capital de Roraima, sujeitos ao alcoolismo, ao subemprego e ao preconceito.

Os conflitos

Era madrugada do dia 17 de setembro de 2005, quando a Missão Surumu, uma espécie de quartel general do movimento indigenista dentro da Raposa Serra do Sol, foi cercada por cerca de 150 homens encapuzados e fortemente armados com revólveres, espingardas, facões e pedaços de pau. Eles atearam fogo nas edificações da missão, espalhando o terror entre missionários e indígenas. Pessoas foram agredidas fisicamente. Á época a imprensa local cogitou que a ação violenta teria sido encomendada pelo arrozeiro Paulo Quartiero.

consolata

Em setembro de 2005, a Missão Consolata, quartel general do movimento indigenista em Roraima, foi incendiada por homens encapuzados

Em 2008, quando a Justiça brasileira decidiu pela manutenção da demarcação da Terra Indígena e pela desintrusão da área (retirada dos não-índios), houve nova tensão, que foi parcialmente acalmada logo em seguida, quando o Supremo Tribunal Federal mandou interromper o processo de desintrusão até que o caso fosse analisado por aquela Corte.

Um ano depois, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu manter a homologação contínua da Raposa Serra do Sol, Paulo Quartiero comandou uma verdadeira operação de guerra, que incluiu obstrução de estradas, incitou o confronto entre índios e não-índios e se contrapôs à Polícia Federal numa atitude extremamente afrontosa.

Roraima viveu dias de terror com a insegurança instalada no estado devido à guerrilha comandada pelo atual deputado. Mesmo assim, teve de sair da área, deixando sua fazenda para trás. Hoje Quartiero investe em plantações de arroz na Ilha de Marajó, no Pará, e na Guiana Inglesa e exerce o mandato de deputado federal pelo DEM.

A teimosia de Quartiero

No entanto, o rizicultor não se dá por vencido. Ele ainda aposta na revisão que a demarcação da homologação da TI possa ser revista pelo STF, muito embora quase nenhum representante da classe produtiva roraimense tenha muitas esperanças a esse respeito. Uma ação nesse sentido tramita na Corte Suprema brasileira. Para a classe política local, que foi toda ela contra a homologação feita pelo presidente Lula da Silva, a possibilidade de qualquer retrocesso na demarcação é remota. Remotíssima. Mas Quartiero ainda acredita.

Agora, como um lutador incansável, cujas estratégias e razões de luta são sempre questionáveis, Paulo César Quartiero sonha em disputar o Governo de Roraima. Ele acredita que alguns poucos partidos podem se juntar ao DEM nessa empreitada. De pronto, a pré-candidatura de Quartiero desagrada, e muito, boa parte da população roraimense.

Algumas vozes no setor agropecuário local aplaudem a iniciativa, pois vêem nele um defensor dos interesses da classe. No entanto, a simples possibilidade de uma vitória nas urnas desse guerrilheiro do agronegócio dá calafrios em parte da população e em ambientalistas e indigenistas. Quartiero é, por assim dizer, o Ronaldo Caiado do Extremo Norte do Brasil.