OPINIÃO
28/02/2014 16:34 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

É a era dos justiceiros em Roraima. É o horror!

Suspeitos de roubos, assaltos e estupros são capturados por populares e linchados, muitas vezes até a morte. Foram seis casos em Roraima desde o início do ano. As cenas são filmadas, divulgadas, noticiadas. É a era dos justiceiros no Brasil.

Estamos vivendo a era dos justiceiros no Brasil. O caso do jovem negro infrator, que foi preso ao poste com uma trava de bicicleta no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, está longe de ser um caso isolado. Eu tenho forte suspeita de que Roraima, um estado brasileiro com menos de 400 mil habitantes, é o de maior incidência de casos em que supostos bandidos e estupradores são linchados, algumas vezes até a morte. De janeiro para cá, já foram registrado pelo menos seis casos de linchamento de homens acusados de cometer crimes como roubos, assaltos e estupros.

O último caso aconteceu na noite do dia 18 de fevereiro, quando um homem que estava num ônibus que faz a linha do bairro Nova Cidade, na periferia de Boa Vista, capital do estado, tentou enforcar o motorista com um pedaço de fio usado em instalações elétricas. O acusado foi amarrado por populares e agredido até a chegada da polícia. O homem tem traços indígenas. Abre parêntese: na periferia de Boa Vista há milhares de índios aculturados que, sem oportunidade, se entregam ao alcoolismo e a pequenos delitos. Fecha parêntese.

Vídeos postados no YouTube, feitos nos últimos meses de 2013, dão conta do espancamento impiedoso de infratores aqui na capital.

(NOTA DO EDITOR: Optamos por não embedar o vídeo, porque as imagens são muito fortes. Caso queira assistir mesmo assim, clique aqui).

Na noite do dia 21 de janeiro, eu estava em casa, depois do trabalho aqui na Rede Tropical de Comunicação, fazendo pequenas tarefas domésticas, quando minha filha chegou nervosa, avisando que um homem estava sendo espancado a duas quadras dali. Fui ver a situação de perto. De fato, o homem foi espancado por moradores, de forma violenta, sem nenhuma piedade. Ele é acusado de assaltar duas vítimas com um facão e roubar dois celulares. O suspeito foi atendido por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado para o Pronto Socorro Francisco Elesbão, unidade de saúde local.

O fato foi publicado na Folha de Boa Vista, o maior jornal em circulação do estado, e suscitou comentários vorazes. "É taca [surra, no roraimês] para comer sabão, e depois taca para saber que sabão não se come?", disse um leitor."A parada é o seguinte, um vagabundo como esse devia tá cheirando o sovaco do capeta essa hora. Do jeito que tá, essa situação vai acabar se tornado corriqueira. O povo não aguenta mais. Se esse pilantra morrer, vai ficar tudo pelo certo". Este comentarista misturou observações de conivência com os justiceiros, com a perplexidade da violência crescente em que as pessoas decidem fazer justiça (?) com as próprias mãos. "Tem que ser cortado o p**** desse desgraçado", vaticinou outro.

Mais adiante, no dia 31 de janeiro, um homem acusado de tentativa de estupro é linchado pela população também em Boa Vista. Um dos agressores, depois de lhe desferir socos e pontapés, enfiou um cabo de vassoura no ânus do infeliz. É, alguém filmava tranquilamente, enquanto o homem era espancado e "estuprado" com cabo de vassoura. A cena é deprimente e eu poupo leitores de ver tamanho barbarismo. Enquanto uns gritavam "chama a polícia" os demais chutavam, socavam, apedrejavam e batiam com pedaços de pau no sujeito que está caído, tentando, em vão, se proteger da fúria dos justiceiros roraimenses.

Presos pagam com a vida

Aqui em Roraima é comum estupradores, ao ser capturados pela polícia, morrerem posteriormente dentro das celas da Penitenciária Agrícola do Monte Cristo, numa situação que leva a crer na ocorrência de enforcamento. Há cerca de um mês, um acusado de estupro encaminhado à Penitenciária Agrícola foi encontrado morto no dia seguinte, depois de ser seviciado pelos outros presos. Geralmente, as mortes acontecem sem que nenhum dos policiais da guarnição de plantão tome conhecimento. O que mais parece conivência do que outra coisa. Os presos que estão sob a tutela do estado devem ter a sua integridade física preservada, mas nem sempre isso acontece por aqui.

Infelizmente, somente depois do episódio do Aterro do Flamengo é que a ação dos justiceiros ganhou o destaque merecido na imprensa nacional. O crescimento da violência, como estamos assistindo no Brasil, me parece decorrente da omissão do poder público ao longo das décadas, no que diz respeito a investimentos em educação. Também é fruto da desigualdade social, que apesar de ter diminuído nos últimos dez anos, ainda é um fosso que separa pobres de ricos e pretos de brancos. E, por fim, me parece também fruto da incompetência dos governos em oferecer segurança e bem-estar à população. Porém, lançar mão da lei do "olho por olho e dente por dente" só vai levar a sociedade para a barbaridade absoluta, nos fazendo regredir pelo menos alguns milhares de anos no que diz respeito ao contrato social.